A fila do avião e a crise da regra!
Existe uma cena idêntica repetida diariamente nos aeroportos do país: o alto-falante anuncia o embarque das fileiras 20 a 30, mas uma multidão amontoa-se imediatamente no portão, bloqueando o acesso de quem realmente foi chamado. Horas depois, assim que os pneus do avião tocam a pista, o sinal de cintos continua aceso e a tripulação pede para todos permanecerem sentados. O resultado? Um estalo coletivo de fivelas e dezenas de passageiros de pé no corredor estreito, curvados sob o bagageiro, esperando sem ir a lugar algum.
Esse fenômeno, a urgência ansiosa por levar vantagem ou por se antecipar ao coletivo, não se limita aos voos. É o mesmo impulso que faz o motorista sem nenhuma limitação física estacionar na vaga reservada a idosos ou PCDs "só por cinco minutinhos". O fio condutor de todas essas atitudes é o mesmo: a erosão do respeito às normas coletivas e a prevalência do "eu" sobre o "nós".
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A origem dessa conduta não nasce no aeroporto nem no estacionamento do shopping. Ela é cultivada na base, no seio familiar, onde a noção de limite, empatia e civilidade deveria ser assimilada como valor inegociável. A família é a primeira instituição a ensinar que a liberdade individual termina onde começa o direito do outro.
À escola cabe a complementação e o aprofundamento dessa formação moral e cidadã. No entanto, o sistema educacional enfrenta hoje um curto-circuito pedagógico. Em muitas instituições, sobretudo no ensino privado, a relação pedagógica foi substituída por uma lógica estritamente comercial. Quando um aluno tira uma nota baixa ou descumpre uma regra, tornou-se comum ver pais que não orientam o filho, mas atacam a escola e questionam o professor. Em casos extremos, a instituição cede à pressão do cliente e pune ou demite o docente que ousou aplicar a norma.
Quando a família falha em impor limites e a escola é desautorizada a educar, o resultado é a formação de indivíduos que não reconhecem autoridade, regras ou pactos sociais. Se a nota ruim pode ser negociada e a autoridade do professor desfeita pelo poder aquisitivo dos pais, por que o indivíduo respeitaria a fila do embarque ou a sinalização de trânsito?
O caminho para reverter esse cenário é indissociável da educação, mas de uma educação ressignificada:
Responsabilidade familiar: Os pais precisam reassumir o papel de primeiros educadores, ensinando frustração, respeito e civilidade dentro de casa.
Valorização da autoridade docente: A sociedade precisa devolver ao professor e à escola a legitimidade para avaliar, corrigir e impor limites sem a interferência da conveniência comercial.
Coerência comunitária: Compreender que normas coletivas não são sugestões opcionais, mas a engrenagem que garante o funcionamento e a justiça de uma sociedade.
Sem o resgate desses pilares, continuaremos a ser uma sociedade de passageiros ansiosos no corredor do avião: de pé, apressados e completamente travados no mesmo lugar.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.

