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Interior

Vereador e policial escoltaram traficante da fronteira em carro roubado

Escolta ocorreu em setembro do ano passado; três dias depois, policial foi preso com o Ka roubado

Por Helio de Freitas, de Dourados | 06/05/2022 15:16
Olmedo Júnior captado por investigadores entrando em carro onde estavam vereador e policial (Reprodução)
Olmedo Júnior captado por investigadores entrando em carro onde estavam vereador e policial (Reprodução)

As investigações sobre a organização criminosa que transformou em “balcão de negócios” as delegacias da Polícia Civil em Ponta Porã (a 313 km de Campo Grande) revelaram também relações comprometedoras entre autoridades e integrantes do submundo do crime da fronteira.

Durante quase um ano, policiais civis da ativa e aposentados, suspeitos de ligação com o tráfico de drogas e até político foram monitorados através de escutas telefônicas e quebra de sigilo bancário autorizadas pela Justiça.

O resultado de meses e meses de investigação faz parte do relatório entregue pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) junto com os pedidos de prisão e de busca e apreensão cumpridos no âmbito da Operação Codicia (ganância, em castelhano), no dia 25 de abril deste ano.

Além da corrupção e até crime de tráfico de drogas envolvendo integrantes da Polícia Civil, a investigação revelou a estreita relação entre o suposto traficante João Batista Olmedo Júnior, 39, e os policiais civis aposentados Ronaldo Medina, 67, e Marcos Bello Benites, o “Marquinhos”, atual vereador em Ponta Porã.

Olmedo Júnior é um dos nove investigados que está preso há 11 dias. Medina e o vereador foram alvos de mandados de busca no dia da operação. O Gaeco chegou a solicitar a prisão temporária de Medina, mas o pedido foi negado pela Justiça.

Escolta – Enquanto monitoravam os alvos da operação, os investigadores do Gaeco descobriram que no dia 27 de setembro do ano passado, Ronaldo Medina e o vereador Marcos Bello Benites escoltaram João Olmedo Júnior em viagem a Campo Grande. Medina conduziu o carro, um Ford Ka sedan branco. O veículo era roubado.

Imagens captadas pelos investigadores mostram o veículo indo buscar Olmedo Júnior e os três entrando no veículo em outro ponto da viagem.

Três dias depois, Ronaldo Medina foi preso pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) na BR-463 conduzindo o carro roubado. Ele voltava para a cidade trazendo como passageira a irmã de João Olmedo Júnior. O Gaeco não conseguiu descobrir se Olmedo Júnior e Marcos Bello permaneceram em Campo Grande ou se voltaram em outro veículo.

O Ford Ka tinha sido roubado em Belo Horizonte (MG) e usava placa falsa. Medina alegou desconhecer a procedência ilícita do veículo e disse ter recebido o bem como pagamento de uma dívida.

“Ronaldo Medina tinha plena ciência da origem criminosa do veículo, já que, por se tratar de policial civil aposentado e residente na fronteira, facilmente constataria, por mera checagem em banco de dados no Detran ou mesmo em sistemas da própria Polícia Civil, que as placas afixadas não correspondiam àquele automóvel. Apesar de afirmar ter recebido o veículo em decorrência de uma dívida, sequer declinou corretamente o nome do antigo proprietário, não trazendo consigo nenhum documento comprobatório da propriedade”, afirma o Gaeco.

Protegido – Mesmo encaminhado para a Polícia Civil em Ponta Porã na condição de preso, o policial aposentado não foi autuado em flagrante. Os colegas de Medina apenas registraram boletim de ocorrência e o liberaram. Segundo o Gaeco, a organização criminosa o protegeu.

“A situação, desde a abordagem no Posto Capey da Polícia Rodoviária Federal, foi acompanhada de perto por Jonatas Pontes Gusmão, que entrou em contato com os policiais lotados na 1ª Delegacia de Polícia de Ponta Porã para questionar se já tinham recebido o flagrante”, afirma o grupo especial do Ministério Público.

A investigação aponta Ronaldo Medina, João Batista Olmedo Júnior, o irmão dele Ricardo Alexandre Olmedo (preso), Marcos Alberto Alcântara (preso) e Elisandro Ostergerg (alvo de mandado de busca no dia 25) como integrantes do “núcleo do tráfico”, que seria comandado pelo escrivão de polícia Jonatas Pontes Gusmão, o “Jhow”, também preso.

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