Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
Após 9 anos, empresários veem "beijo das aduelas" como marco para transformar economia de MS
Animais soltos às margens das estradas, falta de estrutura para caminhoneiros e esperas superiores a três horas nas aduanas faziam parte do cenário encontrado em 2017, quando empresários, transportadores e produtores rurais percorreram o trajeto que buscava transformar Mato Grosso do Sul em uma nova saída da produção brasileira para o Oceano Pacífico.
RESUMO
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Empresários e autoridades celebraram a união das estruturas da ponte da Rota Bioceânica, conectando Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta, no Paraguai. Com 1.294 metros, a obra financiada pela Itaipu Binacional é estratégica para ligar o Brasil aos portos do Oceano Pacífico no Chile. Representantes dos setores de logística e agronegócio preveem que a estrutura impulsionará o desenvolvimento regional, gerando empregos e facilitando exportações entre Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia.
Nove anos depois daquela primeira grande expedição, o caminho que ainda era testado entre estradas e fronteiras ganhou sua principal ligação física. Na manhã desta quinta-feira (23), brasileiros e paraguaios acompanharam a cerimônia que marcou o chamado “beijo das aduelas” da ponte entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai.
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Desde o início das discussões sobre o corredor rodoviário, o Campo Grande News acompanhou as expedições realizadas para definir o melhor trajeto e avaliar, na prática, os desafios para tornar a rota internacional viável.
A primeira grande viagem ocorreu em 2017, quando o grupo percorreu uma alternativa que utilizava a Bolívia para o escoamento das commodities agrícolas até os portos chilenos.
Apesar do potencial logístico, a expedição revelou obstáculos importantes. Entre eles estavam animais soltos às margens das rodovias, ausência de infraestrutura de apoio aos caminhoneiros e demora superior a três horas nas aduanas bolivianas.
Os problemas foram apontados pelo então organizador da viagem e presidente do Setlog-MS (Sindicato das Empresas de Transporte e Logística de Mato Grosso do Sul), Cláudio Cavol Cassaal.
A burocracia nos postos de fronteira também foi considerada o principal desafio pelos participantes da então chamada RILA (Rota de Integração Latino-Americana).

A avaliação era de que a lentidão dos procedimentos alfandegários comprometia a competitividade da alternativa para a exportação da produção brasileira.
Além da equipe do Campo Grande News, a expedição reuniu cerca de 90 participantes, entre empresários, representantes do setor de transportes e produtores rurais.
O grupo cruzou Paraguai e Argentina até chegar a Antofagasta, no Chile, avaliando as condições da futura rota internacional.
Seis anos depois, em novembro de 2023, o jornal voltou a percorrer o corredor durante a terceira Expedição da RILA. A caravana saiu de Campo Grande com 35 veículos e 108 participantes, entre empresários, autoridades e técnicos envolvidos no planejamento da rota.
Também participaram da viagem a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), e o então secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck.
O objetivo era ouvir moradores, prefeitos e representantes dos municípios que serão impactados pelo corredor, além de aperfeiçoar os projetos de desenvolvimento previstos para a região.
Na ocasião, Verruck afirmou que, além das obras, era necessário compreender como a população enxergava as transformações provocadas pela Rota Bioceânica.
“A gente quer olhar também como é que está a percepção das pessoas ao longo da Rota, como é que os municípios, esses prefeitos estão percebendo essa Rota, que praticamente daqui a dois anos vai estar em operação e também as dificuldades. Temos uma série de desafios”, disse.
Adriane Lopes também destacou, durante a expedição, que a integração representava uma oportunidade de acelerar o crescimento econômico de Mato Grosso do Sul.
“A expectativa de melhorias é para os próximos dias, não são anos, porque o Chile já está aqui, nós já estamos exportando a nossa carne. Então, quando a gente começa a realizar essas exportações, novos negócios, nós acreditamos que o desenvolvimento vai gerar novas oportunidades de emprego para Campo Grande e nós vamos avançar muito”, afirmou.

Do trajeto à ponte
O cenário encontrado nesta quinta-feira é diferente daquele registrado nas primeiras viagens.
Se antes as discussões giravam em torno da escolha do melhor traçado, das condições das estradas e dos entraves alfandegários, agora empresários e autoridades acompanham a união física entre Brasil e Paraguai.
O encontro das estruturas da ponte ocorreu na noite de 15 de julho, mas a cerimônia oficial foi realizada nesta quinta-feira, reunindo autoridades, empresários e representantes de entidades ligadas ao corredor bioceânico.
O governador Eduardo Riedel (PP) e o presidente do Paraguai, Santiago Peña, não participaram porque as condições climáticas impediram os deslocamentos aéreos na região.
Para representantes dos setores de logística, turismo e agropecuária, a ligação física entre os dois países simboliza o início de uma nova etapa de desenvolvimento econômico, com expectativa de geração de empregos, expansão dos negócios e fortalecimento da integração regional.
Presidente do Setlog-MS, Cláudio Cavol afirmou que o setor aguarda com expectativa a conclusão da obra.
Segundo ele, a ponte deverá impulsionar o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul e dos demais países conectados pelo corredor.
“Estamos ansiosos para que essa grande obra fique pronta rapidamente. Isso vai trazer mais desenvolvimento, mais renda per capita para a população. É bom para o Paraguai, para nós, para o Chile, enfim, para todos”, afirmou.
Ao comentar o encontro das estruturas, Cavol disse esperar que “desse beijo nasça um casamento” e que a inauguração definitiva ocorra em breve.
Negócios e crescimento
Há quase três décadas atuando no turismo de pesca em Porto Murtinho, Marco Aurélio destacou que a cerimônia permitiu acompanhar a evolução de um projeto que, por muitos anos, existiu apenas no papel.
Para ele, a conexão com os portos do Oceano Pacífico abrirá novas oportunidades comerciais e acelerará o crescimento da cidade.

Segundo o empresário, os impactos já podem ser percebidos antes mesmo da conclusão da obra, com o aumento das construções no entorno da ponte e a chegada de novos investimentos.
Ele também avalia que a infraestrutura beneficiará não apenas Mato Grosso do Sul, mas regiões historicamente menos desenvolvidas do norte do Paraguai e do norte da Argentina, além de facilitar o acesso aos portos chilenos de Iquique, Mejillones e Antofagasta.
Representando o setor agropecuário do Chaco paraguaio, Ricardo Trussiuc afirmou que a ponte é condição indispensável para consolidar a integração entre os países.
Ele explicou que participa de iniciativas voltadas à criação de conexões rodoviárias complementares à Rota Bioceânica, em parceria com entidades paraguaias e bolivianas.
“Sem a ponte não se consegue nada. Precisamos das interconexões e da viabilidade. Sem ela há um corte, não existem aduanas nem gestão. A ponte é indispensável”, resumiu.

Centro das atenções
O prefeito de Porto Murtinho, Nelson Cintra, lembrou que acompanha o projeto desde as primeiras etapas e classificou a obra como um marco para a integração da América do Sul.
Segundo ele, a cidade deixa de ser um ponto isolado na fronteira para assumir posição estratégica no corredor internacional.
“Aqui vivíamos esquecidos e agora somos o centro das atenções”, afirmou.
Apesar da ausência de Riedel e de Santiago Peña por causa do mau tempo, Cintra ressaltou a presença de empresários e autoridades do Paraguai, da Bolívia e do Chile.
Para ele, o encontro das estruturas consolida a ligação entre os dois países, restando apenas os serviços de acabamento.
Com 1.294 metros de extensão, a ponte é a principal obra da Rota Bioceânica e permitirá a conexão entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile até os portos do Pacífico.

Segundo o diretor de engenharia da obra, René Gomes, a união inicial ocorreu pelas laterais da estrutura. A próxima etapa será a concretagem e a formação da laje de concreto armado.
O empreendimento é de responsabilidade do MOPC (Ministério de Obras Públicas e Comunicações) do Paraguai, financiado pela Itaipu Binacional, com investimento aproximado de US$ 100 milhões, e executado pelo Consórcio PyBra.
As obras começaram em julho de 2022 e chegaram a ser interrompidas temporariamente em 2024, devido a uma investigação da Receita Federal sobre procedimentos aduaneiros.
O encontro das estruturas também simboliza o avanço de um projeto discutido muito antes do início da execução.
A construção da ponte teve início em dezembro de 2021, com previsão inicial de entrega em 2025. Ainda em 2017, quando a Rota Bioceânica ganhava forma, a expectativa era de que os trabalhos começassem em 2018.

O que antes era medido por quilômetros percorridos, horas de espera em fronteiras e dúvidas sobre a viabilidade do trajeto agora aparece em concreto sobre o Rio Paraguai.
A união da ponte não elimina os desafios de acessos, aduanas e infraestrutura ao longo do corredor, mas marca a passagem de uma rota testada em expedições para uma ligação internacional próxima de entrar em operação.
Confira a galeria de imagens:
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