ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, SEGUNDA  28    CAMPO GRANDE 27º

Editorial

Enquanto facções avançam, Forças Armadas seguem nos quartéis

Crime em Rochedo expõe a capacidade das organizações criminosas de impor suas regras até em pequenas cidades

Por José Cândido | 28/09/2026 05:03
Enquanto facções avançam, Forças Armadas seguem nos quartéis
Viaturas policiais cercam a casa em Rochedo onde duas jovens foram torturadas e assassinadas; o crime é investigado por suspeita de envolvimento de uma facção. (Foto Juliano Almeida)

O que aconteceu em Rochedo revela mais do que a brutalidade de um duplo assassinato. Segundo a apuração do Campo Grande News, Ellen Vitória Moreira da Cruz e Vitória Gabriely Souza Cordeiro foram torturadas durante cerca de cinco horas antes de serem mortas.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Duas jovens foram torturadas por cerca de cinco horas e mortas em Rochedo, município com pouco mais de 5 mil habitantes em Mato Grosso do Sul, com a execução transmitida ao vivo a integrantes de uma facção criminosa. O caso expõe a capilaridade do crime organizado no interior e a necessidade de ações integradas entre forças estaduais, federais e militares para desmantelar estruturas criminosas que avançam pela fronteira com Paraguai e Bolívia.

A execução foi transmitida ao vivo para integrantes de uma facção. Em uma cidade de pouco mais de 5 mil habitantes, criminosos agiram sob ordens, mantiveram contato com seus superiores e fizeram da violência uma demonstração de poder.

É assim que as facções ocupam espaço. Elas se instalam, recrutam, movimentam dinheiro, disputam territórios e impõem punições próprias. O medo passa a governar onde o Estado deveria garantir a lei.

O assassinato em Rochedo choca pela forma, mas o método já apareceu em outro município sul-mato-grossense: em Pedro Gomes, a execução de um jovem atribuída a um “tribunal do crime” também foi transmitida por videochamada a integrantes de uma facção.

As forças de segurança trabalham e fazem prisões. Dois suspeitos do crime em Rochedo foram detidos, e um terceiro morreu após uma abordagem policial. O problema é que, diante de organizações capazes de ordenar mortes à distância, prender os executores depois do crime não basta.

É preciso desmontar a cadeia de comando, cortar o dinheiro e impedir a chegada de armas e drogas. Enquanto as facções conseguem se reorganizar e repetir o método em outras cidades, o poder público continua correndo atrás.

Mato Grosso do Sul tem um desafio que não cabe apenas nos ombros das polícias estaduais. Sua fronteira com Paraguai e Bolívia está na rota de mercados ilegais que abastecem o crime organizado.

Uma operação pontual rende apreensões e manchetes. Já o controle permanente exige pessoal, inteligência, equipamentos e presença coordenada ao longo do tempo. Sem isso, a repressão alcança uma carga ou um grupo, enquanto a estrutura criminosa preserva sua capacidade de operar.

É nesse ponto que o governo federal precisa ser cobrado. O país mantém uma enorme estrutura nas Forças Armadas, mas usa pouco de sua capacidade para enfrentar de maneira contínua os delitos na fronteira.

A lei já permite aos militares patrulhar a faixa fronteiriça, revistar veículos e embarcações e efetuar prisões em flagrante por crimes transfronteiriços, em ação própria ou conjunta com outros órgãos. Falta transformar essa possibilidade em presença efetiva, articulada com Polícia Federal, Receita Federal e forças estaduais.

Convocar as Forças Armadas para reforçar a fronteira não dispensa investigação policial nem resolve, sozinho, o domínio das facções nas cidades. Mas deixar essa estrutura nos quartéis enquanto as organizações criminosas ampliam seu alcance é uma escolha que o governo federal precisa explicar.

Rochedo mostrou o preço da demora. Quando uma facção consegue transformar o assassinato de duas jovens em uma transmissão para seus integrantes, já não se discute apenas um crime bárbaro.

Discute-se quanto território, dinheiro e poder essas organizações ainda poderão conquistar antes que o Estado consiga agir primeiro.