Exportações de carne de MS para a China aumentam 57,45% antes de nova tarifa
Fim da cota de importação do país asiático deve forçar setor pecuário do Estado a procurar outros mercados

Mesmo sob restrições da China impostas às compras de carne bovina brasileira, o setor exportador de Mato Grosso do Sul, liderado pela JBS, ampliou em 57,45% as vendas ao mercado chinês de janeiro a abril deste ano, em relação ao mesmo período de 2025. Os dados são do economista Daniel Massen Frainer, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, baseados no sistema de estatísticas do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
RESUMO
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Apesar das restrições chinesas à carne bovina brasileira, Mato Grosso do Sul ampliou em 57,45% as exportações ao país entre janeiro e abril, movimentando US$ 250,574 milhões. A cota de 1,1 milhão de toneladas deve se esgotar em junho, elevando a taxação de 12% para 55%. Somam-se às dificuldades as restrições sanitárias da União Europeia, previstas para setembro, que podem impactar um mercado de US$ 2 bilhões.
A avaliação é de que a cota chinesa deve impactar principalmente os grandes frigoríficos com foco no mercado internacional, enquanto os menores, mais voltados ao mercado interno, tendem a ser pouco prejudicados.
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Conforme os dados compilados para o Campo Grande News, o estado exportou 41.642.061 quilos de carne bovina para a China entre janeiro e abril, volume 57,45% superior aos 26.448.106 quilos embarcados no primeiro quadrimestre de 2025. Em receita, o montante quase dobrou, alcançando US$ 250,574 milhões, ante US$ 130,602 milhões registrados no mesmo período do ano passado. O desempenho das exportações do estado para o mercado chinês representou quase o triplo da média nacional, que cresceu 19% no período, conforme destacou o economista.
Segundo Frainer, o resultado estadual reflete ganho de mercado na China e não necessariamente antecipação de contratos diante da proximidade do esgotamento da cota de 1,1 milhão de toneladas anuais estipulada pela China para a carne bovina brasileira, com tarifa de 12%.
A cota chinesa, em vigor desde janeiro deste ano, será esgotada em junho, conforme preveem especialistas do mercado. Após atingir o limite, o excedente embarcado passará a ser taxado em 55%. A medida chinesa deve vigorar até dezembro de 2028. Na ponta do lápis, o volume permitido representa cerca de 600 mil toneladas a menos em relação aos embarques de 2025, quando a China comprou aproximadamente 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira.
Sob a liderança chinesa, os embarques totais de Mato Grosso do Sul acumulados até abril somaram US$ 3,61 bilhões, superando em 6,26% os valores registrados no mesmo período do ano anterior (US$ 3,40 bilhões), conforme dados da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).

Desafios - Na avaliação do economista, os pecuaristas do estado devem começar a sentir os efeitos das cotas chinesas a partir do segundo semestre. Ainda assim, “é provável que os embarques continuem em patamares elevados, superando as projeções iniciais, como ocorreu nos primeiros quatro meses deste ano”.
Além disso, dependendo do cenário, os pecuaristas podem contornar parte das dificuldades redirecionando as vendas para os Estados Unidos, onde, por enquanto, não há barreiras impostas à carne brasileira, diferentemente de 2025, quando o presidente Donald Trump aplicou tarifas sobre as compras de carne do Brasil.
“Toda vez que atingir o teto, os chineses provavelmente vão restringir as compras. Mas é preciso entender o seguinte: a tarifa não incide sobre o produto vendido. A tarifa recai sobre quem está comprando no mercado chinês”, explica Frainer.
Sob essa ótica, o impacto é diferente para os exportadores, que trabalham com o preço FOB (free on board). Ou seja, a cotação considerada é aplicada ao produto colocado para embarque. A partir daí, os custos passam a ser responsabilidade do comprador, no caso, o mercado chinês. “No fim das contas, eles acabam criando um custo maior para eles mesmos”, afirmou o economista.
Para Frainer, a cota é uma forma de tentar restringir as compras, mas isso não significa necessariamente que haverá uma redução efetiva. “Quem quiser comprar na China poderá continuar comprando, só que pagando mais caro.”
Os frigoríficos, segundo ele, já trabalham para remanejar essa situação. Alguns seguem focados na exportação, enquanto outros operam mais voltados ao mercado interno. “A JBS, por exemplo, maior empresa do setor, possui uma estrutura muito mais direcionada ao mercado internacional. Já os grupos menores estão mais concentrados no mercado interno. Essa questão praticamente não deve afetá-los.”
No caso da JBS, o mercado chinês representa uma imposição importante, embora o impacto direto da tarifa recaia sobre o consumidor chinês, que terá um custo maior.
“Isso acaba funcionando como uma barreira para o Brasil e para Mato Grosso do Sul. Mas é algo parecido com o que ocorreu durante o ‘tarifaço’ do governo Trump. Houve redução nas compras, mas não foi algo tão significativo”, lembrou. “Afinal, quando não existem mercados alternativos, o comprador acaba adquirindo o produto mesmo pagando mais caro. Por isso, esse tipo de medida não se sustenta no longo prazo”, estima o professor da UEMS. Questionada, a JBS não quis comentar o assunto.
O governo brasileiro pretende reverter a cota chinesa, ao menos para o próximo ano. Segundo o ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, o governo busca acordo com Pequim para discutir o teto de 1,1 milhão de toneladas e retirar a sobretaxa aplicada ao excedente exportado.
Barreiras sanitárias europeias - O impacto da cota chinesa previsto para o segundo semestre nas exportações de Mato Grosso do Sul deve coincidir com restrições da União Europeia, previstas para entrar em vigor em 3 de setembro, o que deve ampliar os impasses comerciais para o setor exportador.
A medida do bloco europeu, anunciada em 12 de maio, excluiu o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e produtos de origem animal sob a justificativa de que não foram apresentadas garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária brasileira. Caso o Brasil não consiga atender às exigências sanitárias até a data-limite, ficará proibida a entrada de produtos brasileiros no bloco europeu, como carne bovina e de frango, ovos, mel, peixes e animais vivos. As análises apontam que a decisão pode impactar um mercado de quase US$ 2 bilhões.
O professor da UEMS acredita, porém, que o governo brasileiro conseguirá reverter a decisão europeia. “Essa medida pode ser derrubada com relativa facilidade, porque não tem sustentação no longo prazo. Isso ocorre principalmente porque o ciclo de safra, sobretudo dos portos, consegue comprovar que já não há mais uso desses medicamentos”, afirmou.
“Como se trata de uma questão fitossanitária, ou seja, uma barreira não tarifária, ela tende a cair com mais facilidade. Quando a barreira é tarifária, aí já envolve uma posição legal mais complexa, o que dificulta a reversão.”
O Brasil passou a ser o principal alvo de pressão política e econômica dentro do bloco europeu, em uma tentativa de proteger produtores rurais preocupados com a entrada de produtos agropecuários mais baratos e competitivos do Mercosul, após a entrada em vigor do acordo entre União Europeia e Mercosul, desde 1º de maio.
Brasil competitivo - “Todos os outros países que participam do acordo no mesmo contexto não sofreram essa restrição. Atingiu somente o Brasil porque é o maior mercado produtor. Essa é a grande preocupação deles”, analisa.
O objetivo seria ganhar tempo para que os produtores europeus consigam se reorganizar no curto prazo.
Dessa forma, a reação já era esperada. “Temos preços mais competitivos e uma qualidade também muito superior. Provavelmente, essa barreira não tarifária será superada e não deverá se sustentar em longo prazo.”
Já no caso da China, as barreiras resultam de um crescimento econômico mundial abaixo do esperado. O professor da UEMS alerta, contudo, que a China vem se organizando para garantir a própria produção de alimentos e reduzir a dependência externa. O país asiático tem ampliado investimentos em segurança alimentar, na diversificação de fornecedores e no fortalecimento da produção interna diante das tensões comerciais e das incertezas do mercado global.

