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22/10/2018 07:25

Comprar, jogar fora, comprar...

Mário Sérgio Lorenzetto
Comprar, jogar fora, comprar...

Cada história têm um começo. Mas poucas vezes podemos colocar datas exatas para elas. A da obsolescência programada, o desperdício de todos os produtos, por incrível que pareça, têm um ponto de partida exato. Em 23 de dezembro de 1924 começaram a programar os produtos para que eles tivessem pouca vida útil. É o início da era de usar e jogar fora todo e qualquer produto. V

Ventilador? Use um pouco e jogue fora. Carros? Não passam de cinco anos de uso. Mas essa história começa com as lâmpadas. Nessa data, se reuniram em Genebra, na Suíça, os principais fabricantes mundiais de lâmpadas, entre eles companhias como Phillips, General Electric e Osram. ali assinaram um documento em que se comprometiam a limitar a vida útil de seus produtos a 1.000 horas de uso, em lugar das 2.500 horas que alcançavam até então. O motivo, claro está, era o de obter maiores lucros. Havia nascido o primeiro pacto global para estabelecer - intencionalmente - uma data de caducidade a um bem de consumo.

Esse acordo oficializava a nova era do consumo. Todos os demais fabricantes - de qualquer produto - incorporaram esse princípio em seu modelo de negócio que ficou escancarado em uma revista - "Printer´s Ink" - de 1928: "Um artigo que não se desgasta é uma tragédia para os negócios". Na década dos 1950 lhe deram o nome de "obsolescência programada". Belo nome para uma ideia criminosa.

Comprar, jogar fora, comprar...

A obsolescência programada hoje está em nossas mentes.

Nos Estados Unidos de plena expansão industrial, surgiu o mais eloquente defensor do desperdício. O desenhista industrial Brooks Stenvens popularizou o termo "obsolescência programada!" quando foi a público afirmar que seu país deveria "instalar nos compradores o desejo de possuir algo um pouco mais novo, um pouco melhor, um pouco antes do necessário".

Aquela obsolescência inaugural era um modelo para a classe média, propunha um consumo mais generalizado e não reduzido a círculos de milionários. Agora é um fenômeno muitíssimo mais disseminado e integrado. Se converteu em algo mais sibilino e poderoso. Já não está apenas nos bens de consumo, está em nossa cabeça.

Comprar, jogar fora, comprar...

O medo tornou-se a chave da obsolescência programada.

Somente há bem pouco tempo as sociedades começaram a entender os perigos desse ciclo infinito de consumo e de suas consequências mais além de nossos bolsos. Todavia, essa tomada de consciência trava um duro embate com o medo que a economia do crescimento difunde de sair desse sistema. Nos leva a acreditar que se não existir esse crescimento todos nos tornaremos pobres, não teríamos trabalho, seria como se voltássemos à Idade Média... só que não é verdade.

Existiram outros sistemas antes da obsolescência programada e existirão outros depois dela. O que temos é uma obsolescência psicológica. Há um discurso ameaçador muito forte: uma imensa multidão ficaria fora do atual sistema de consumo. A verdade é que a obsolescência deixou de ter esse sentido de chamar ao crescimento e bem estar, ela passou a ter um elemento de exclusão.

A publicidade jogou um papel chave nessa mudança em nossa psique que nos empurra a querer, por exemplo, aquele celular novo sem pensarmos sequer se o que temos funciona perfeitamente e resolve todos os problemas possíveis para esse aparelho. Se observarem os anúncios de duas ou três gerações antigas, diziam que seu produto era melhor, era mais rápido. Agora, às vezes, nem te mostram esse produto. Vinculam os objetos a nossas inseguranças.

Passamos a aceitar a falsa ideia que temos o direito de jogar fora um objeto que funciona perfeitamente. A mais ameaçadora consequência da obsolescência programada é a de que em 2025 os humanos gerarão 54 milhões de toneladas procedentes de produtos eletrônicos. A economia do crescimento infinito em conjunto com a obsolescência programada não funciona a longo prazo porque não conseguimos acelerar sempre, há um máximo de recursos e e energia a serem gastos.

Com a sociedade de crescimento infinito estamos todos em um carro, em alta velocidade, que ninguém pilota e cujo destino é um muro.



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