Ser e Estar: entre a identidade e a transformação
Costumamos nos definir com sentenças taxativas. Dizemos com convicção: “sou ansioso”, “sou tímido”, “sou um fracasso em matemática” ou até “sou um líder nato”. No entanto, a gramática da vida revela uma armadilha sutil nessa fixação do verbo ser. Na essência da existência humana, marcada pela finitude e pela transformação constante, nós raramente somos de forma imutável; nós quase sempre estamos.
Reconhecer a transitoriedade do "estar" é o divisor de águas entre a estagnação e o crescimento. Quando uma criança aprende que está com dificuldade em um conteúdo e não que é incapaz , o erro deixa de ser um veredicto sobre seu valor pessoal e passa a ser apenas um estado momentâneo, superável com esforço, método e tempo. Essa distinção fundamenta a mentalidade de crescimento indispensável para formar alunos resilientes e líderes conscientes, capazes de navegar pela incerteza sem se apegar à vaidade do sucesso temporário nem sucumbir ao desânimo da adversidade passageira.
Essa virada de chave, contudo, não nasce de um manual acadêmico; ela germina primeiro no seio familiar. É em casa, na reação dos pais diante de um boletim desfavorável ou de um comportamento inadequado, que a criança internaliza como lidar consigo mesma. Frases como “você é desorganizado” rotulam e aprisionam; por outro lado, apontar que “seu quarto hoje está desorganizado, vamos arrumar?” ensina responsabilidade sem destruir a identidade.
Para que esse aprendizado floresça de forma integral, é indispensável haver harmonia entre a família e a escola. Quando educadores e responsáveis falam a mesma língua, o ambiente escolar se torna um terreno seguro para o cultivo da liderança e da autonomia. A escola amplia o que o lar semeou, transformando o espaço de sala de aula em um laboratório de experiências onde os estudantes aprendem a gerenciar suas emoções, assumir riscos calculados e entender que posições, cargos e notas são apenas circunstâncias passageiras, o que permanece é o caráter e a capacidade de aprender a aprender.
Preparar os jovens para o futuro exige desarmar as certezas estáticas do verbo "ser". Ao ensinar que a vida é um contínuo exercício de "estar", família e escola entregam às próximas gerações a ferramenta mais nobre da liderança: a sabedoria da impermanência e a liberdade de poder sempre evoluir.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.

