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Você lembra da última vez que aglomerou sem colocar em risco a vida do outro?

Aniversários, formaturas, festas... Um dia você festou sem saber que aquela seria a última vez

Por Paula Maciulevicius Brasil | 14/03/2021 09:45
Festas assim, sem ninguém de máscara, todo mundo junto sem a preocupação do distanciamento ou álcool em gel ficaram num passado: a.C (antes da Covid). (Foto: Arquivo Pessoal)
Festas assim, sem ninguém de máscara, todo mundo junto sem a preocupação do distanciamento ou álcool em gel ficaram num passado: a.C (antes da Covid). (Foto: Arquivo Pessoal)

Um dia você reuniu amigos e familiares, fez stories, não restringiu abraços nem beijos, dançou e cantou sem saber que seria a última vez. Até março de 2020, quando o então "novo" coronavírus ainda não tinha dado às caras, não existia o distanciamento social nem tampouco o uso obrigatório da máscara. Hoje, num contexto de medidas de biossegurança, onde espirro é sinal de perigo, as lembranças de aglomeração invadem a memória.

No dia 29 de fevereiro de 2020, Maria Luísa passou de colo em colo e recebeu beijos de parabéns de cada um dos 80 convidados. A menininha que completava o 1º ano de vida era recebida com sorriso aberto que não ficava atrás de proteção nenhuma. "Foi o último evento que meus pais participaram", recorda a mãe, farmacêutica Maria Letícia Faria Ortale, de 35 anos.

Maria Luísa entre com os avós José e Zuely Silva. Aniversariante passou no colo de todo mundo para receber os parabéns. Esta foi a última vez que os avós maternos saíram de casa. (Foto: Arquivo Pessoal)
Maria Luísa entre com os avós José e Zuely Silva. Aniversariante passou no colo de todo mundo para receber os parabéns. Esta foi a última vez que os avós maternos saíram de casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

À época da festa, a pandemia ainda não tinha este nome e o vírus estava a quilômetros de distância. "Meu irmão até comentou, mas no Brasil não se falava. Era uma coisa que estava na Europa, na China", conta.

Foram sete meses de planejamento da festa da primeira filha, Maria Letícia contratou buffet, decoração e fotografia. Até ali a única preocupação era "segurar" o sono para que a criança curtisse a festa. "Como ela dormia muito cedo, a gente estava interagir para ver se ela ficava acordada mais um pouquinho". Deu certo, porque Maria Luísa foi no colo de todo mundo. "E saiu toda marcada, cheia de batom", descreve.

A leveza com que Maria Letícia se recorda da festinha da filha é um contraste aos 12 meses que vieram a seguir. De lockdown, medidas restritivas e uma vida pautada em decretos.

"Sempre olho as fotos, porque a única coisa que fica mesmo são as fotografias, o momento, passa rápido", conclui.

Karine reuniu 100 convidados para o seu aniversário de 40 anos no dia 6 de março do ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal)
Karine reuniu 100 convidados para o seu aniversário de 40 anos no dia 6 de março do ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na noite do dia 6 de março de 2020, os cerca de 100 convidados da festa de 40 anos de Karine dançavam juntos e se abraçavam. A comemoração à altura do sonho da jornalista aconteceu na semana anterior aos primeiros anúncios de casos em Mato Grosso do Sul. "Sou corumbaense, adoro festa. Economizei por um tempo, porque era meu sonho e eu fiz do jeito que queria. Uma semana depois, praticamente isso, já se falava em lockdown", lembra.

O buffet onde ela comemorou fechou as portas em seguida. A festa dela foi uma das últimas também do espaço. "Teve banda de samba, que é o que a gente gosta e um DJ. Fiz quatro horas, das 21h até 1h da manhã", recorda a jornalista.

Jornalistas, amigos da aniversariante comemoravam o aniversário sem saber que aquela seria a última festa com "aglomeração". (Foto: Arquivo Pessoal)
Jornalistas, amigos da aniversariante comemoravam o aniversário sem saber que aquela seria a última festa com "aglomeração". (Foto: Arquivo Pessoal)

Sem restrição alguma, o que não faltou foi abraço e gente se juntando em fotos e stories. Entre os amigos havia até os de infância de Karine, dos tempos de Corumbá e também do Rio de Janeiro. "Foi uma festa muito calorosa, não nos limitamos a nada, dançamos pra caramba, tocaram as músicas da nossa época de adolescência", descreve.

Depois da festa, Karine nunca mais se reuniu com os amigos. "A gente sai, está trabalhando, está na rua, mas não pode fazer o que mais gosta, que é reunir os amigos", pontua. Se soubesse que aquela seria a última festa, a jornalista responde que teria feito mais 4h de comemoração.

"Se eu soubesse, a festa tinha demorado para acabar. Hoje sinto felicidade por ter feito e também nostalgia. Eu sempre fui assim, acho que o que a gente tem vontade, tem que viver. Nunca deixar pra amanhã. Hoje olho as fotos e falo ainda bem que realizei esse sonho".

No dia 14 de março de 2020, Giovanna Gomes Barbosa, hoje com 22 anos, já sabia que aquela poderia ser a última comemoração em meses, o que ela não esperava era chegar a um ano sem festas. A formatura em Publicidade e Propaganda, segundo curso da jovem, havia chegado depois de quatro anos de estudo.

Formatura de Giovanna em Publicidade e Propaganda aconteceu no último fim de semana de festas. Ela e as amigas aproveitaram até o último minuto. (Foto: Arquivo Pessoal)
Formatura de Giovanna em Publicidade e Propaganda aconteceu no último fim de semana de festas. Ela e as amigas aproveitaram até o último minuto. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Foi exatamente na semana que fechou a cidade. Foi uma das últimas que aconteceram antes de fechar Campo Grande por conta da pandemia. Até rolavam especulações se iria acontecer ou não", conta.

A então formanda não entendia muito bem o que estava para acontecer, como tudo era ainda muito novo, até se falava em vírus, quarentena, mas ninguém sabia de fato o que estava para vir.

Apesar de ser o segundo curso, essa foi a formatura mais esperada por ter mais amigos em comum colando grau também. "E foi a última reunião de pessoas, a aglomeração que nós tivemos, sabe?" Na mesa de Giovanna eram 26 convidados num contexto de 400 juntando todos os formandos. "O Golden Class estava lotado, foram mais umas três ou quatro turmas. Tinha muita gente", lembra.

O medo da pandemia já rondava e fez com que a Giovanna, sua família e amigos curtissem até o último momento.

"Tanto que por conta da pandemia, de não saber se iam fechar mesmo as coisas, eu, meus amigos e meus pais fomos os últimos a ir embora do buffet, pra aproveitar todos os momentos de cada segundo", recorda.

E valeu a pena. Por que nos dias seguintes, os primeiros decretos já colocaram limites e acrescentaram à nossa vida regramentos antes inexistentes. "Logo em seguida, em abril, era meu aniversário e eu sempre faço um evento que espero todo ano, porque gosto de fazer festa. Ano passado não fiz, até tinha esperanças de que este ano eu pudesse realizar pra poder reunir amigos e familiares, mas infelizmente vai ser adiado novamente".

Giovanna acompanhada dos pais Valdeci e Lena Barbosa na entrada no baile de formatura, ao redor público assistia sem a necessidade de máscara ou distanciamento. (Foto: Arquivo Pessoal)
Giovanna acompanhada dos pais Valdeci e Lena Barbosa na entrada no baile de formatura, ao redor público assistia sem a necessidade de máscara ou distanciamento. (Foto: Arquivo Pessoal)


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