Enquanto o crime cruza a fronteira, o Exército permanece nos quartéis
Facções desafiam o Estado e cobram reação do País

Mato Grosso do Sul trava uma guerra que deixou de ser apenas sua. A expansão das facções criminosas, especialmente Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), transformou o Estado em uma das principais portas de entrada do narcotráfico e de outras atividades criminosas no País. O resultado é uma escalada da violência, confrontos cada vez mais frequentes e um cenário que desafia a capacidade das forças estaduais de segurança.
RESUMO
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Mato Grosso do Sul enfrenta uma escalada da violência provocada pela expansão do PCC e do Comando Vermelho, que transformaram o estado em porta de entrada do narcotráfico. Com 1.500 km de fronteira com Paraguai e Bolívia, municípios pequenos enfrentam organizações criminosas com armamento de guerra. Especialistas defendem maior presença das Forças Armadas na região, já que a defesa das fronteiras é responsabilidade federal.
A resposta da polícia tem sido dura. Somente neste ano, dezenas de criminosos morreram em confrontos com as forças de segurança. São operações diárias, apreensões de drogas, armas e prisões que demonstram preparo, coragem e dedicação dos policiais militares, civis e federais que atuam no Estado. Mas, por mais eficiente que seja essa atuação, é impossível vencer sozinho uma guerra dessa dimensão.
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O maior problema está na fronteira. São aproximadamente 1.500 quilômetros de divisa com Paraguai e Bolívia, grande parte formada por áreas rurais, estradas vicinais e regiões de difícil fiscalização. Em muitos trechos, atravessa-se de um país para outro praticamente sem qualquer obstáculo.
Municípios como Paranhos, Sete Quedas, Coronel Sapucaia, Aral Moreira, Porto Murtinho e tantos outros convivem diariamente com essa realidade. São cidades pequenas, com efetivos policiais limitados, estrutura insuficiente e enorme dificuldade para enfrentar organizações criminosas que movimentam milhões de reais, utilizam armamentos de guerra e contam com sofisticada logística internacional.
Essa não pode ser tratada como uma responsabilidade exclusiva do governo estadual.
A fronteira é responsabilidade da União. A Constituição é clara ao estabelecer que a defesa das fronteiras nacionais é atribuição do Governo Federal. Não basta realizar operações pontuais ou enviar reforços temporários sempre que ocorre uma crise. É preciso presença permanente.
As Forças Armadas precisam assumir um papel mais ativo na proteção da fronteira. O Exército conhece a região, dispõe de logística, inteligência e capacidade operacional para atuar em conjunto com as polícias. Permanecer restrito aos quartéis enquanto organizações criminosas consolidam corredores internacionais do tráfico é desperdiçar uma estrutura que foi criada justamente para defender o território nacional.
Não se trata de militarizar a segurança pública, mas de reconhecer que o problema ultrapassou os limites da criminalidade comum. O tráfico internacional de drogas financia armas, lavagem de dinheiro, contrabando, homicídios, corrupção e outras modalidades criminosas que afetam todo o Brasil. O que entra pela fronteira sul-mato-grossense abastece facções em diversos estados brasileiros.
Cada carregamento interceptado representa dezenas de outros que conseguem passar. Cada prisão revela uma organização muito maior, com ramificações nacionais e internacionais.
Enquanto isso, os policiais estaduais seguem na linha de frente, muitas vezes enfrentando criminosos fortemente armados e assumindo riscos que deveriam ser compartilhados por toda a estrutura de defesa do País.
Não faltam discursos sobre combate ao crime organizado. Falta transformar essas palavras em política de Estado. A proteção das fronteiras precisa deixar de ser apenas um tema de campanha eleitoral para se tornar prioridade permanente do governo federal.
Mato Grosso do Sul está fazendo sua parte. A polícia demonstra eficiência, coragem e resultados. Mas nenhuma força estadual, por melhor que seja, conseguirá vencer sozinha organizações criminosas que operam em escala internacional.
A guerra travada na fronteira não é de Mato Grosso do Sul. É do Brasil. E o Brasil precisa finalmente decidir enfrentá-la com todos os instrumentos de que dispõe.

