Educação não é produto: é formação para a vida
A educação básica brasileira: educação Infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, precisa ser constantemente repensada. E essa reflexão deve alcançar também, e talvez principalmente, o universo das escolas particulares, onde em alguns casos o processo educacional parece estar cada vez mais próximo de uma relação comercial e cada vez mais distante daquilo que deveria ser sua essência: formar pessoas para a vida em sociedade.
É importante deixar claro que não se trata de generalizar. Existem inúmeras escolas particulares sérias, comprometidas com a formação acadêmica, científica, humana e social de seus alunos. Mas também é necessário ter coragem para discutir comportamentos que vêm se tornando cada vez mais comuns e que podem contribuir para a formação de uma geração excessivamente protegida, emocionalmente pouco preparada para as frustrações e intelectualmente pouco estimulada a enfrentar dificuldades.
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A escola não pode ser apenas um lugar onde se compra conhecimento, se exige aprovação e se cobra desempenho. Educação é muito mais do que isso. Quando proteger demais passa a prejudicar
Um exemplo simples está nas portas das escolas.
É cada vez mais comum observar filas duplas, triplas e até quádruplas de veículos nos horários de entrada e saída. Em algumas instituições, existem espaços destinados a que a criança seja deixada praticamente na porta da escola, evitando até mesmo pequenos deslocamentos ou situações de espera.
À primeira vista, isso pode parecer apenas comodidade ou segurança. Mas é preciso perguntar: que mensagem estamos transmitindo às nossas crianças?
Uma criança que cresce acreditando que todos os obstáculos devem ser removidos pelos adultos pode chegar à adolescência e à vida adulta sem desenvolver adequadamente autonomia, responsabilidade, capacidade de lidar com frustrações e compreensão de que a vida real nem sempre oferece conforto.
O mundo lá fora não possui estacionamento exclusivo para cada indivíduo.
A vida exige espera, esforço, negociação, convivência, responsabilidade, capacidade de ouvir um "não", respeito às diferenças e disposição para recomeçar depois de um fracasso.
Família e escola não podem inverter seus papéis. Parte desse problema também precisa ser discutida dentro das próprias famílias.
Ser pai ou mãe não significa eliminar todas as dificuldades do caminho dos filhos. A paternidade e a maternidade também são exercícios de preparação para a própria ausência. Criamos nossos filhos para que um dia caminhem sem nós.
Isso exige amor, mas também exige limites. Exige proteção, mas também exige autonomia. Exige acolhimento, mas também exige responsabilidade.
Quando um aluno recebe uma nota baixa e imediatamente os pais procuram a escola para pressionar professores e coordenadores, questionando a avaliação antes mesmo de conversar com o próprio filho sobre sua responsabilidade, estamos diante de uma inversão perigosa.
O professor deixa de ser visto como educador e passa a ser tratado como um prestador de serviço que precisa justificar a "satisfação do cliente". Mas educação não pode funcionar dessa maneira, pois nota baixa também ensina.
Quem viveu outras gerações provavelmente se lembra de que uma nota vermelha significava, antes de tudo, uma conversa em casa.
Os pais perguntavam:
"O que aconteceu?"
Era preciso estudar mais. Recuperar o conteúdo. Assumir a responsabilidade. Aprender com o erro. Isso não significa defender punições excessivas ou uma educação baseada no medo. Significa reconhecer que frustração também educa.
Uma nota baixa não deve ser motivo de humilhação. Mas também não precisa ser automaticamente transformada em culpa do professor ou da escola.
O erro pode ser uma das ferramentas mais importantes do aprendizado. Uma criança precisa compreender que suas escolhas produzem consequências e que responsabilidade não pode ser terceirizada permanentemente.
Educação não pode produzir exclusivismo!
Outro ponto que merece atenção é o risco de uma educação excessivamente segregada da realidade social. A escola deve preparar o aluno para conviver com pessoas diferentes: diferentes condições econômicas, diferentes histórias familiares, diferentes culturas, diferentes perspectivas e diferentes maneiras de enxergar o mundo. Uma educação baseada exclusivamente na lógica do privilégio pode criar uma falsa percepção de realidade.
O mundo não é homogêneo!
E uma sociedade democrática depende justamente da capacidade de conviver com as diferenças.
Por isso, a educação precisa valorizar a ciência, o conhecimento técnico, a cultura, a ética, o trabalho, a solidariedade e a coletividade. Precisa ensinar que ninguém constrói uma sociedade sozinho.
Precisamos formar cidadãos, não consumidores!
O grande desafio da educação contemporânea é não permitir que a lógica de mercado ocupe o lugar da formação humana. Uma escola pode ter excelente infraestrutura, tecnologia, laboratórios, idiomas, atividades esportivas e inúmeros recursos. Tudo isso é importante.
Mas nenhuma estrutura substitui uma pergunta fundamental:
Que tipo de ser humano estamos ajudando a formar?
Um jovem preparado apenas para obter boas notas pode não estar preparado para a vida. Precisamos formar pessoas capazes de pensar criticamente, argumentar, ouvir, respeitar, discordar, trabalhar em equipe, solucionar problemas, lidar com derrotas e reconhecer seus próprios erros. Precisamos de jovens emocionalmente preparados para enfrentar desafios e intelectualmente preparados para questionar, pesquisar e aprender continuamente. E precisamos, sobretudo, formar cidadãos e cidadãs conscientes de seus direitos, mas também de seus deveres.
Patriotismo também passa pela educação!
Falar em cidadania também é falar em pertencimento. Uma educação transformadora deve contribuir para que o aluno conheça seu país, sua história, sua cultura, suas dificuldades e suas potencialidades.Patriotismo não deve significar intolerância ou superioridade em relação ao outro. Pelo contrário: pode significar compreender que fazemos parte de uma sociedade da qual também somos responsáveis. Cuidar do espaço público. Respeitar as leis. Valorizar o trabalho. Preservar o meio ambiente. Respeitar quem pensa diferente. Defender a democracia. Conhecer a história. Valorizar a ciência e o conhecimento.
Tudo isso também é educação!
É hora de repensar. Não podemos responsabilizar exclusivamente as escolas particulares por esse cenário. A família tem papel fundamental. O Estado também tem responsabilidades. professores e gestores possuem suas atribuições. E a própria sociedade precisa refletir sobre os valores que está transmitindo às novas gerações. Mas justamente por isso precisamos discutir o tema sem medo.
É necessário fortalecer mecanismos de acompanhamento e fiscalização da educação, garantindo que instituições públicas e privadas cumpram sua função social e ofereçam uma formação que vá além da preparação para provas e vestibulares. A escola não deve ser uma extensão da sala de estar da família. E os pais não devem enxergar a escola apenas como uma empresa contratada para entregar resultados.
Educação é uma responsabilidade compartilhada!
Precisamos ensinar nossos filhos a caminhar, não apenas abrir caminho para eles. Precisamos ensiná-los a vencer, mas também a perder. Precisamos ensiná-los a conquistar, mas também a compartilhar. Precisamos ensiná-los a questionar, mas também a ouvir. Precisamos ensiná-los a serem livres, mas conscientes de que liberdade vem acompanhada de responsabilidade.
O futuro não será construído por uma geração protegida de todas as dificuldades. Será construído por pessoas capazes de enfrentar dificuldades sem perder a humanidade, o conhecimento, a ética e o respeito pelo próximo.
Por isso, talvez a pergunta mais importante que pais, professores, gestores e toda a sociedade devam fazer seja:
Estamos educando nossos filhos para viverem confortavelmente dentro de uma bolha ou estamos preparando-os para transformar, com responsabilidade, o mundo real?
Essa é uma reflexão que não pode mais ser adiada.
Há de se pensar no futuro. Há de se pensar na educação.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.

