Com frigoríficos sob pressão, governo anuncia missão para abrir mercado coreano
Vistoria sanitária prevista para agosto é tratada como passo decisivo para ampliar exportações da carne bovina
A pressão enfrentada pelos frigoríficos brasileiros, incluindo plantas sul-mato-grossense, após o esgotamento da cota anual de importação de carne bovina pela China levou o governo federal a acelerar a busca por novos mercados. Nesta segunda-feira (27), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou que a Coreia do Sul enviará, no próximo mês, uma missão sanitária para inspecionar frigoríficos brasileiros, etapa considerada decisiva para a abertura do mercado sul-coreano à carne bovina do Brasil.
RESUMO
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que a Coreia do Sul enviará uma missão sanitária ao Brasil em agosto para inspecionar frigoríficos brasileiros, passo decisivo para abertura desse mercado à carne bovina nacional após 17 anos de negociações. O anúncio ocorre em meio à crise nos frigoríficos de Mato Grosso do Sul, que reduziram abates em até 40% após o esgotamento da cota anual chinesa de importação.
O anúncio ocorre em um momento delicado para a indústria frigorífica de Mato Grosso do Sul. Com a cota chinesa praticamente encerrada para 2026, frigoríficos instalados no Estado reduziram em até 40% o ritmo dos abates, algumas unidades suspenderam temporariamente as operações e outras recorreram a férias coletivas diante da queda na demanda para exportação ao principal comprador da carne bovina brasileira.

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Durante encontro com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, no Palácio da Alvorada, em Brasília, Lula afirmou que, após quase duas décadas de negociações, os dois países chegaram a um compromisso concreto para avançar nas tratativas.
"Em 2025, o Brasil exportou quase 2,5 bilhões de dólares em produtos agropecuários para a Coreia. Após 17 anos de negociação, temos agora o compromisso concreto de realização de missão sanitária ao Brasil no próximo mês. Passo decisivo para o acesso dos frigoríficos brasileiros ao mercado coreano", declarou.
O Brasil tenta abrir o mercado sul-coreano para a carne bovina desde 2008. A inspeção sanitária é considerada uma das etapas mais importantes do processo, pois permitirá às autoridades coreanas verificar se os frigoríficos brasileiros atendem às exigências sanitárias e de qualidade impostas pelo país asiático.
A abertura desse mercado ganha ainda mais relevância diante do cenário vivido pela indústria frigorífica sul-mato-grossense. Neste mês, a Iguatemi Beef, em Iguatemi, e a unidade da JBS em Campo Grande interromperam temporariamente os abates e concederam férias coletivas aos funcionários. Outras empresas reduziram a produção entre 35% e 40%, segundo o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul.
O principal motivo é o encerramento da cota anual chinesa de importação de carne bovina. A partir do limite estabelecido, os embarques que chegarem à China ficam sujeitos à incidência de uma tarifa de 67%, resultado da alíquota regular de 12% somada à sobretaxa de 55%, tornando as vendas economicamente menos atrativas.
Além disso, o setor enfrenta baixa oferta de animais prontos para o abate e preços elevados da arroba, fatores que pressionam ainda mais as margens dos frigoríficos.
Diante desse cenário, empresas passaram a direcionar esforços para ampliar as vendas a outros mercados, como Estados Unidos, Oriente Médio, Reino Unido e mercado interno. A possível abertura da Coreia do Sul passa a integrar essa estratégia de diversificação.
Para Mato Grosso do Sul, a ampliação do número de compradores internacionais pode representar uma alternativa importante para reduzir a dependência do mercado chinês. A China é o principal destino da carne bovina exportada pelo Estado e respondeu por US$ 773,6 milhões em compras no ano passado.
Embora o setor avalie que a demanda chinesa deve voltar a ganhar força a partir do último trimestre, quando os frigoríficos começam a preparar os embarques para a cota de 2027, a abertura de novos mercados é vista como uma forma de dar maior estabilidade às exportações brasileiras.
Além da carne bovina, Lula e Lee Jae-Myung discutiram a ampliação da cooperação bilateral em áreas como semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, transição energética, saúde, fármacos, cosméticos, cultura, educação e esportes.
A aproximação comercial faz parte da estratégia do governo brasileiro para ampliar parceiros internacionais em meio às mudanças no comércio global e reduzir a dependência de mercados específicos. Para a cadeia da carne bovina, especialmente em Estados exportadores como Mato Grosso do Sul, a missão sanitária prevista para agosto representa o avanço mais concreto das negociações com a Coreia do Sul desde o início das tratativas, há 17 anos.


