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Após pressão, condenado por escravidão doméstica não será professor do IFMS

Decisão cita gravidade do caso Madalena Gordiano e falta de idoneidade moral

Por Kamila Alcântara | 23/06/2026 18:23
Após pressão, condenado por escravidão doméstica não será professor do IFMS
Dalton César Milagres Rigueira, condenado a 14 anos e 7 meses de prisão por submeter uma mulher a trabalho análogo à escravidão (Foto: Reprodução)

Depois de oito dias acompanhando o caso e sem retorno conclusivo da instituição, o Campo Grande News recebeu nesta terça-feira (23) o posicionamento do IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul) sobre a possível posse de Dalton César Milagres Rigueira, condenado a 14 anos e 7 meses de prisão no caso de Madalena Gordiano, mulher submetida por 39 anos a trabalho análogo à escravidão doméstica.

RESUMO

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O IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul) decidiu barrar a posse de Dalton César Milagres Rigueira, condenado a 14 anos e 7 meses de prisão por submeter Madalena Gordiano a 39 anos de trabalho análogo à escravidão, no cargo de professor em Coxim. Aprovado em primeiro lugar no concurso, ele teve a posse negada com base em parecer jurídico que apontou incompatibilidade moral com o cargo. O segundo colocado será convocado para a vaga.

O instituto informou que decidiu barrar a posse de Dalton no cargo de professor de Ciências Agrárias/Zootecnia, no campus de Coxim, a 253 quilômetros de Campo Grande. Ele havia sido aprovado em primeiro lugar no concurso público da instituição.

Ele chegou a ser convocado por causa das regras do concurso, mas não vai entrar no quadro de servidores. O IFMS explicou que, no serviço público federal, a nomeação não significa posse automática. A pessoa só passa a ocupar o cargo depois da posse, que foi negada no caso dele.

A decisão foi baseada em parecer jurídico da própria instituição. Segundo o IFMS, o caso envolve “circunstância de extrema gravidade e reprovabilidade social”, além de condutas consideradas incompatíveis com as atribuições de um professor.

O instituto também entendeu que a condenação criminal, mesmo ainda sem decisão definitiva, afasta a idoneidade moral necessária para o exercício do cargo público.

Com isso, Dalton não fará parte do quadro de docentes efetivos do IFMS. A instituição informou que o segundo colocado no concurso para a mesma área foi chamado para ocupar a vaga.

Em nota, o IFMS afirmou que mantém compromisso com a legalidade, a moralidade administrativa, a dignidade humana, os direitos humanos, a igualdade racial, a ética no serviço público e o enfrentamento ao racismo, à discriminação, ao trabalho análogo à escravidão e a outras violações de direitos.

Revolta - O Campo Grande News revelou no dia 15 de junho a indignação de servidores com a possibilidade de Dalton assumir uma vaga de professor no IFMS. À época, ainda não havia ato de nomeação publicado, e a instituição informou que o procedimento estava em análise.

A aprovação dele em primeiro lugar no concurso gerou desconforto dentro da instituição. Servidores apontavam que a condenação por crime ligado à escravização de uma mulher era incompatível com a função de docente em uma instituição pública de ensino.

Depois da reportagem, o Fórum Permanente das Entidades do Movimento Negro de Mato Grosso do Sul também se manifestou contra a possível posse. Em nota, o grupo classificou como “inadmissível” que uma instituição pública aceitasse em seus quadros uma pessoa condenada por crimes ligados ao caso de Madalena Gordiano.

O MPF-MS (Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul) também passou a acompanhar o caso e abriu procedimento administrativo para verificar quais providências seriam adotadas pelo IFMS na análise da vida pregressa do candidato.

Após pressão, condenado por escravidão doméstica não será professor do IFMS
Resgate de Madalena aconteceu em 2020 e o caso foi mostrado no Fantástico (Foto: Reprodução)

Madalena Gordiano - Madalena Gordiano foi resgatada em 2020, em Patos de Minas (MG), depois de passar 39 anos em situação de exploração. Segundo o MPF (Ministério Público Federal), ela começou a trabalhar ainda criança, aos 8 anos, sem salário, sem registro e sem acesso a direitos básicos.

A denúncia contra Dalton tratou do período em que Madalena viveu com ele e a família. Conforme a acusação, ela não recebia salário, cumpria jornadas exaustivas e era privada de condições adequadas de alimentação, saúde, higiene, lazer e educação.

Dalton foi condenado pela Justiça Federal de Minas Gerais por redução à condição análoga à de escravo, furto qualificado e lesão corporal. A pena total é de 14 anos e 7 meses de prisão, mas a decisão ainda não transitou em julgado.

O caso ganhou repercussão nacional e se tornou um dos episódios mais conhecidos de trabalho escravo doméstico no Brasil. Em reportagem anterior, a defesa de Dalton não quis se manifestar, sob argumento de que o processo em Minas Gerais tramita em sigilo.

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