ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, QUINTA  23    CAMPO GRANDE 20º

Economia

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai

Após 9 anos, empresários veem "beijo das aduelas" como marco para transformar economia de MS

Por Ketlen Gomes e Kamila Alcântara, enviada especial à Porto Murtinho | 23/07/2026 16:22

Animais soltos às margens das estradas, falta de estrutura para caminhoneiros e esperas superiores a três horas nas aduanas faziam parte do cenário encontrado em 2017, quando empresários, transportadores e produtores rurais percorreram o trajeto que buscava transformar Mato Grosso do Sul em uma nova saída da produção brasileira para o Oceano Pacífico.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Empresários e autoridades celebraram a união das estruturas da ponte da Rota Bioceânica, conectando Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta, no Paraguai. Com 1.294 metros, a obra financiada pela Itaipu Binacional é estratégica para ligar o Brasil aos portos do Oceano Pacífico no Chile. Representantes dos setores de logística e agronegócio preveem que a estrutura impulsionará o desenvolvimento regional, gerando empregos e facilitando exportações entre Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia.

Nove anos depois daquela primeira grande expedição, o caminho que ainda era testado entre estradas e fronteiras ganhou sua principal ligação física. Na manhã desta quinta-feira (23), brasileiros e paraguaios acompanharam a cerimônia que marcou o chamado “beijo das aduelas” da ponte entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai.

Desde o início das discussões sobre o corredor rodoviário, o Campo Grande News acompanhou as expedições realizadas para definir o melhor trajeto e avaliar, na prática, os desafios para tornar a rota internacional viável.

A primeira grande viagem ocorreu em 2017, quando o grupo percorreu uma alternativa que utilizava a Bolívia para o escoamento das commodities agrícolas até os portos chilenos.

Apesar do potencial logístico, a expedição revelou obstáculos importantes. Entre eles estavam animais soltos às margens das rodovias, ausência de infraestrutura de apoio aos caminhoneiros e demora superior a três horas nas aduanas bolivianas.

Os problemas foram apontados pelo então organizador da viagem e presidente do Setlog-MS (Sindicato das Empresas de Transporte e Logística de Mato Grosso do Sul), Cláudio Cavol Cassaal.

A burocracia nos postos de fronteira também foi considerada o principal desafio pelos participantes da então chamada RILA (Rota de Integração Latino-Americana).

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
Cláudio Cavol, presidente do Sindicato das Empresas de Logística e Transporte de MS. (Foto: Osmar Veiga)

A avaliação era de que a lentidão dos procedimentos alfandegários comprometia a competitividade da alternativa para a exportação da produção brasileira.

Além da equipe do Campo Grande News, a expedição reuniu cerca de 90 participantes, entre empresários, representantes do setor de transportes e produtores rurais.

O grupo cruzou Paraguai e Argentina até chegar a Antofagasta, no Chile, avaliando as condições da futura rota internacional.

Seis anos depois, em novembro de 2023, o jornal voltou a percorrer o corredor durante a terceira Expedição da RILA. A caravana saiu de Campo Grande com 35 veículos e 108 participantes, entre empresários, autoridades e técnicos envolvidos no planejamento da rota.

Também participaram da viagem a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), e o então secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck.

O objetivo era ouvir moradores, prefeitos e representantes dos municípios que serão impactados pelo corredor, além de aperfeiçoar os projetos de desenvolvimento previstos para a região.

Na ocasião, Verruck afirmou que, além das obras, era necessário compreender como a população enxergava as transformações provocadas pela Rota Bioceânica.

“A gente quer olhar também como é que está a percepção das pessoas ao longo da Rota, como é que os municípios, esses prefeitos estão percebendo essa Rota, que praticamente daqui a dois anos vai estar em operação e também as dificuldades. Temos uma série de desafios”, disse.

Adriane Lopes também destacou, durante a expedição, que a integração representava uma oportunidade de acelerar o crescimento econômico de Mato Grosso do Sul.

“A expectativa de melhorias é para os próximos dias, não são anos, porque o Chile já está aqui, nós já estamos exportando a nossa carne. Então, quando a gente começa a realizar essas exportações, novos negócios, nós acreditamos que o desenvolvimento vai gerar novas oportunidades de emprego para Campo Grande e nós vamos avançar muito”, afirmou.

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
Ponte da Rota Bioceânica está agora nos preparativos finais para inauguração definitiva. (Foto: Osmar Veiga)

Do trajeto à ponte

O cenário encontrado nesta quinta-feira é diferente daquele registrado nas primeiras viagens.

Se antes as discussões giravam em torno da escolha do melhor traçado, das condições das estradas e dos entraves alfandegários, agora empresários e autoridades acompanham a união física entre Brasil e Paraguai.

O encontro das estruturas da ponte ocorreu na noite de 15 de julho, mas a cerimônia oficial foi realizada nesta quinta-feira, reunindo autoridades, empresários e representantes de entidades ligadas ao corredor bioceânico.

O governador Eduardo Riedel (PP) e o presidente do Paraguai, Santiago Peña, não participaram porque as condições climáticas impediram os deslocamentos aéreos na região.

Para representantes dos setores de logística, turismo e agropecuária, a ligação física entre os dois países simboliza o início de uma nova etapa de desenvolvimento econômico, com expectativa de geração de empregos, expansão dos negócios e fortalecimento da integração regional.

Presidente do Setlog-MS, Cláudio Cavol afirmou que o setor aguarda com expectativa a conclusão da obra.

Segundo ele, a ponte deverá impulsionar o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul e dos demais países conectados pelo corredor.

“Estamos ansiosos para que essa grande obra fique pronta rapidamente. Isso vai trazer mais desenvolvimento, mais renda per capita para a população. É bom para o Paraguai, para nós, para o Chile, enfim, para todos”, afirmou.

Ao comentar o encontro das estruturas, Cavol disse esperar que “desse beijo nasça um casamento” e que a inauguração definitiva ocorra em breve.

Negócios e crescimento

Há quase três décadas atuando no turismo de pesca em Porto Murtinho, Marco Aurélio destacou que a cerimônia permitiu acompanhar a evolução de um projeto que, por muitos anos, existiu apenas no papel.

Para ele, a conexão com os portos do Oceano Pacífico abrirá novas oportunidades comerciais e acelerará o crescimento da cidade.

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
Marco Aurélio atua há 30 anos no turismo de pesca da região, destaca que acompanhou toda obra. (Foto: Osmar Veiga)

Segundo o empresário, os impactos já podem ser percebidos antes mesmo da conclusão da obra, com o aumento das construções no entorno da ponte e a chegada de novos investimentos.

Ele também avalia que a infraestrutura beneficiará não apenas Mato Grosso do Sul, mas regiões historicamente menos desenvolvidas do norte do Paraguai e do norte da Argentina, além de facilitar o acesso aos portos chilenos de Iquique, Mejillones e Antofagasta.

Representando o setor agropecuário do Chaco paraguaio, Ricardo Trussiuc afirmou que a ponte é condição indispensável para consolidar a integração entre os países.

Ele explicou que participa de iniciativas voltadas à criação de conexões rodoviárias complementares à Rota Bioceânica, em parceria com entidades paraguaias e bolivianas.

“Sem a ponte não se consegue nada. Precisamos das interconexões e da viabilidade. Sem ela há um corte, não existem aduanas nem gestão. A ponte é indispensável”, resumiu.

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
Ricardo Trussiuc, agropecuário do Chaco Paraguaio, esteve presente na celebração da união da ponte. (Foto: Osmar Veiga)

Centro das atenções

O prefeito de Porto Murtinho, Nelson Cintra, lembrou que acompanha o projeto desde as primeiras etapas e classificou a obra como um marco para a integração da América do Sul.

Segundo ele, a cidade deixa de ser um ponto isolado na fronteira para assumir posição estratégica no corredor internacional.

“Aqui vivíamos esquecidos e agora somos o centro das atenções”, afirmou.

Apesar da ausência de Riedel e de Santiago Peña por causa do mau tempo, Cintra ressaltou a presença de empresários e autoridades do Paraguai, da Bolívia e do Chile.

Para ele, o encontro das estruturas consolida a ligação entre os dois países, restando apenas os serviços de acabamento.

Com 1.294 metros de extensão, a ponte é a principal obra da Rota Bioceânica e permitirá a conexão entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile até os portos do Pacífico.

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
Local que foi construída a Ponte da Rota Bioceânica, antes do início das obras. (Foto: Toninho Ruiz)

Segundo o diretor de engenharia da obra, René Gomes, a união inicial ocorreu pelas laterais da estrutura. A próxima etapa será a concretagem e a formação da laje de concreto armado.

O empreendimento é de responsabilidade do MOPC (Ministério de Obras Públicas e Comunicações) do Paraguai, financiado pela Itaipu Binacional, com investimento aproximado de US$ 100 milhões, e executado pelo Consórcio PyBra.

As obras começaram em julho de 2022 e chegaram a ser interrompidas temporariamente em 2024, devido a uma investigação da Receita Federal sobre procedimentos aduaneiros.

O encontro das estruturas também simboliza o avanço de um projeto discutido muito antes do início da execução.

A construção da ponte teve início em dezembro de 2021, com previsão inicial de entrega em 2025. Ainda em 2017, quando a Rota Bioceânica ganhava forma, a expectativa era de que os trabalhos começassem em 2018.

Na lama, expedições abriram caminho para ponte que agora une Brasil e Paraguai
No centro, o então secretário de Estado Jaime Verruck e a prefeita Adriane Lopes, antes de expedição. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

O que antes era medido por quilômetros percorridos, horas de espera em fronteiras e dúvidas sobre a viabilidade do trajeto agora aparece em concreto sobre o Rio Paraguai.

A união da ponte não elimina os desafios de acessos, aduanas e infraestrutura ao longo do corredor, mas marca a passagem de uma rota testada em expedições para uma ligação internacional próxima de entrar em operação.

Confira a galeria de imagens:

  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.