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Esportes

Para comprovar “farra das diárias” no futebol, Gaeco seguiu Comercial e Operário

Francisco Cezário de Oliveira e outros 11 são acusados de integrar esquema para desviar dinheiro do futebol

Por Anahi Zurutuza | 06/06/2024 11:48
Aparecido Alves Pereira em foto tirada pelo irmão, Umberto Alves Pereira, em abril de 2014 (Foto: Reprodução das redes sociais)
Aparecido Alves Pereira em foto tirada pelo irmão, Umberto Alves Pereira, em abril de 2014 (Foto: Reprodução das redes sociais)

Não só os grampos telefônicos e análise das contas bancárias dos alvos de Operação Cartão Vermelho sustentam a denúncia contra Francisco Cezário de Oliveira e outros 11 homens ligados do “Coronel do Futebol” em Mato Grosso do Sul. O Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado) seguiu os investigados, como o Campo Grande News já mostrou em outras reportagens sobre o escândalo, e também os dois maiores times do Estado, Comercial e Operário, para comprovar esquema de “rachadinha” com hotéis e restaurantes.

“Em campo”, investigadores foram a Chapadão do Sul no dia 17 de fevereiro de 2023, uma sexta-feira, atrás do ônibus que levava o Esporte Clube Comercial para jogar etapa do Campeonato Estadual de Futebol. A viagem teve o objetivo de confirmar “bem bolado” combinado por telefone entre funcionário de hotel e Aparecido Alves Pereira, sobrinho de Cezário e que mesmo sem vínculo empregatício com a Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul, era o responsável por fazer orçamentos e reservas pelo Estado para abrigar os times visitantes.

Interceptação telefônica do dia 3 de fevereiro do ano passado expôs o acordo escuso firmado por “Cido”, “uma das peças-chave no esquema”, segundo o Gaeco:

Diálogo entre Aparecido Alves Pereira, o operador da "farra das diárias", segundo o Gaeco, e funcionário de hotel (Foto: Reprodução dos autos)
Diálogo entre Aparecido Alves Pereira, o operador da "farra das diárias", segundo o Gaeco, e funcionário de hotel (Foto: Reprodução dos autos)

Na denúncia oferecida à Justiça, os promotores Gerson Eduardo de Araújo, Tiago Di Giulio Freire, Moisés Casarotto e Antenor Ferreira de Rezende Neto também registram que “o esquema para desvio de dinheiro [pagamento de diárias não utilizadas] não era novo”. “(...) Tanto que [o representante do Hotel Casabella]* diz: ‘igual a outra vez’, quando Aparecido Alves Pereira confirma e, depois de fazer algumas considerações, finaliza dizendo: ‘a gente vai fazendo aquele bem bolado lá’”.

Passo a passo – A equipe do Gaeco dormiu em Chapadão do Sul naquele 17 de fevereiro e fotografou o ônibus que transportou o Comercial até a cidade do interior em frente a Hotel Casabella, chegando com jogadores ao Estádio Municipal Laerte Paes Coelho (Laertão), em Costa Rica – cidade a 66 km do município onde fica a hospedaria “do esquema” –, e deixando o local da partida, no dia 18, contra o SERC (Sociedade Esportiva e Recreativa Chapadão).

De acordo com a investigação, o time visitante saiu de Costa Rica em direção a Campo Grande logo após a partida, às 13h54, não passou mais por Chapadão do Sul, e chegou à Capital naquele mesmo dia, por volta das 19h.

Veículo que transportou os atletas do Comercial em frente ao Hotel Casabella, em Chapadão do Sul (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Veículo que transportou os atletas do Comercial em frente ao Hotel Casabella, em Chapadão do Sul (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Atletas do Comercial desembarcando no Estádio Laertão, em Costa Rica, para partida pelo Campeonato Estadual de Futebol (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Atletas do Comercial desembarcando no Estádio Laertão, em Costa Rica, para partida pelo Campeonato Estadual de Futebol (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Veículo deixando a cidade de Costa Rica sentido Campo Grande, segundo investigadores (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Veículo deixando a cidade de Costa Rica sentido Campo Grande, segundo investigadores (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)

Delegação do Operário Futebol Clube também serviu de isca para “pegar” a “farra das diárias” para desviar dinheiro dos cofres estaduais, já que convênio da Federação de Futebol com a Fundersporte (Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul) é o que garante o pagamento das estadias e alimentação dos atletas. O time foi seguido nos dia 15 e 16 de abril do ano passado.

Os atletas do Operário dormiram no Hotel Turis e se alimentaram no Restaurante Brasão, em Dourados. A partida aconteceu na tarde do dia 16 e a equipe de futebol pegou a estrada de volta à Capital no mesmo dia.

“Após o término da partida de futebol, por volta das 18h30min, o ônibus com a delegação deixou a Estádio Douradão, deslocando para o Restaurante Brasão, e após a refeição, às 19h30min, seguiram pela rodovia BR-163, sentido Campo Grande, indicando que utilizaram somente uma diária do hotel”, diz o relatório do Gaeco.

Para os promotores, “restou provado que ‘Cido’, utilizando da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul, em conluio com terceiros, desviou, em proveito próprio e/ou alheio, por várias vezes dinheiro público oriundo da Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul”.

Time do Operário se hospedou no Turis Hotel, em Dourados, no dia 15 de abril de 2023 (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Time do Operário se hospedou no Turis Hotel, em Dourados, no dia 15 de abril de 2023 (Foto: Gaeco/Reprodução dos autos)
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade
Demais fotos feitas pelo Gaeco durante o monitoramento da delegação do Operário em abril de 2023 (Fotos: Gaeco/Reprodução dos autos)
Demais fotos feitas pelo Gaeco durante o monitoramento da delegação do Operário em abril de 2023 (Fotos: Gaeco/Reprodução dos autos)

O chefe – O Gaeco destaca que o presidente, agora afastado, da FFMS não só sabia dos acordos, como em certas ocasiões, era ela mesmo quem fazia as negociatas.

O esquema era acompanhado de perto pelo líder da organização criminosa, Francisco Cezário de Oliveira. Prova disso é que foi apreendido em um dos imóveis de Cezário, um controle de pagamento de diárias, alimentação, arbitragem do campeonato feminino de futebol, que também contava com incentivo financeiro do Estado de Mato Grosso do Sul, no qual constava expressamente, a caneta, as reais despesas custeadas pela entidade, que eram muito inferiores àquelas estabelecidas no convênio”.

A título de exemplo, os acusadores citam os R$ 328.830,00 recebidos pela Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul para custear as despesas do campeonato feminino, dos quais somente R$ 170 mil foram gastos, “sendo que o restante foi desviado para os integrantes da organização criminosa, mediante a prestação de contas fictícia”.

“Assim como ocorria com o campeonato masculino, a Federação de Futebol recebia duas diárias de hotel para 25 pessoas por equipe por jogo fora de casa, mas somente pagava uma, desviando a outra”, diz o texto.

Acusações – Duas semanas depois do Mato Grosso do Sul assistir cena inimaginável – a prisão do lendário presidente da Federação de Futebol –, a investigação sobre os desvios milionários do dinheiro destinado a fomentar o esporte, que começou em 2022, chegou ao fim. Nesta quarta-feira (5), foi remetida à 6ª Vara Criminal a denúncia contra o decano “dono da bola” em MS, um irmão dele, sobrinhos, um sobrinho-neto e outros integrantes da FFMS.

O Gaeco quer ver Cezário punido por 5 crimes – liderar organização criminosa, peculato (desvio de dinheiro ou bem público), furto qualificado, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. A denúncia, passo que é dado após o fim do inquérito, foi entregue à Justiça nesta terça-feira (4). Agora, é juiz quem decide se aceita ou não as acusações contra os 12 indiciados.

Outro lado - O advogado André Borges, responsável pela defesa de Cezário, afirma que só comentará o conteúdo da denúncia depois que o cliente for notificado formalmente. A preocupação agora é com a saúde do presidente afastado da FFMS, que deixou a cadeia nesta quarta-feira (5) para passar por cateterismo hoje no Hospital da Cassems, em Campo Grande.

“Francisco Cezário agora cuidará da saúde e da defesa que apresentará à boa justiça estadual", afirmou a defesa em nota enviada ao Campo Grande News nesta manhã.

Em depoimento ao Gaeco, Aparecido informou ser agente de jogadores. “Meu cliente Aparecido presta serviço dentro da federação, inclusive de organização de jogos junto a Fundesporte, além de ajudar times, que às vezes não têm um dirigente, que não têm condições de trabalhar junto ao sistema da CBF [Confederação Brasileira de Futebol]. O Cezário delega isso para o Aparecido”, explicou o advogado Júlio Cesar Marques, no dia 28 de maio.

O defensor afirmou ainda que como “prestador de serviço”, Cido recebe R$ 3 mil mensais da FFMS. “Ele ganha também para fazer a organização documental para as prestações de contas para a Fundesporte. Ele é o responsável por fazer a organização e orçamentos das hospedagens e alimentação para clubes no interior, porque a federação tem uma parceria, que é documentada, para dar suporte para os times”.

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