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O algoritmo conhece meu desejo?

Por Lia Rodrigues Alcaraz Spengler | 19/08/2026 11:00


Você já percebeu como, depois de pesquisar um produto, assistir a um vídeo ou curtir uma publicação, as redes sociais parecem saber exatamente o que mostrar em seguida? Essa capacidade dos algoritmos pode produzir a sensação de que somos profundamente conhecidos pela tecnologia. Mas será que aquilo que o algoritmo prevê como nosso próximo clique é, de fato, aquilo que desejamos? E é justamente essa questão que pode ser pensada a partir da psicanálise.

Os algoritmos analisam dados, nossas curtidas, pesquisas, tempo de permanência em uma publicação, compras, compartilhamentos e inúmeros outros comportamentos. A partir dessas informações, conseguem identificar padrões e fazer previsões bastante precisas sobre nossas preferências. Entretanto, para Freud, o desejo não se limita àquilo que sabemos conscientemente querer.

Desde Freud, a psicanálise nos apresenta a ideia de que existe uma dimensão inconsciente que participa de nossas escolhas. Sonhos, sintomas, atos falhos e repetições podem revelar algo que o próprio sujeito desconhece sobre si. Há, portanto, uma diferença importante entre saber o que uma pessoa faz e compreender por que ela deseja aquilo que faz. Já pensando em Lacan aprofunda essa questão ao relacionar o desejo à falta e à linguagem. O desejo não é simplesmente a vontade de possuir um determinado objeto. Ele se constitui na relação com o Outro e permanece em movimento justamente porque nenhum objeto consegue preenchê-lo completamente.

É nesse ponto que as redes sociais se tornam especialmente interessantes para a psicanálise. O feed infinito, as notificações, os vídeos curtos e a sucessão constante de novos estímulos produzem pequenas doses de satisfação que rapidamente desaparecem. Logo surge a necessidade de mais um vídeo, mais uma curtida, mais uma novidade. A satisfação nunca parece ser suficiente.

 Podemos pensar, então, em uma aproximação entre essa dinâmica e a lógica pulsional, repetir, buscar novamente, aproximar-se de uma satisfação que nunca se completa inteiramente, mas há algo que o algoritmo não consegue alcançar, o sentido subjetivo daquele comportamento.

Uma pessoa pode consumir conteúdos sobre produtividade e acreditar que busca apenas melhorar seu desempenho. Mas, por trás dessa busca, pode existir uma necessidade de reconhecimento, aprovação ou pertencimento. Outra pode acompanhar incessantemente conteúdos sobre relacionamentos sem perceber que está, na verdade, diante de questões relacionadas ao abandono, à falta ou à repetição de determinadas posições subjetivas.

O algoritmo pode identificar a regularidade, já a psicanálise procura escutar aquilo que escapa à regularidade. Por isso, talvez seja mais preciso dizer que o algoritmo conhece nossas preferências, mas não necessariamente conhece nosso desejo.

Ele pode saber qual vídeo provavelmente assistiremos, qual produto provavelmente compraremos e qual conteúdo provavelmente prenderá nossa atenção, pode até antecipar nosso próximo movimento, mas permanece uma pergunta que não se resolve por meio de dados: o que estamos realmente desejando quando acreditamos desejar determinada coisa?

Essa pergunta é ainda mais importante em uma época em que somos constantemente convidados a consumir, escolher, responder e clicar. A tecnologia pode conhecer nossos hábitos, pode prever nossos comportamentos, pode organizar uma enorme quantidade de informações sobre nós, mas o desejo, para a psicanálise, permanece marcado pela falta, pelo inconsciente e pelo enigma.

E talvez seja justamente aí que esteja o limite do algoritmo: ele pode prever o que faremos, mas não necessariamente pode responder à pergunta sobre por que desejamos aquilo que desejamos.No fim, o desejo continua sendo um mistério, nao sendo capaz de ser decifrado por uma maquina.

(*) Lia Rodrigues Alcaraz Spengler é formada em psicologia (2011),  Especialista em orientação Analítica (2015), Especialista em neuropsicologia (2026) e está em Formação para  Psicanalista. Trabalha como psicóloga clínica em consultório particular.