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Economia

Bairros vizinhos em Campo Grande pagam IPTU com diferença de até 16 vezes

Prefeitura admite discrepâncias, mas alega que legislação "amarra" mudanças

Por Silvia Frias e Kamila Alcântara | 29/08/2025 12:01
Bairros vizinhos em Campo Grande pagam IPTU com diferença de até 16 vezes
Audiência pública foi realizada na Câmara Municipal e debateu cáculo do IPTU e ITBI (Foto: Kamila Alcântara)

Parecer técnico elaborado pelo NUPERJ (Núcleo de Perícias Judiciais) aponta que o cálculo do IPTU em Campo Grande tem distorções que resultam em cobranças desiguais entre contribuintes. O estudo, apresentado à Câmara Municipal de Vereadores de Campo Grande, identificou diferenças de até 16 vezes no valor do metro quadrado de terrenos localizados em bairros vizinhos, sem justificativas técnicas claras.

RESUMO

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Um estudo técnico do Núcleo de Perícias Judiciais (NUPERJ) revelou distorções significativas no cálculo do IPTU em Campo Grande. O documento, apresentado à Câmara Municipal, identificou diferenças de até 16 vezes no valor do metro quadrado entre terrenos de bairros vizinhos, sem justificativas técnicas adequadas. A Secretaria Municipal da Fazenda reconhece as discrepâncias e atribui o problema à defasagem da Planta Genérica de Valores, sem revisão desde 2014. Para solucionar a questão, a prefeitura planeja apresentar uma proposta de emenda constitucional que permitirá a recomposição gradual da base de cálculo do IPTU.

O documento foi apresentado durante audiência pública com o tema “Valor venal dos imóveis e o impacto no IPTU e ITBI”, realizada na Câmara Municipal nesta sexta-feira (29), em debate proposto pelo vereador André Salineiro (PL).

Presente no debate, auditora fiscal, representando a Prefeitura, disse que a Sefaz (Secretaria Municipal da Fazenda) tem conhecimento da discrepância e que uma proposta de emenda à Lei Orgânica será apresentada para tentar sanar o problema (veja resposta completa abaixo).

O Campo Grande News também teve acesso ao material, na íntegra.

Conforme o estudo, na região do Lagoa, por exemplo, no bairro Caiobá, o valor do metro quadrado em 2018 no Villagio Vitória foi de R$ 364,42, quase 14 vezes maior do que os R$ 25,88 aplicados na Vila Fernanda em 2006, mesmo com infraestrutura semelhante. Situação parecida aparece nas Moreninhas (Bandeira), onde o Nova Conquista, criado a partir de regularização fundiária, foi avaliado em R$ 290,31/m², valor muito acima de loteamentos tradicionais vizinhos, como o Jardim Gramado, de 2002, com R$ 36,85/m².

No bairro Nasser (Segredo), o estudo encontrou salto de quase 10 vezes entre empreendimentos, chegando a casos em que loteamentos de 2007 foram mais valorizados que os de 2009, sinal de critérios inconsistentes na PGV (Planta Genérica de Valores). Já no Núcleo Industrial (Imbirussu), a diferença foi ainda maior: mais de 16 vezes entre imóveis antigos e novos. Apenas no bairro Pioneiros (Anhanduizinho) a disparidade foi menor, de cerca de quatro vezes.

Outro ponto destacado é a falta de redutores em áreas chamadas de non aedificandi (locais onde a construção é proibida, como faixas de drenagem e preservação ambiental). No Riviera Home Club, por exemplo, 72,9% de um lote é ocupado por áreas desse tipo, mas toda a metragem foi considerada edificável, inflando em até 70% o valor venal.

O documento também cita erros na aplicação de alíquotas. No condomínio Terras do Golfe, a Prefeitura aplicou a taxa máxima de 3,5%, quando, segundo a legislação, o correto seria 1%, já que a infraestrutura é privada e não há prestação de serviços públicos no interior do loteamento.

Bairros vizinhos em Campo Grande pagam IPTU com diferença de até 16 vezes
Trecho do estudo apresentado na Câmara Municipal de Vereadores (Foto/Reprodução)

No caso do condomínio Lieu Unique, da Plaenge, o parecer mostra que lotes já tiveram o IPTU lançado antes mesmo da conclusão da obra, com risco de cobrança antecipada sobre imóveis ainda em fase de implantação.

No ITBI, usado para tributar a transmissão de imóveis, o estudo apontou discrepâncias entre valores de mercado e o cálculo da Prefeitura. No Jardim Bálsamo, um terreno comprado em 2007 por R$ 17,5 mil e atualizado para R$ 100 mil foi tributado sobre R$ 529 mil, valor cinco vezes superior ao da negociação real.

O parecer conclui que as distorções afetam principalmente bairros populares, onde a renda média é baixa, mas o IPTU pesa proporcionalmente mais que em áreas nobres como Alphaville e Damha. Para corrigir os problemas, o NUPERJ recomenda rever critérios da PGV, aplicar redutores em áreas com restrições, respeitar as datas corretas de fato gerador e alinhar a cobrança à realidade física e econômica dos imóveis.

Audiência – O plenário ficou lotado durante o debate. Reginaldo Pivete trabalha como corretor de imóveis há 22 anos e vê que essa discussão é essencial para sociedade. "Falar sobre isso é uma forma de beneficiar a população e todos os setores, pois impacto diretamente na compra dos imóveis.

Após apresentação do documento, o responsável técnico da perícia, Wellington Villa Nova, disse que há necessidade de debater o valor do IPTU de acordo com a capacidade de pagamento do contribuinte.

A presidente do Sindimóveis (Sindicato dos Corretores de Imóveis), Luciana de Almeida, defende a revisão da planta genérica, mas com cautela, para evitar a desaceleração das vendas, impactando nos negócios. “A gente trabalha ao lado do poder público garantindo a riqueza gerada pelo mercado imobiliário que se reverte em benefícios para a população, tanto melhorias na saúde, na educação e na infraestrutura urbana. É necessário que seja visto realmente com muita responsabilidade essa arrecadação para que a gente consiga garantir a justiça tributária", disse.

O procurador-geral Adjunto de Justiça, Alexandre Magno de Lacerda, disse que as distorções precisam ser enfrentadas de forma técnica e profissional.

Prefeitura – A auditora fiscal da Sefaz (Secretaria Municipal da Fazenda), Ana Paula Matos, reconhece que existem discrepâncias nos valores venais usados para cálculo do IPTU em diferentes regiões da cidade, mas atribui o problema à defasagem da PGV, que não passa por revisão ampla desde 2014.

Segundo a auditora fiscal, a diferença ocorre porque, enquanto os valores antigos seguem sendo corrigidos apenas pelo IPCA-E, os novos parcelamentos de solo exigem pesquisa de mercado para definição de um novo setor de cálculo, a unidade de medida fiscal. “Essa diferença de métrica gera a discrepância. Temos conhecimento disso, monitoramos e sabemos que pode até trazer viés de injustiça fiscal”, afirmou.

A técnica explicou que, por lei, a Secretaria de Fazenda está “amarrada” e não pode atualizar valores de imóveis antigos além da correção monetária, o que amplia a distância em relação aos lançamentos recentes. “Não é interesse fazer nada de forma abrupta nem criar estagnação no mercado imobiliário. São necessárias atualizações sutis, mas sempre de maneira técnica e auditável”, disse.

Para corrigir as distorções, a prefeitura deve apresentar proposta de emenda, que abre espaço para recompor a base de cálculo do IPTU de forma gradual. O projeto do Executivo prevê a inclusão de dois parágrafos na legislação municipal, obrigando que toda atualização seja acompanhada de relatório técnico com metodologia clara, índices de mercado e estimativa de impacto médio nos valores venais. “Esse relatório deverá ser apresentado ao Legislativo, garantindo transparência e respaldo técnico para a sociedade”, completou a auditora.

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