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Editorial

Campanha promete no varejo e deixa o futuro do Brasil fora do debate

Candidatos devem mostrar como enfrentar gargalos de logística, garantir energia e proteger recursos naturais

Por José Cândido | 18/10/2026 07:03
Campanha promete no varejo e deixa o futuro do Brasil fora do debate
Obra de manutenção na BR-163, em Mato Grosso do Sul: conservação das rodovias e integração logística precisam ganhar espaço no debate presidencial. (Foto de arquivo)

Uma eleição presidencial deveria responder a uma pergunta que anda perdendo espaço entre promessas, ataques e vídeos de poucos segundos: que país os candidatos pretendem construir? Não apenas o que vão oferecer no primeiro mês de governo, mas quais mudanças vão sustentar o desenvolvimento brasileiro nos próximos dez ou vinte anos.

RESUMO

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Editorial defende que a eleição presidencial discuta o projeto de país para as próximas décadas, e não apenas promessas imediatas. O texto cobra dos candidatos propostas detalhadas para rodovias, ferrovias, energia, meio ambiente, educação e saneamento, com fontes de financiamento, prazos e responsabilidade fiscal. Cita o Plano Nacional de Logística 2050 e o Plano Clima, destaca a importância para Mato Grosso do Sul e pede que imprensa e eleitores cobrem respostas comparáveis.

Quando a disputa se concentra no varejo das ofertas, o eleitor recebe uma lista de vantagens, mas dificilmente consegue enxergar o projeto que as sustenta. Promete-se aliviar o bolso sem explicar como aumentar a produtividade. Anuncia-se emprego sem discutir a infraestrutura necessária para atrair empresas. Fala-se em crescimento sem esclarecer de onde virá a energia, por onde passará a produção e como serão protegidos os recursos naturais.

Benefícios sociais, salários e impostos têm importância concreta na vida das famílias. Precisam estar no debate. Mas uma campanha que se limita a essas questões deixa sem resposta justamente os problemas que ajudam a determinar o preço dos alimentos, a qualidade do emprego e a capacidade do Estado de financiar serviços públicos.

A infraestrutura de transportes é um desses assuntos. Uma estrada deteriorada não representa apenas desconforto para quem dirige. Significa risco de acidentes, viagens mais demoradas, desperdício de combustível e aumento do custo de transportar mercadorias. Essa conta percorre a cadeia econômica e chega ao consumidor.

Os candidatos precisam dizer quais corredores rodoviários consideram prioritários, como pretendem financiar sua recuperação e quais critérios usarão para decidir entre investimento público e concessões. Também precisam explicar como cobrar qualidade das concessionárias e assegurar que o pedágio corresponda ao serviço entregue. Anunciar obras sem discutir manutenção é preparar a próxima deterioração.

Nas ferrovias, a cobrança deve ir além da fotografia de um trecho inaugurado. O país precisa de uma rede capaz de conectar regiões produtoras, centros industriais e portos. Trilhos exigem integração, acesso e capacidade de atender diferentes cargas. Uma ferrovia isolada pode render propaganda; um sistema ferroviário eficiente pode alterar a competitividade de uma região inteira.

Existe uma base técnica para essa discussão. O Plano Nacional de Logística 2050 reúne 31 eixos prioritários de transporte, abrangendo rodovias, ferrovias, estruturas aquaviárias e conexões entre diferentes modalidades. A campanha deveria confrontar esse planejamento com compromissos concretos: quais prioridades cada candidato assume, o que pretende revisar e como fará a execução atravessar sucessivos governos. gov.br

Para Mato Grosso do Sul, esse debate tem consequências diretas. O futuro das ligações ferroviárias, dos acessos aos portos e das conexões com os países vizinhos ajuda a definir quanto da riqueza produzida permanecerá no Estado. É preciso perguntar como transformar a posição geográfica em oportunidade industrial, comercial e de emprego. Produzir mais perde parte do sentido quando transportar continua sendo um obstáculo.

A energia exige a mesma profundidade. Não basta prometer conta de luz menor ou celebrar o potencial brasileiro de geração. É necessário explicar como a eletricidade chegará aos consumidores, com segurança e custo competitivo, e como o sistema atenderá à expansão da indústria, dos serviços e das novas tecnologias.

Geração, transmissão, distribuição e armazenamento precisam ser discutidos em conjunto. O planejamento da Empresa de Pesquisa Energética trabalha com um horizonte de dez anos e diferentes fontes de energia. Esse prazo evidencia a responsabilidade de quem disputa a Presidência: decisões tomadas durante um mandato produzem efeitos que ultrapassam a eleição seguinte. epe.gov.br

Quais investimentos serão estimulados? Como aproveitar o potencial solar, eólico e dos biocombustíveis? Qual será o papel do petróleo e do gás nessa trajetória? Como conciliar expansão, segurança do abastecimento, proteção ambiental e tarifas acessíveis? São escolhas que precisam aparecer com suas vantagens, custos e consequências.

O meio ambiente também não pode ficar restrito a declarações genéricas de preservação ou a confrontos ideológicos. Água, solo, florestas e estabilidade climática fazem parte da infraestrutura que sustenta a economia. A proteção desses recursos interessa ao produtor rural, à indústria e à família que depende de abastecimento regular.

Uma política ambiental séria deve reunir combate ao desmatamento ilegal, recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes, prevenção de incêndios e adaptação das cidades e do campo. O Plano Clima organiza ações de adaptação e redução de emissões até 2035. Cabe aos candidatos explicar quais compromissos assumirão, como os financiarão e como apoiarão estados e municípios na execução. gov.br

Adaptar o país significa rever drenagem urbana, proteger encostas, preparar serviços de emergência, tornar redes elétricas mais resistentes e melhorar a gestão da água. É uma agenda que precisa entrar no orçamento antes da próxima emergência. Para o Pantanal, o Cerrado e as regiões agrícolas, a pergunta deve ser prática: quais medidas serão executadas, por quem e em quanto tempo?

Há outros temas que merecem ocupar o centro da disputa: saneamento, educação básica, formação profissional, ciência, inovação e capacidade industrial. Um país que deseja produzir com maior valor agregado precisa explicar como formará trabalhadores, apoiará a pesquisa e aproximará conhecimento e atividade econômica.

Essas agendas se conectam. Uma fábrica depende de transporte, energia, água, trabalhadores qualificados e regras previsíveis. Uma cidade precisa de habitação acompanhada de saneamento, mobilidade e serviços. Uma região produtora necessita de conservação ambiental e acesso aos mercados. Promessas fragmentadas não substituem essa visão de conjunto.

Tudo isso exige dinheiro, prioridades e capacidade de execução. Os candidatos devem mostrar o que cabe no orçamento, quais despesas pretendem rever, como atrairão investimento privado e quais mecanismos permitirão fiscalizar contratos e resultados. A responsabilidade fiscal precisa fazer parte do projeto de desenvolvimento, porque uma promessa sem financiamento disputa recursos com todas as demais.

Também é necessário assumir limites. Grandes projetos não começam e terminam, necessariamente, em quatro anos. Um governante sério deve informar o que consegue entregar durante o mandato e quais etapas deixará preparadas para continuidade. O eleitor merece distinguir obra contratada, execução iniciada e serviço efetivamente disponível.

Debates, entrevistas e sabatinas precisam avançar sobre essas questões. Depois de perguntar o que o candidato promete, é indispensável cobrar onde, quando, quanto custa e como será feito. A imprensa tem responsabilidade nesse aprofundamento, e os candidatos têm obrigação de oferecer respostas que possam ser comparadas e cobradas.

O Brasil precisa de compromissos que sobrevivam ao palanque. Rodovias, ferrovias, energia, água, educação e proteção ambiental determinam as condições em que milhões de pessoas vão trabalhar e viver. Quem pretende governar o país deve assumir essas escolhas diante do eleitor. Sem elas, a campanha distribui expectativas, mas deixa o futuro sem direção.