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O paradoxo digital: acesso à informação e os desafios para uma geração

Por Carlos Alberto Rezende (*) | 14/01/2026 08:53
O paradoxo digital: acesso à informação e os desafios para uma geração
(Foto: Arquivo pessoal)

Vivemos a era da informação mais abundante da história humana. Com alguns toques em telas, acessamos séculos de conhecimento, notícias em tempo real e múltiplas perspectivas sobre qualquer tema. Contudo, essa democratização do conhecimento apresenta um paradoxo preocupante: em vez de criar uma sociedade mais crítica e reflexiva, observamos o surgimento de tendências imediatistas, superficiais e individualistas, especialmente entre os nativos digitais, vivemos a ilusão da profundidade.

O acesso ilimitado à informação não se traduz necessariamente em compreensão aprofundada. A neurociência revela que o consumo fragmentado e constante de conteúdos reduz nossa capacidade de atenção sustentada. A mentalidade de "scroll infinito" nos condiciona a priorizar novidades sobre profundidade, substituindo a reflexão pela reatividade.

O design das plataformas digitais reforça esse comportamento através de algoritmos que privilegiam conteúdos emotivos e polarizantes, criando bolhas informacionais que reforçam convicções pré-existentes em vez de expandir horizontes intelectuais, criando o individualismo digital.

Paradoxalmente, a hiperconectividade tem fragmentado nossa experiência coletiva. Personalizamos tanto nosso fluxo informacional que compartilhamos menos referências culturais comunitárias. O conhecimento tornou-se cada vez mais customizado, atomizado e desvinculado de contextos sociais mais amplos. Esse individualismo informacional mina os fundamentos do diálogo democrático, pois dificulta a construção de consensos baseados em fatos compartilhados e em análises comuns da realidade, tendo a superficialidade como norma. A economia da atenção recompensa simplificações excessivas. Nuances e complexidades são sacrificadas em prol de manchetes impactantes e explicações monocausais.

Formamos opiniões baseadas em fragmentos de informação, frequentemente desprovidos de contexto histórico ou análise crítica. A habilidade de acessar instantaneamente respostas mina o desenvolvimento da resiliência intelectual necessária para enfrentar problemas complexos, criando uma expectativa irrealista de soluções imediatas para questões profundamente enraizadas. Creio que existem alguns caminhos para iniciar a restauração da profundidade.

Esta realidade não é irreversível. Podemos cultivar um relacionamento mais saudável com a informação através de:

- Educação midiática como um componente dos currículos escolares;

 - Consumo consciente de informação, priorizando fontes diversas e confiáveis;

- Espaços para diálogo profundo que valorizem a complexidade sobre simplificações;

- Práticas digitais intencionais, como períodos de desconexão para reflexão;

- Valorização do conhecimento processual sobre o mero acesso a informações.

O acesso à informação é uma conquista civilizatória monumental, mas seu potencial transformador depende de como o internalizamos. A verdadeira sabedoria não reside na quantidade de informações a que temos acesso, mas em nossa capacidade de filtrar, contextualizar e transformar essas informações em compreensão significativa.

Cabe a nós moldar as ferramentas digitais para servir à profundidade humana, em vez de permitir que elas nos moldem à superficialidade algorítmica. O desafio contemporâneo não é acessar mais informação, mas cultivar a sabedoria para navegá-la com propósito coletivo.

(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.