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17/04/2019 06:38

500 anos de Da Vinci: a história da Gioconda

Mário Sérgio Lorenzetto
500 anos de Da Vinci: a história da Gioconda

No caso de Leonardo, deveríamos, primeiro, desaprender. Há certos conceitos que estão instalados em nossa cabeça pelo peso da tradição, pela psicologia das massas, mas que deveríamos nos perguntar se são verdadeiros. A partir do século XIX criam um novo Leonardo, um Leonardo que não existia quando viveu há 500 anos.

500 anos de Da Vinci: a história da Gioconda
500 anos de Da Vinci: a história da Gioconda

Leonardo de carne e osso foi um derrotado.

Pode parecer inacreditável, mas Leonardo não era considerado um gênio em seu tempo. Muito pelo contrário, era um perdedor. Estava sempre fugindo. Depois de não ser aceito em Florença, vai a Milão. Mas em Milão, os franceses vencem a guerra e lá se vai Leonardo a Veneza. Outra derrota. Veneza a acabava de ser derrotada por Constantinopla e Leonardo já não tinha a quem vender seus artefatos para a guerra. Essa era uma da mais importantes identidade que ele procurava vender: um engenheiro dedicado a inventar instrumentos de guerra. Sua primeira e única vitória, enquanto viveu, foi com a "Santa Ceia".

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Iletrado, ilegítimo, bipolar...era Leonardo homossexual?

É curioso que, no caso de Leonardo, todas as biografias de sua época - Anonimo Gaddiano, Giorgio Vasari, Antônio Billio e Paolo Giovio coincidem em algo sobre Leonardo: era alto, forte, bonito, se penteava com esmero e cheirava muito bem.
Até nos anos 1975, por cinco séculos de história, Leonardo era para todos, um homem hétero e católico. Com a irrupção dos movimentos gays pelo mundo, Leonardo passa a ser conhecido como um homossexual ateu. Nenhuma dessas versões é correta.
Leonardo, sem duvida alguma, era iletrado, filho ilegítimo, disléxico, bipolar e com déficit de atenção e ponto final. Nada sabemos de sua vida sexual. O que houve foi uma acusação injusta e anônima de que ele havia praticado sodomia em um garoto. Por isso, passa dois meses no cárcere. Seu pai, notário dos Medici, vivia a 150 metros da prisão e não mexeu um pelo para libertá-lo. Era filho ilegítimo. Essa prisão faz com que Leonardo se torne um celibatário por toda a vida. Não conseguiu nem obter o nome da família de seu pai - família dos Vinci Fruosini - nem a profissão de notário.

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Leonardo buscava a alma.

Leonardo mudou o paradigma da representação da mulher. Em sua época, as mulheres se masculinizam um pouco, e os homens se feminizam outro tanto. Leonardo não se importa com esses modismos. Ele procura a alma. Não a alma teológica, mas a alma científica. Estava convencido que a alma residia no mesmo lugar onde estava o juízo. E ele faz uma pergunta que ninguém havia feito: "Este rapaz tem alma, mas a moça também tem alma? Por que não?"
Até aquele momento as mulheres eram retratadas segundo mandava o "Decor Polorum", um livro de finais do século XV. A mulher só podia ser retratada de perfil. A mulher era um objeto. Quando um rico pai entregava sua filha em sagrado matrimônio, também entregava um retrato dessa mulher. Era uma espécie de dádiva matrimonial, mas era de perfil. O primeiro trabalho do artista Leonardo foi a encomenda de um retrato de um milionário. Ele mudou o mundo dos retratos femininos no início de sua vida e no fim. O cisma final ocorre com a Gioconda.
Quando lhe encomendam o retrato de Ginebra de Banci, ele pinta uma mulher que tem alma. E essa quebra de protocolo, não aceitação do Decor Polorum, o impede de entrar nas graças da igreja.

500 anos de Da Vinci: a história da Gioconda
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Leonardo pintou a Gioconda?

O primeiro a conhecer é que existem cinco versões sobre a Gioconda. Alguns autores dizem que era Lisa Gherardini, esposa de Francesco Del Giocondo. Outros dizem que Leonardo nunca pintou Lisa Gherardini, quem a teria pintado foi seu marido. Outros dizem que nada sabemos sobre a identidade da Gioconda. Outros dizem que pintou uma mulher chamada Gioconda, uma dama que sorria, mas nada sabemos sobre ela. E finalmente, temos a teoria de que Leonardo pintou as duas - Lisa e Gioconda. Cinco evidências, todas discrepantes.

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Gioconda não era famosa. É fruto de uma campanha de marketing.

A Itália do século XIX é um país de pronúncia de sentimentos nacionalistas. É a época da unificação. A Inglaterra estava unificada, a França estava unificada e também a Espanha. A Itália não.
Afloram os sentimentos patrióticos e com ele, vem os grandes italianos. Dante, Petrarca, Michelangelo e Rafael são sublimados. Leonardo não. Onde estava a figura de Leonardo? Na França. Foi lá que viveu - e bem - seus últimos anos. Pois bem, dizem as autoridades italianas, se eles viram Leonardo morrer, nós temos a Última Ceia. E respondem os franceses, tirando um "coelho da cartola": nós temos a Gioconda. Quem é essa?
Em 1911, Vincenzo Perrugia, um antigo trabalhador do Louvre, decide, ao passar pela Gioconda, que estava em um corredor onde ninguém ia vê-la, a meteu debaixo do casaco e "adiós". Quando chega em Florença e a entrega no Uffizi, os diretores dizem: "Isto não é legal nem moral". Devolvam a Gioconda à França.
É claro que depois dessa notícia estar em todas as manchetes do mundo, a Gioconda não mais estaria perdida em um corredor qualquer do Louvre. A França havia vencido uma batalha artística. E essa guerra pelos trabalhos de Leonardo segue até hoje. A França solicitou há pouco alguns trabalhos de Leonardo para a Uffizi para comemorar os 500 anos do falecimento. E o que respondeu a Uffizi? Até nunca. A França venceu a Copa do Mundo de Futebol. Como comemorou? Estampando nas camisetas oficiais da Federação Francesa de Futebol a figura da Gioconda. Assim foi desde o retorno da Gioconda ao Louvre. A Gioconda vende mais que a Torre Eiffel e Versailles somados. A imensa maioria dos que entram nesse museu, tiram uma foto o mais próximo possível da Gioconda (junto com 200 chineses) e vai embora.



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