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Arquitetura

Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro

Com ajuda de artista, morador do Jardim Panorama fez “galeria” ao ar livre com corujas, araras e onças

Por Natália Olliver | 27/05/2026 06:10
Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro
Marcos Antônio Fernandes demorou 8 anos para realizar sonho de mural (Foto: Juliano Almeida)

Marcos Antônio Fernandes, de 58 anos, transformou a própria casa em uma galeria a céu aberto com corujas, araras, onças-pintadas e até espada-de-são-jorge. O sonho demorou 8 anos para ser finalizado e é o orgulho do bairro Jardim Panorama. Isso porque, quando a comunidade era só barraco, ele e os vizinhos sonhavam em construir muros de alvenaria e colorir com animais do Pantanal.

RESUMO

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Marcos Antônio Fernandes, de 58 anos, transformou sua casa no bairro Jardim Panorama em uma galeria a céu aberto com pinturas de corujas, araras, onças e canários, realizadas pela artista e vizinha Grazi Romero, de 35 anos. O projeto levou oito anos para ser concluído e cada obra representa uma memória afetiva da comunidade, que cresceu junto com o sonho de ter muros de alvenaria decorados com a fauna do Pantanal.

Tudo foi construído aos poucos, tijolo por tijolo. Quando o muro finalmente veio, Marcos não colocou nele só os pássaros que já coloriam as paredes internas. Ele levou para fora o bioma pantaneiro para que a rua também pudesse ver aquilo que nasceu dentro de casa.

Morador da Rua Tibaji, Marcos é presidente do bairro desde 2011. Ele trabalhou com ferragem e hoje atua como pintor. A casa dele virou uma espécie de galeria afetiva, dessas que não precisam de placa na entrada.

Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro
Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro
Paixão de Marcos são os pássaros, que agora estão nas paredes da casa (Foto: Juliano Almeida)

A responsável pelos murais é a artista e vizinha Grazieli de Souza Romero, ou melhor, Grazi Romero, de 35 anos. Ele dava ideias, acompanhava o processo e ela transformava as lembranças em desenho.

“Isso começou a partir de um sonho de dar uma repaginada na comunidade e trazer a arte. A nossa vizinha Grazi fez. O passarinho veio porque eu gosto e crio canários-belgas. A primeira pintura que fizemos foi uma ave. Eu participei de tudo, dava ideia, e ela, como artista, ia participando também. Depois passou para as corujas, porque no fundo tem uma praça que a gente lutou para conseguir e conseguiu. Lá tem muitas corujas. Aí as aves foram expandindo e ocupando as paredes”, conta Marcos.

As pinturas não são aleatórias. Cada uma tem motivo, memória ou afeto. As corujas lembram a praça conquistada pela comunidade. Os canários remetem à criação de Marcos. As araras aparecem porque, segundo ele, estão sempre por perto, especialmente por causa de um pé de coco na casa. E há também um sabiá com a patinha quebrada, inspirado em um pássaro que ele acolheu.

Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro
Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro
Grazi é artista e vizinha que tornou sonho de marcos possível (Foto: Juliano Almeida)

“Depois resolvemos desenhar um sabiá com a patinha quebrada. Eu criei ele em uma caixa de sapato e depois soltamos. O pássaro sempre ficava por aqui. Ele ia embora, mas voltava. Então resolvemos deixar ele na parede daquele jeito. Na parte da frente, na varanda, ainda tem mais corujas, araras vermelhas e azuis. Temos um pé de coco aqui e elas estão sempre por aqui”, lembra.

O muro externo demorou a acontecer. Não por falta de vontade, mas pela rotina no trabalho de ambos. A pintura foi feita sem pressa. “No muro eu quis trazer o Pantanal. A gente queria colocar isso lá fora para o povo ver. Era um sonho que se realizou. Demorou tanto porque a gente trabalha, foi uma coisa sem pressa. As onças entraram no muro por causa do Pantanal".

Ali tem, além do mamífero, uma coruja gigante, um pé de espada-de-são-jorge e outra arara vermelha.

Após 8 anos, Marcos conseguiu ter a casa mais colorida do bairro
Marcos e Grazi transformaram casa em um pedaço do Pantanal (Foto: Juliano Almeida)

Para Grazi, a pintura do muro também faz parte da história da própria comunidade. Ela conta que, quando chegou ao Jardim Panorama, ainda adolescente, o cenário era outro. Muitos moradores viviam em barracos, e o sonho de ter paredes para pintar se misturava ao sonho de ter uma casa melhor.

“Todo mundo morava em barraco. O sonho era fazer as paredes. Meus vizinhos foram meus maiores incentivadores para aprender a pintar. Eu criei três meninas sozinha, então eles falavam que eu tinha que viver de arte. Eu comprava um pouco de tinta e aprendia. Sempre quando precisava de tinta, eles me ajudavam. Fomos melhorando, o pessoal saindo do barraco, cada um construindo sua casa. Isso foi há uns 15 anos”, relata Grazi.

A artista lembra que a casa de Marcos também foi ponto de convivência. Crianças que viviam na rua se aproximavam para ver os desenhos, comer alguma coisa e participar, do jeito delas, da construção daquele espaço.

Enquanto Grazi pintava, vizinhos ajudavam como podiam. Uns levavam tinta, outros comida. Pequenos gestos, desses que não dão manchete sozinhos, mas sustentam uma comunidade inteira. "Eles vinham aqui, minhas filhas também. As crianças sentavam perto e ficavam vendo eu fazer desenho. Uma vizinha trazia pão do restaurante que ela trabalhava”, conta.

O primeiro desenho feito por Grazi na casa foi na parte interna, perto da cozinha. A partir dele, a ideia cresceu. O que começou com uma ave virou uma sequência de pinturas que hoje ocupa paredes, varanda e muro.

"Ele ama passarinho e tinha poucos na época. Fomos fazendo. Demorou uns oito anos para fazer tudo. Quando comecei, eu já trabalhava com pintura havia alguns anos. Eu comecei criança a mexer com isso. Vim morar para cá adolescente. Fazia letreiro sempre onde morava, mas viver de arte era e ainda é muito difícil”, afirma.

Grazi não fez curso nem faculdade de artes. Aprendeu na prática, observando, tentando e errando. Ela lembra que uma professora percebeu seu talento quando ela tinha apenas 7 anos. Desde então, nunca parou de desenhar. Hoje, além dos trabalhos artísticos, também atua como pintora residencial.

“Como morei ao lado de dois pintores, um foi ajudando o outro. Não fiz curso nem faculdade. Eu nunca parei de desenhar. Meu sonho era desenhar em parede, eu não gostava muito de tela".

Confira a galeria de imagens:

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