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Economia

Golpistas reciclam fórmulas e ampliam uso de Pix em fraudes digitais

Relatório da Agência Lupa mostra que fraudes seguem padrões previsíveis

Por Ângela Kempfer | 17/06/2026 17:45
Golpistas reciclam fórmulas e ampliam uso de Pix em fraudes digitais
Servidora aposentada ao lado de policial, depos de ser vítima de golpe do bilhete premiado ontem em Campo Grande (Foto: Arquivo)

Promessas de dinheiro fácil, supostos benefícios imediatos via Pix e o uso de marcas conhecidas formam hoje a combinação mais recorrente nas fraudes digitais no Brasil. A conclusão é da segunda edição do relatório A Jornada dos Golpes, divulgado nesta quarta-feira (17) pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa.

RESUMO

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Fraudes digitais no Brasil seguem padrões repetitivos, com promessas de dinheiro fácil, uso indevido de marcas conhecidas e pagamentos via Pix, segundo relatório do Observatório Lupa. O estudo analisou 115 golpes entre 2024 e 2026 e revelou que 66% distorcem fatos reais para enganar vítimas. O WhatsApp aparece em 65% dos casos como principal canal, e empresas como Mercado Livre e Nubank lideram o uso indevido de marcas.

O levantamento analisou 115 conteúdos fraudulentos que circularam no país entre maio de 2024 e abril de 2026. O padrão se repete com pouca criatividade, o que não significa menor risco. Pelo contrário. Aproximadamente um terço das fraudes exigia pagamento exclusivamente via Pix. Em 71% dos casos havia promessa de ganho financeiro e, em 74%, o uso de empresas ou personalidades conhecidas servia para dar aparência de legitimidade.

Na prática, os golpes se apoiam em fórmulas prontas que são apenas atualizadas conforme o momento. Promoções falsas, indenizações inexistentes, vagas de emprego enganosas, benefícios sociais inventados e brindes gratuitos aparecem com frequência, quase sempre ajustados a datas sazonais ou temas em alta no noticiário.

A pesquisadora responsável pelo estudo, Beatriz Farrugia, afirma que não há necessidade de inovação constante por parte dos criminosos. Segundo ela, as estruturas que funcionam são reaproveitadas e adaptadas.

“Eles reutilizam estruturas que já funcionaram, adaptam a narrativa ao contexto do momento e se aproveitam da confiança que as pessoas depositam em marcas conhecidas, instituições e figuras públicas”, disse.

O relatório aponta ainda que essa previsibilidade abre espaço para estratégias de prevenção mais eficientes, embora o cenário continue explorando principalmente a vulnerabilidade econômica e a busca por vantagens rápidas.

Um dos pontos mais críticos identificados é a distorção de fatos reais. Em 66% dos golpes analisados, os criminosos partiram de conteúdos verdadeiros para construir versões enganosas. Isso inclui manipulação de reportagens, comunicados oficiais, campanhas legítimas, decisões judiciais e páginas institucionais. No estudo anterior, esse índice era de 55%.

Segundo Beatriz, esse uso de elementos reais dificulta a identificação das fraudes. “Muitas vezes, a fraude não nasce de uma informação totalmente inventada, mas da adulteração de fatos verdadeiros, marcas reconhecidas ou notícias que já circulam na imprensa”, afirmou.

Mais de 15 empresas tiveram suas marcas exploradas indevidamente. Entre as mais citadas estão Mercado Livre e Nubank, com quatro ocorrências cada. Também aparecem Shopee, Serasa e Rede Globo, usadas para dar credibilidade às mensagens fraudulentas.

Além das empresas, nomes de personalidades públicas, jornalistas, médicos e influenciadores também são frequentemente usados como “selo de confiança” pelos golpistas.

O estudo mostra ainda que o ponto de partida das fraudes costuma ser aberto e visível. Redes sociais como Facebook, Instagram e TikTok funcionam como porta de entrada. Depois, o fluxo migra para ambientes mais fechados, como formulários online e aplicativos de mensagens.

O WhatsApp aparece em quase 65% dos casos analisados entre maio de 2025 e abril de 2026, consolidando-se como principal canal de disseminação.

Nesse ambiente, o Pix virou peça central da engrenagem. As transferências são apresentadas como única forma de liberar supostos benefícios, taxas ou prêmios. Na prática, o pagamento é o objetivo final da fraude.

O relatório também chama atenção para o papel das plataformas digitais na circulação e monetização desses conteúdos. Em 2024, documentos internos da Meta, revelados pela imprensa, indicaram que a empresa teria arrecadado cerca de US$ 16 bilhões com anúncios ligados a golpes e produtos proibidos, o que corresponderia a cerca de 10% da receita anual.

Para os pesquisadores, o problema não se resolve apenas no usuário final. Eles defendem uma atuação conjunta entre empresas de tecnologia, instituições financeiras, órgãos públicos, imprensa e usuários.