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"Balotinho" não resistiu à covid-19, mas seu legado vai persistir na história

Família de Jerônimo Franco, 75 anos, é pioneira em Alcinópolis e ajudou a construir a cidade

Por Lucia Morel | 10/07/2020 07:43
A covid-19 chegou de surpresa na vida de Jerônimo, que faleceu em 6 de julho. (Foto: Reprodução)
A covid-19 chegou de surpresa na vida de Jerônimo, que faleceu em 6 de julho. (Foto: Reprodução)

A alegria de “Balotinho”, como era chamado Jerônimo Franco, 75 anos, é o que chamava atenção em sua personalidade. Levado pela covid-19 no último dia 6 de julho, a saudade para a família é da presença sempre alegre e bem humorada do idoso.

Um dos pioneiros de Alcinópolis, município a 317 Km de Campo Grande, Jerônimo foi relembrado pelo prefeito Dalmy Crisóstomo da Silva em sua página pessoal no Facebook. Ele faz parte da história da cidade, que também o homenageu nas redes oficiais da prefeitura.

“É com grande pesar que nos despedimos de Jerônimo Franco, um dos pioneiros do município de Alcinópolis-MS, descanse em paz meu amigo. Que Deus conforte todos os amigos e familiares”. A cidade tem 45 anos e a família de Jerônimo ajudou a construí-la.

Para um dos filhos de Balotinho, Nilton Martins Franco, 43 anos, a falta que o pai faz é grande, principalmente porque a covid-19 o levou de uma hora para outra, sem que ninguém esperasse. Diabético e hipertenso, Jerônimo enfrentava complicações das doenças, mas não havia gravidades.

Segundo Nilton, o pai deve ter se infectado em Campo Grande, para onde veio fazer uma cirurgia nos pés, para amputar dois dedos devido a diabetes. Ele contou que em setembro do ano passado, um armário caiu no pé de seu pai e a ferida que se formou, não cicatrizava.

Por conta disso, foi feito acompanhamento até que na segunda quinzena de junho foi marcado procedimento para que fossem amputados dois dedos. Feita a cirurgia, ele voltou para casa com um dos filhos no sábado, 27 e “estava tudo bem”.

No começo da semana, agente de saúde foi até a casa dele para fazer curativo e foi quando ela mediu a saturação de Jerônimo e identificou que estava baixa. “Como meu pai fumou muito tempo, ele já tinha uma respiração cansada e o médico falava que ia ser assim o resto da vida”, disse Nilton.

Com isso, a família achou que não passava de um problema da época de fumante, mas mesmo assim, o levaram ao médico, como orientou a agente de saúde. “Levei ele pro hospital e ele já internou”, isso, na terça-feira, 30 de junho e exame coletado para detecção de covid.

A internação ocorreu porque nos exames feitos no local foi identificada uma infecção no rim, que até então era desconhecida da família. A situação já havia chegado ao ponto de Jerônimo precisar de hemodiálise, procedimento que até então não havia sido realizado por ele.

Resultado positivo - Pedido então foi encaminhado ao Hospital Regional de Coxim para fazer hemodiálise, mas a vaga não surgia, até que na sexta-feira, 3 de junho, foi solicitado novo encaminhamento. No mesmo dia, chegou o resultado, positivo para covid-19, “e então eu fui ao chão”, disse o filho.

Diante da situação, Jerônimo foi encaminhado para internação em hospital de Costa Rica, referência para os casos da doença na região. “Ele nem sabia que estava com a doença, eu não contei, porque sei que ele ia ficar desesperado”, disse Nilton. Ele deixou o pai no local e voltou para casa, em Alcinópolis. Foi a última vez que o viu vivo.

Lavrador experiente e aposentado como servidor público, Balotinho estranhou não poder receber a visita de ninguém, mas segundo Nilton, ele explicou ao pai que como o hospital também tratava quem estava com o novo coronavírus, ele entendeu que não poderia haver muita circulação de pessoas.

“Eu não acredito que meu pai morreu, de jeito nenhum. Domingo eu falei com ele e eles estava muito bem, mais forte que antes. A gente percebe isso, eu vi que ele estava falando melhor. Pensei que em breve ia poder estar com ele de novo”.

Mas não foi assim, e na segunda-feira, ao chegar na Secretaria de Saúde de Alcinópolis com a família para fazer exame para detectar se ele também estava infectado, Nilson recebeu a notícia do falecimento do pai.

“Eu cheguei até brincando com os colegas, mas vi que estavam todos meio tristes. Foi então que veio a assistente social e me falou que meu pai tinha falecido. Eu não acreditei. Tinha falado com ele”, lamentou. Nilson é servidor da Vigilância Sanitária do município.

“Não vi enterrarem meu pai, estou isolado até amanhã (10 de julho). Isolaram eu e minha esposa e filhas por causa do contato com meu pai e me ligaram dizendo que sábado vão coletar de novo. Mas eu estou bem. O que me deixa mal é a falta dele”.

Para Nilton, o legado deixado pelo pai é de honestidade. “Meu pai foi meu pai e minha mãe. Minha mãe foi embora quando a gente era pequeno ainda e ele viveu para cuidar de nós, dos filhos. Criou os três sem nunca mais ter casado. A honestidade do meu pai é o que levo pro resto da vida”, contou.

Sobre o apelido Balotinho, o filho conta que é devido uma marca de bala na testa do pai, quando jovem, armado, foi abrir uma porteira a tiros e o projétil bateu na estrutura e voltou, acertando a testa de Jerônimo. “O povo todo ria dele, das brincadeiras e das histórias que ele tinha. Faz muita falta”.