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Política

Eleição coloca em jogo a hegemonia política construída em MS

Reeleição e conquista do Senado consolidariam poder, mas interesses divergentes deixariam aliança em xeque

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 03/10/2026 17:51
Eleição coloca em jogo a hegemonia política construída em MS
No último ato público da campanha pelo primeiro turno, Reinaldo Azambuja, Tereza Cristina e Eduardo Riedel posam para apoiadores (Foto: Osmar Veiga)

Uma eleição só termina quando o último voto for contado. Mas as pesquisas eleitorais indicam amplo favoritismo pela reeleição do governador Eduardo Riedel (PP) e pela conquista das duas vagas ao Senado pelo ex-governador Reinaldo Azambuja e seu novo parceiro no PL, o Capitão Contar.

RESUMO

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Pesquisas apontam favoritismo do governador Eduardo Riedel (PP) à reeleição em Mato Grosso do Sul e de Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL, às duas vagas no Senado. Uma vitória levaria o grupo ao quarto mandato consecutivo e a 16 anos de hegemonia, algo inédito no Estado. Fábio Trad (PT) questionou o modelo de gestão, e o cientista político Daniel Miranda alerta para o risco de divisões na coalizão de nove partidos antes de 2030.

O que está em jogo quando o sul-mato-grossense depositar o voto na urna neste domingo é mais do que a eventual continuidade da gestão estadual ou a ascensão da direita bolsonarista a um Senado marcado pelo embate com ministros do STF (Supremo Tribunal Federal): o grupo dominante, com a perspectiva de chegar ao quarto mandato consecutivo no governo, poderá consolidar uma hegemonia de 16 anos no poder, algo inédito na história política de Mato Grosso do Sul.

De quebra, manteria um modelo de gestão alicerçado na aliança entre o grande agro e a política, com forte participação de investimentos sustentados por renúncias tributárias.

Duas visões para o Estado

A eleição chega à reta final marcada por duas campanhas que deram sentidos diferentes à disputa. De um lado, Riedel transformou o balanço de seu governo no principal argumento eleitoral: obras, investimentos, infraestrutura, segurança, equilíbrio fiscal, atração de empresas e crescimento econômico. De outro, Fábio Trad (PT) tentou deslocar a discussão para as prioridades desse modelo de desenvolvimento, com maior ênfase para o que falta em saúde, habitação, serviços públicos e distribuição dos resultados do crescimento. No final, conseguiu colocar um contraponto ao modelo administrativo que até a campanha não sofria questionamentos.

A engenharia política de Reinaldo Azambuja pode funcionar caso a vitória do grupo se confirme, mas a supercoalizão de nove partidos, que reúne diferentes correntes do centro à direita bolsonarista, terá de sobreviver a um novo ciclo de quatro anos marcado por interesses cada vez mais divergentes.

Eleição coloca em jogo a hegemonia política construída em MS
Candidato ao Senado, Renan Contar (PL) em entrevista na concentração da carreata de Riedel e apoiadores (Foto: Osmar Veiga)

O núcleo formado por Riedel, Azambuja e Tereza Cristina concentra hoje a capacidade de coordenação, mas a aliança também abriga polos autônomos como Nelsinho Trad, André Puccinelli, Rose Modesto e Adriane Lopes, além de uma direita bolsonarista representada por Capitão Contar, Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira.

PP, PL, União Brasil, MDB, PSD, Republicanos e demais siglas podem convergir enquanto o objetivo comum for manter o grupo no comando do Estado.

A própria amplitude da coalizão aumenta a necessidade de acomodar interesses divergentes. Uma eventual vitória em 2026 pode representar, ao mesmo tempo, o auge da força do grupo e o início de uma nova disputa interna: quanto maior a hegemonia, maior o número de lideranças com pretensão de ocupar o espaço que ela criou.

A força de Azambuja

Riedel e Azambuja estão em partidos diferentes, PP e PL, mas pertencem ao mesmo campo político. Se Riedel for reeleito será a quarta vitória consecutiva desse grupo na disputa pelo governo estadual.

Segundo o cientista político Daniel Miranda, a sequência representa um fenômeno. “As três vitórias seguidas pelo PSDB (2014, 2018 e 2022) já são inéditas no Estado”, diz, lembrando que a eventual vitória nesse domingo consolidaria uma “hegemonia histórica” na região. A força dessa estrutura, segundo ele, não está apenas no Executivo, mas alcança prefeituras, Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados, Senado e outras estruturas de poder.

Nesse arranjo, Azambuja ocupa posição central. O ex-governador construiu uma ampla rede de alianças e, ao escolher Riedel como seu pupilo, tornou-se peça importante na continuidade desse grupo. Uma vitória dos dois poderá ampliar ainda mais seu peso na política estadual e projetá-lo nacionalmente.

Para Daniel Miranda, “a peça central de toda essa movimentação é Azambuja”. As decisões do ex-governador, na avaliação do cientista político, terão influência decisiva sobre o desenho do campo político em 2030, especialmente diante da disputa pela sucessão de Riedel.

O risco da fragmentação

A expansão do grupo, porém, contém uma possível fonte de disputa. Quanto maior a coalizão, maior o número de lideranças, projetos e interesses a acomodar. Hoje, Riedel e Azambuja podem caminhar juntos; em 2030, sem um governador buscando a própria reeleição, integrantes desse mesmo campo poderão disputar o espaço para sucedê-lo.

“A questão é por quanto tempo eles vão conseguir fazer isso”, afirma Miranda. Segundo ele, a hegemonia atual “esconde, ou pelo menos não nos permite enxergar, as eventuais clivagens e divisões internas do grupo”, que podem amadurecer nas próximas eleições. “Essa eleição vai ter também os seus frustrados, como toda eleição tem. Pra onde que vão esses frustrados? Quantos serão?” Para ele, a dificuldade de acomodar todos os interesses tende a crescer. “Não vai ter vaga e cargo pra todo mundo, não vai ter eleição, não vai ter voto pra todo mundo”, afirma o cientista político.

Eleição coloca em jogo a hegemonia política construída em MS
Da esquerda para a direita, Vander Loubet, Soraya Thronicke e Fábio Trad juntos no trio elétrico durante carreata neste domingo (Foto: Osmar Veiga)

A disputa que chega à urna

Riedel construiu a campanha sobre a continuidade. Em 2022, precisava tornar-se conhecido; agora, apresentou-se como o candidato que deveria concluir um projeto iniciado no primeiro mandato. Infraestrutura, logística, industrialização, qualificação profissional, segurança, equilíbrio das contas públicas e atração de investimentos foram alguns dos pilares de seu discurso.

A estratégia administrativa foi acompanhada por uma aliança política ampla, que reúne PP, União Brasil, PL, PSDB/Cidadania, Podemos, Avante, Republicanos, PSD e MDB. A questão eleitoral para o governador foi transformar essa estrutura política e os resultados apresentados pelo governo em argumento para um novo mandato. Nesses quatro anos, ele administrou o Estado, enquanto Azambuja cuidou da engenharia política.

Fábio Trad percorreu caminho inverso. Como candidato de oposição, tentou deslocar a discussão dos indicadores econômicos para a vida cotidiana. A expressão “Estado rico, mas injusto” sintetizou uma das principais mensagens da campanha: o problema, segundo sua argumentação, não seria o crescimento de Mato Grosso do Sul, mas a distribuição de seus resultados. O candidato do PT contou com o apoio de outras quatro legendas (PV, PCdoB, PSB e PDT), estrutura menor diante da supercoalizão reunida em torno de Riedel.

A campanha de Trad teve ainda uma dimensão nacional. Sua candidatura deu palanque a Luiz Inácio Lula da Silva e colocou o PT em uma disputa majoritária num Estado em que a direita e o agronegócio têm forte presença política. Ao mesmo tempo, Trad procurou construir uma mensagem própria para o eleitorado sul-mato-grossense, tarefa dificultada pelo fato de o PT ter participado, até poucos meses antes, da administração Riedel.

A campanha não se resumiu à reprodução da polarização nacional. Riedel manteve identidade política própria, embora tenha relações institucionais com o governo federal. Trad associou-se a Lula, mas precisou apresentar uma agenda específica para o Estado.

Na avaliação de Miranda, Azambuja “já é o grande líder político do Mato Grosso do Sul”, considerando a rede de apoios que construiu, a eleição de seu sucessor e a perspectiva de uma vitória para o Senado. Ao mesmo tempo, ao observar os diferentes interesses entre os integrantes da frente, o cientista político coloca uma ressalva sobre a capacidade de preservação dessa força: “Tenho dúvidas se todo esse grupo que ele conseguiu montar com sucesso vai se manter forte pra 2030.”

A campanha de Trad oferece ao PT e à oposição um ponto de partida para organizar um discurso mais permanente, combinando crítica política, questionamento sobre a distribuição dos frutos do crescimento e propostas alternativas para serviços públicos e políticas sociais. Isso dependerá, porém, da capacidade de transformar a candidatura de 2026 em uma estrutura política que sobreviva à eleição.