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Campo Grande, Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018

19/04/2018 07:10

No Centro, tempo fez casa de mãe e filha parecer construção de pedras no sertão

Chão vermelho de cera, rachaduras que parecem mapas e móveis de madeira maciça dividem espaço onde dona Elza diz que vai morrer

Guilherme Henri
Detalhes em cimenta da casa na rua Miguel Couto mais parecem pedra depois de um século (Foto: Guilherme Henri)Detalhes em cimenta da casa na rua Miguel Couto mais parecem pedra depois de um século (Foto: Guilherme Henri)

O tempo transformou os detalhes feitos em cimento parecerem pequenas pedras na fachada da casa da rua Miguel Couto. No grande terreno, sem um muro para esconder, aparece a construção humilde, descascada, no tom avermelhado que remete ao sertão. As paredes carcomidas pelos mais de 100 anos são delimitadas pelo piso vermelho, com móveis de madeira maciça de Elza da Silva Diniz, 85 anos.

Em meio a trecho de aspecto “cinza”, com construções parcialmente demolidas e outras padronizadas pelo comum, a casa e Elza viu a Vila Carvalho mudar durante o século.

A aposentada trabalhou como copeira durante toda a vida e conta que aquelas paredes foram erguidas pelo pai, Salustiano da Arruda e Silva. Prova disso, é que a fachada ainda carrega a marca recém apagada das iniciais “S.L”. Porém, a memória de Elza falha, ao tentar recordar a inscrição que ficava logo abaixo. Nas recordações ela tem a ajuda de Mara da Silva Diniz, 59, filha e companheira.

Elza e a filha Mara entre os pilares da varanda da casa (Foto: Guilherme Henri)Elza e a filha Mara entre os pilares da varanda da casa (Foto: Guilherme Henri)

Logo na entrada, uma varanda arejada sustentada por pilares convida para um tour histórico. No lugar há cadeiras de ferro, que não oferecem conforto algum a quem senta, mas proporcionam a vista para o jardim antes da rua.

Ali, o piso vermelho já dá uma ideia do que nos aguarda. A porta de entrada é tão antiga quanto a chegada da família no lugar, assim como a “janelinha” que um dia serviu para espiar quem ali chamava.

A sala bem limpinha recepciona com jogo de sofá gasto, comprado por Elza na época de seu casamento. As paredes um dia foram amarelas, mas hoje a cor lembra mais um tom ferrugem em meio as rachaduras do tempo.

No cômodo a saudade é das janelas, que eram de madeiras e fechavam por dentro. “Antes do tempo, os cupins deram cabo delas. Foi a única coisa trocada aqui”, diz Elza, sobre as então janelas de ferro colocadas.

A sim como paredes, cor amarela na sala envelheceu (Foto: Guilherme Henri)A sim como paredes, cor amarela na sala envelheceu (Foto: Guilherme Henri)
Móvel de madeira com mais de 100 anos foi herdado por Elza (Foto: Guilherme Henri)Móvel de madeira com mais de 100 anos foi herdado por Elza (Foto: Guilherme Henri)

Um pouco para a direita, outra porta dá visão para os quartos. Neles, o que era para ser azul nas paredes hoje está mais para cinza, com rachaduras que surgem como mapas das ruínas. No lugar, há uma penteadeira da época em que Elza era solteira, que faz jogo com o guarda roupa de madeira maciça, uma relíquia que nada tem de glamour na vida regrada das duas. 

Quem dorme ali é Mara e ao passar pela cama simples de solteiro já é possível ver pelo portal os aposentos da senhorinha. No lugar também só há cama para um e uma peça com mais idade que Elza.

“Tô aqui desde solteira. Casei, enterrei pai e mãe. Tive e criei três filhos. Enterrei marido e um deles. Depois vieram os netos e pelo jeito é onde também vou ser enterrada”, diz Elza sobre a casa.

Ao voltar pela mesma porta que dá dos quartos para a sala, logo adiante vem a cozinha. O verde das paredes não só perdeu a intensidade para o tempo, mas como também para a fuligem do fogão de lenha que um dia ali ficou. Hoje, sem a velharia, o cômodo só abriga modesta pia, mesa e um armário de lata.

Mara convidando para conhecer o quarto e o da mãe (Foto: Guilherme Henri)Mara convidando para conhecer o quarto e o da mãe (Foto: Guilherme Henri)

Balde, pano e rodo no chão mostram o porquê embora o tempo a casa é tão limpa. Elza e a filha estão vestidas para a faxina da manhã. Depois da cozinha, além do banheiro está a área do fundo, onde os pisos escondem o que um dia as deu água limpa. “Aqui ficava um poço. Naquela época não tinha água encanada né”, conta a dona do patrimônio centenário.

O tanque de concreto volta a denunciar a idade do lugar. Mas, a visita foi interrompida pelo som do jardineiro que aparava a grama e cuidava do pé de jabuticaba do lugar. “Agora ele vai dá jabuticaba que só”, avisa Elza, sem esconder a ansiedade nos olhos.

A volta pela casa fica curta, já que não há mais o que ver. Sem delongas, na despedida Elza enfatiza “Aqui é bom. Aqui é meu”.




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