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Cidades

Antes do tiro, facções criam redes de influência e avançam pelo interior de MS

Ações, recrutamento, negócios e alianças locais mostram como PCC e CV transformam presença em território

Por Bruna Marques | 18/09/2026 06:13
Antes do tiro, facções criam redes de influência e avançam pelo interior de MS
Sigla do PCC pichada em poste de rua de bairro em Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)

A cesta básica que chega quando a comida falta, uma festa para as crianças, a promessa de dinheiro para quem ainda procura o primeiro emprego. Em Mato Grosso do Sul, a aproximação de uma facção com os moradores pode começar por gestos que despertam gratidão ou oferecem esperança.

RESUMO

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Em Mato Grosso do Sul, organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho ampliam sua influência por meio de ações assistenciais, recrutamento de jovens e inserção na economia formal, segundo o Gaeco. A procuradora Ana Lara alerta que o Estado não está dominado, mas passa por mudanças no perfil das facções, com o CV avançando sobre municípios do interior, enquanto o PCC migra para operações de maior escala.

No interior do Estado, ações assistenciais, recrutamento de jovens e negócios usados para movimentar dinheiro ilícito ajudam a construir redes de influência que nem sempre aparecem no noticiário policial. Quando a disputa pelo território chega aos tiros, parte dessa história já foi escrita.

Segundo a coordenadora do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), procuradora de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Ana Lara Camargo de Castro, o Estado não está dominado por organizações criminosas, mas passa por uma mudança no perfil da atuação desses grupos.

A transformação envolve principalmente a forma de ocupação do território. Se antes a atuação estava mais associada à fronteira, às rotas do tráfico e ao transporte de grandes cargas, agora também alcança relações e atividades dentro dos próprios municípios, aproximando o crime organizado da rotina das comunidades.

Essa mudança ocorre em meio a diferentes estratégias das duas maiores facções criminosas do País. Historicamente, o PCC (Primeiro Comando da Capital) tem predominância em Mato Grosso do Sul, enquanto o Comando Vermelho mantém maior presença em Mato Grosso. Para a procuradora, porém, a dinâmica entre os grupos vem se alterando.

O PCC, segundo Ana Lara, passou a concentrar parte maior de sua estrutura em operações de escala ampliada, especialmente no comércio criminoso transnacional, no envio de drogas para outros países e na lavagem de dinheiro por meio de atividades da economia formal.

“O PCC passou por uma certa gentrificação. Ou, se a gente pode falar, uma ascensão social do crime”.

A expressão usada pela procuradora resume uma mudança de estratégia que ajuda a explicar o atual rearranjo no Estado. O PCC não abandonou as atividades de varejo, mas passou a concentrar parte maior de seus interesses em operações de grande escala, incluindo o trânsito de cocaína e maconha em direção aos grandes portos brasileiros e estruturas utilizadas para ocultar recursos no mercado formal.

Com menos interesse relativo no chamado varejo cotidiano, surge espaço para outras organizações disputarem bocas de fumo, lideranças locais e mercados menores.

“Em certa medida, há um desinteresse do próprio PCC no varejo cotidiano. Acaba o varejo cotidiano do PCC? Não. Mas deixa de ser algo tão interessante para o PCC”.

Antes do tiro, facções criam redes de influência e avançam pelo interior de MS
Procuradora de Justiça e coordenadora do Gaeco, Ana Lara, durante entrevista sobre a atuação de organizações criminosas em MS (Foto: Luiz Donizete)

Na prática, o “varejo cotidiano” citado pela procuradora corresponde à atuação mais próxima da população, como os pontos locais de venda de drogas e as lideranças que comandam esse mercado em municípios menores. Com o deslocamento de parte dos interesses do PCC para operações de maior escala, esse segmento ganha espaço na disputa entre organizações criminosas.

É justamente nesse cenário que o Ministério Público identifica uma mudança no comportamento do Comando Vermelho em Mato Grosso do Sul. A facção, porém, não é nova no Estado. Sua presença remonta, pelo menos, ao fim dos anos 1990, quando o nome de Fernandinho Beira-Mar esteve associado à região de Coronel Sapucaia, na fronteira com o Paraguai. O que se transforma agora, segundo Ana Lara, é como o grupo passa a se posicionar dentro do território sul-mato-grossense.

Durante anos, o Estado funcionou principalmente como território estratégico para abastecimento de outras regiões. Agora, o CV (Comando Vermelho) passa a demonstrar interesse também pela ocupação de espaços locais.

Uma das evidências apontadas pela procuradora surgiu na Operação Bloodworm, investigação do Gaeco iniciada entre o fim de 2021 e o começo de 2022. A partir de materiais relacionados à investigação na Gameleira 2, o grupo identificou conversas que indicavam uma intenção de levar a atuação da facção do sistema prisional para as ruas.

Em uma das mensagens, integrantes anunciavam: “A partir desta data, 29/12/2021, será dado início a alguns trabalhos no Estado do MS”.

Na sequência, o próprio grupo destacava a importância estratégica do território sul-mato-grossense: “Irmãos, sabemos que o Estado do MS é uma fonte rica de exportação de mercadorias, um dos principais Estados que abastece o Brasil”.

Para Ana Lara, o conteúdo demonstrava que não se tratava apenas da movimentação de criminosos pela fronteira, mas de uma estratégia organizada. “Ele já tinha um plano, uma estratégia de intramuros para a rua”.

Antes do tiro, facções criam redes de influência e avançam pelo interior de MS
Pichação do PCC em muro de bairro na Capital (Foto: Juliano Almeida)

O Estado que serve de passagem e de disputa - A posição geográfica de Mato Grosso do Sul ajuda a explicar por que o Estado desperta interesse das organizações criminosas. O território conecta fronteiras internacionais, rodovias, hidrovias e rotas aéreas utilizadas para o transporte clandestino.

A procuradora define essa característica como um “hub multimodal”, ou seja, um território que reúne diferentes caminhos para circulação de cargas. Em Mato Grosso do Sul, isso envolve rodovias, hidrovias e transporte aéreo, além da conexão com países fronteiriços e grandes centros consumidores, tornando o Estado estratégico para a movimentação de mercadorias ilegais.

Há ainda a transformação do papel da Bolívia no circuito do tráfico, especialmente Santa Cruz de la Sierra, que passou a ganhar importância como ponto relacionado à circulação da cocaína andina e também como polo financeiro.

Esse cenário se cruza com a disputa pelas rotas brasileiras.

A Rota Caipira, que passa por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás até chegar a São Paulo e aos grandes portos, tem predomínio histórico do PCC. Na Bacia Amazônica, a Rota do Solimões apresenta maior presença do CV.

A expansão dentro de Mato Grosso do Sul, portanto, não pode ser separada da disputa por esses corredores. “Eu vejo como um fenômeno duplo”.

De um lado, está o valor logístico do Estado. De outro, a oportunidade de avançar sobre territórios onde a presença de grupos rivais era mais consolidada.

Antes do tiro, facções criam redes de influência e avançam pelo interior de MS
Sigla do Comando Vermelho pichada em muro de casa em Dourados (Foto: Divulgação)

A disputa chega ao interior - O movimento já não se limita às cidades fronteiriças. Segundo levantamento feito pelo Ministério Público entre janeiro e julho de 2026, episódios de confronto, execuções e mortes relacionadas à disputa territorial foram identificados em 25 municípios de Mato Grosso do Sul.

A procuradora chama atenção para o deslocamento pelo interior. “Em 2026, especificamente, nós estamos falando de uma caminhada em vários pequenos ou médios municípios do Mato Grosso do Sul”.

Parte dessa movimentação, conforme o levantamento apresentado por ela, estaria ligada a integrantes provenientes principalmente do Mato Grosso e de Rondônia, inclusive de estruturas do sistema penitenciário.

Em determinadas situações, a chegada tem relação direta com a disputa pelo território. “Eles vêm para tomar território”.

A estratégia pode envolver confrontos com forças de segurança, mas também ações direcionadas contra integrantes de grupos rivais, com pressão para mudarem de facção.

A procuradora descreve o Comando Vermelho como uma organização particularmente voltada ao controle territorial. Nesse modelo, a facção não busca apenas dominar o comércio de drogas, mas exercer influência sobre o espaço e sobre as relações que existem dentro dele.

É aí que a expansão ganha uma dimensão social.

Aproximação vem antes da violência - Especialista em Direito Penal e Criminologia, o advogado e professor de Direito da Uniderp, Rafael Sampaio, explica que esse processo pode ser compreendido pela teoria da anomia, conceito utilizado para analisar situações em que normas e instituições perdem força.

Quando a presença do poder público é insuficiente, segundo ele, surge uma lacuna que pode ser ocupada por organizações criminosas.

“Quando o Estado não está presente, as organizações criminosas identificam essa lacuna e encontram um espaço para se sedimentar naquela sociedade.”

A ocupação não precisa começar com uma arma; pode começar com aquilo que falta. Cesta básica, gás de cozinha, medicamentos, transporte, festas, brinquedos e eventos esportivos são alguns dos exemplos citados pelo especialista. Em determinadas comunidades, a facção passa a oferecer serviços e benefícios que deveriam estar vinculados a políticas públicas ou redes formais de assistência.

Um exemplo recente dessa estratégia veio à tona em Sonora, quando uma apreensão de cerca de 200 ovos de Páscoa chamou atenção das autoridades. Segundo a investigação, os produtos seriam destinados a uma ação aparentemente beneficente, mas a suspeita é de que a iniciativa fosse usada para aproximar integrantes do grupo criminoso da comunidade, fortalecer vínculos e ampliar a influência local.

O caso, noticiado pelo Campo Grande News, expõe como uma ação que, à primeira vista, poderia ser interpretada apenas como solidariedade pode ganhar outra dimensão quando associada à atuação de uma organização criminosa. A entrega de benefícios cria proximidade, enquanto a proximidade pode abrir caminho para confiança, dependência e, posteriormente, recrutamento ou controle.

“Elas não chegam necessariamente pela violência ou impondo sua força. Elas vão, aos poucos, substituindo o Estado”.

É nesse momento que o criminoso pode deixar de ser percebido apenas como alguém ligado ao tráfico e começar a ocupar o papel de uma referência comunitária.

O fenômeno, segundo Rafael, é conhecido na criminologia como governança criminal. A organização cria regras, interfere em conflitos e passa a estabelecer o que pode ou não acontecer naquele espaço.

Em determinadas comunidades, isso pode produzir uma situação particularmente contraditória: crimes comuns diminuem, mas o poder criminoso aumenta. “Isso cria uma falsa sensação de segurança”.

A lógica é que a própria organização passa a punir quem pratica determinados delitos. Para o morador, a redução de furtos ou roubos pode parecer sinal de melhora na segurança. Na realidade, significa que uma estrutura paralela assumiu a função de estabelecer regras e aplicar punições.

A procuradora identifica esse mecanismo como uma das características das facções ultraviolentas. “Uma é trabalhar com a ideia de controle territorial. E a outra é trabalhar com essa ideia de desafio à autoridade estatal”.

O resultado é uma disputa que não acontece apenas pela rua, mas também pela percepção da população sobre quem é capaz de protegê-la.

Assistência que cria dependência - A distribuição de alimentos e a realização de eventos não são fenômenos inéditos em Mato Grosso do Sul. A própria procuradora lembra que investigações do Gaeco sobre o PCC, ainda em 2016, já haviam encontrado ações de aproximação com comunidades, incluindo distribuição de cestas básicas.

No caso do CV, segundo ela, essa característica está ainda mais associada ao modelo territorial da organização. A lógica é resumida em uma frase: “O que o Estado não deu, a gente oferece”.

Para Rafael, a ação assistencial tem uma consequência que vai além da gratidão de quem recebe. Ela cria uma relação e relações, em uma estrutura criminosa, podem se transformar em proteção, dependência e silêncio.

O especialista compara esse mecanismo ao que ocorreu historicamente com o jogo do bicho no Rio de Janeiro. Bicheiros passaram a financiar escolas de samba, festas, times de várzea e outras atividades comunitárias, criando uma imagem de proximidade e aceitação apesar da origem ilegal dos recursos.

A dinâmica atual pode assumir novas formas, mas preserva uma característica: a ocupação de espaços sociais como caminho para construir legitimidade.

Se o território físico é uma das disputas, o jovem é outro. A entrada de adolescentes e jovens nas facções preocupa especialmente porque o recrutamento atual, segundo a procuradora, está menos ligado aos códigos e à formação ideológica que marcaram as origens dessas organizações.

Hoje, dinheiro e imagem pesam mais. Redes sociais exibem armas, carros, joias e outros símbolos de poder, transformando a vida criminosa em uma vitrine de status. “É o lucro fácil, a própria exibição em mídias, em redes sociais, que atrai.”

Rafael acrescenta que o crime organizado oferece uma combinação difícil de competir em determinados contextos: dinheiro imediato, pertencimento e uma estrutura de ascensão. “O jovem busca pertencimento”.

Dentro da organização, explica, o jovem pode enxergar uma espécie de carreira, com aumento de ganhos e posição conforme assume novas funções.

O problema é que a mesma estrutura que oferece status também pode transformar o jovem em peça substituível.

A procuradora observa que, sem uma ligação ideológica profunda com a organização, esses integrantes ficam mais vulneráveis à própria dinâmica violenta do grupo. “Quanto mais vulneráveis, mais descartáveis”.

Facção entra pela porta da frente - A expansão também pode acontecer sem que o crime apareça imediatamente como crime.

Rafael aponta a aproximação com a economia formal como uma etapa importante desse processo. Empresas, mercados, lava-jatos, lavanderias, terrenos e galpões podem ser usados para movimentação de recursos, lavagem de dinheiro ou criação de relações comerciais.

O dinheiro ilícito passa a circular por atividades aparentemente comuns. “Dessa forma, a organização vai se inserindo na economia local e criando alianças com moradores e lideranças.”

O efeito é duplo: ao mesmo tempo em que amplia os mecanismos para movimentar recursos, a organização passa a ocupar espaços cada vez maiores na comunidade.

Empresário pode não fazer parte da facção, assim como um trabalhador pode desconhecer a origem do dinheiro que circula em determinada atividade ou um morador pode apenas receber uma cesta básica. Isoladamente, essas relações podem parecer casuais, mas, reunidas, ajudam a formar uma rede de vínculos que dá sustentação à presença da organização no território.

A aproximação com a população também pode dificultar a reação do Estado. Quando integrantes de uma organização participam de eventos comunitários ou financiam atividades locais, passam a estar cercados por pessoas que não têm qualquer envolvimento com o crime.

Rafael define esse efeito como uma “blindagem humana”.

“A população acaba funcionando, ainda que involuntariamente, como uma barreira à atuação policial”.

O fenômeno ajuda a explicar por que ações policiais podem ser recebidas de maneira diferente por uma comunidade que já estabeleceu vínculos com aquela organização.

Enquanto a facção aparece associada a uma festa, um benefício ou uma oportunidade, o Estado pode ser percebido naquele momento apenas pela repressão. A disputa, portanto, deixa de ser somente pela venda de drogas. Passa a ser também pela confiança.

Os sinais aparecem antes - Em cidades pequenas e médias, a consolidação de uma organização criminosa pode ser mais discreta. Rafael aponta que esses municípios podem oferecer vantagens logísticas e, ao mesmo tempo, contar com estruturas de segurança mais reduzidas.

Não necessariamente existe uma unidade especializada, um grupamento tático permanente ou uma estrutura robusta de investigação, e o crime organizado pode explorar justamente essa diferença.

A ocupação pode começar de forma discreta, com o aluguel ou a compra de um imóvel, a utilização de um galpão, a abertura de uma empresa, a criação de uma rota de circulação, o estabelecimento de um contato ou a aproximação com uma liderança local.

A disputa territorial também não precisa assumir imediatamente a forma de guerra. “Em vez de confrontos armados prolongados, podem ocorrer homicídios seletivos, execuções específicas e queimas de arquivo”.

É nesse ponto que a violência começa a revelar o que vinha acontecendo de maneira menos perceptível. Mortes seletivas podem eliminar lideranças locais, abrir espaço para novos grupos e alterar o equilíbrio de poder em uma cidade.

A própria procuradora aponta a circulação dos grupos como um sinal de alerta. “Essa própria presença, essa própria circulação deles já chama atenção. É algo organizado, é algo pretendido”.

397 mortes e silêncio — Os dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) mostram a dimensão da violência letal em Mato Grosso do Sul, mas não permitem estabelecer quantas mortes têm relação direta com facções.

Entre janeiro e setembro de 2026, foram registrados 397 homicídios no Estado. Do total, 136 vítimas eram jovens, 203 adultos, 18 adolescentes, seis crianças e 28 idosos. Em seis registros, a idade não foi informada.

Em todo 2025, foram 447 mortes: 250 adultos, 127 jovens, 12 adolescentes, sete crianças, 42 idosos e nove vítimas sem idade informada.

A base apresentada não especifica quais vítimas tinham vínculo com organizações criminosas nem quais homicídios decorreram de disputas territoriais. Por isso, os números não podem ser atribuídos diretamente à atuação de facções.

Em crimes ligados a organizações criminosas, uma das maiores dificuldades é conseguir que a comunidade fale. A testemunha que viu a movimentação pode ter medo de depor. O vizinho que possui uma câmera pode hesitar em entregar as imagens. Quem sabe quem ordenou uma execução pode preferir não se envolver.

A estrutura criminosa se beneficia desse silêncio. A procuradora explica que, nesses casos, a prova testemunhal se torna especialmente difícil. “No caso das facções, especificamente, há o medo”.

Não se trata apenas de uma ameaça individual. A estrutura possui poderio bélico e capacidade de executar pessoas. Por isso, investigações precisam buscar outros tipos de prova e reconstruir a cadeia de acontecimentos por meio de informações, dados e inteligência.

E essa cadeia pode atravessar Estados.

Segundo a procuradora, investigações envolvendo o CV já identificaram ordens relacionadas a ações em Mato Grosso do Sul provenientes de estruturas do sistema penitenciário de Mato Grosso, especialmente Rondonópolis e Cuiabá.

Quem ordena pode estar longe, enquanto quem executa pode estar em outra cidade e quem oferece apoio sequer conhece pessoalmente quem está no comando. A organização funciona como uma rede hierarquizada, com divisão de tarefas e células conectadas.

Apesar da expansão identificada em diferentes municípios, a procuradora faz questão de separar presença criminosa de domínio territorial. “Mato Grosso do Sul não está dominado por facções”.

Para ela, domínio seria uma situação em que a autoridade pública deixa de conseguir entrar em determinado território, enquanto a facção passa a impor regras, cobrar taxas e controlar integralmente a vida dos moradores.

Esse cenário não é o que o Ministério Público identifica atualmente no Estado. “A presença do Estado ainda é bastante forte no Mato Grosso do Sul”.

O alerta está justamente no movimento anterior ao domínio. A procuradora defende que órgãos de segurança e Justiça acompanhem a mudança de perfil das organizações, especialmente do Comando Vermelho.

O enfrentamento, segundo ela, passa por inteligência, integração entre as forças de segurança, tecnologia e cooperação na região de fronteira.

O desafio é identificar a expansão antes que ela se transforme em uma estrutura consolidada. Uma facção pode chegar a uma cidade pela rota do tráfico, mas permanecer por outros caminhos: ganhar espaço oferecendo assistência, conquistar confiança ao financiar uma festa, recrutar um adolescente com a promessa de dinheiro, abrir uma empresa, estabelecer uma liderança ou impor regras.

E pode, finalmente, recorrer à violência para defender aquilo que já considera seu. O tiro é o momento mais visível, mas a construção do território acontece muito antes.

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