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Artes

Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital

Isadora Bacha transforma antigas estruturas de correio em cenários que resgatam afetos, cultura e identidade

Por Amanda Ferreira | 24/09/2026 08:32
Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital
Antigas caixas de correspondência deram origem ao projeto “O Centro Dentro de Nós”, que transforma compartimentos em cenários de memória (Foto: Arquivo Pessoal)

O que cabe dentro de uma caixinha de correio? Para a professora e pesquisadora Isadora Bacha, cabe uma cidade inteira. Memórias, afetos, despedidas e histórias de Campo Grande ganharam forma no projeto “O Centro Dentro de Nós”, criado a partir de antigas caixas de correspondência de um prédio onde ela nasceu e que voltaram a cruzar seu caminho anos depois.

RESUMO

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O projeto "O Centro Dentro de Nós", criado pela professora Isadora Bacha, transforma antigas caixas de correspondência em cenários de memória sobre Campo Grande. Com 25 miniaturas temáticas, a iniciativa explora identidade, patrimônio e cultura de Mato Grosso do Sul. O projeto pode ser visto na Casa Quintal Manoel de Barros e nos dias 24 e 25 no evento Mais Cultura, na UFMS. Moradores podem contribuir com fotos e histórias pelo perfil @ocentrodentrodenos.

A ideia do projeto nasceu das memórias afetivas da infância, especialmente da casa da avó, onde portas e corredores pareciam abrir caminhos para lugares mágicos. A arquitetura da década de 1950, com varandas amplas, cômodos integrados e os chamados “espelhos infinitos”, despertava a imaginação e ficou ligada às lembranças da avó, que já estava doente naquele período.

A ideia começou quando Isadora retornou para morar no mesmo edifício em que nasceu na Capital após se mudar para Brasília. Ao revisitar fotos da infância e reconhecer pequenos detalhes do lugar, como o banheiro onde aparecia nas imagens de aniversário de um ano, ela se viu diante de uma sensação curiosa: a de reencontrar uma memória que, ao mesmo tempo, parecia nunca ter sido vivida. Foi nesse clima de nostalgia que encontrou as antigas caixas de correio que seriam descartadas.

Ao encontrar uma antiga porta de guarda-roupa, veio a inspiração para criar o “Centro Dentro de Nós”, projeto que brinca com a ideia de abrir uma porta para novas possibilidades e também com o significado de “centro”: o centro de Campo Grande, de Mato Grosso do Sul e do Brasil.

Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital
Monóculos e pequenos cenários fazem parte da experiência criada por Isadora para aproximar o público de lembranças afetivas (Foto: Arquivo Pessoal)

 A partir dessa fantasia, cada compartimento passou a ser visto como uma possibilidade de criar novos mundos, reunindo objetos, texturas e referências ligadas à história de Campo Grande e às memórias pessoais da artista.

Criado em 2023, o projeto transforma as caixas de correspondência em pequenos cenários de lembranças. A proposta brinca com o significado da palavra “centro”: o centro da cidade, Campo Grande como parte central de Mato Grosso do Sul, o Estado no Centro-Oeste e também o centro de cada pessoa, onde ficam guardadas histórias, identidades e sentimentos de pertencimento.

Entre 2023 e 2025, a ideia de “O Centro Dentro de Nós” ficou em processo de amadurecimento. A antiga caixa de correio, pesada e difícil de movimentar, precisou de tempo até ganhar estrutura para sair do campo das ideias e começar a receber os cenários imaginados por Isadora Bacha. O projeto cresceu junto com suas pesquisas e também passou a dialogar com sua atuação acadêmica.

“Só em 2025 eu consegui colocar rodinhas nele e levar para um lugar onde comecei a montar os cenários. Enquanto ele ficou de 2023 a 2025, ficou germinando na minha cabeça. Como eu não conseguia concretizar as ideias por causa do tamanho e da dificuldade de manusear, comecei a pensar nas caixinhas, nos cenários e em toda a instalação antes mesmo dela estar pronta”, conta.

A criação também atravessou a sala de aula e se transformou em objeto de estudo. Isadora levou elementos do projeto para atividades com alunos, explorando a relação entre arte, pesquisa e ensino. Entre as referências, surgiram os monóculos, objetos usados antigamente para guardar e visualizar fotografias, que remetem às memórias familiares da artista.

Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital
Isadora Bacha durante exposição na Casa Manoel de Barros (Foto: Arquivo Pessoal)

As miudezas de Manoel  - Em 2025, Isadora conseguiu criar 25 cenários para as caixas e um deles foi dedicado ao poeta Manoel de Barros, pela relação com as pequenas memórias e os detalhes do cotidiano. Para ela, a obra também nasce de uma inquietação sobre a preservação da história de Campo Grande e o risco de esquecer lugares, pessoas e experiências que ajudaram a construir a identidade da cidade.

“Manoel de Barros conversa muito com o projeto porque ele fala dessas pequenas coisas, das miudezas. Quando comecei a pensar nisso, percebi o quanto existe uma falta de memória da cidade. Muitas histórias da vida cultural de Campo Grande, dos cinemas de rua, de lugares importantes, acabam se perdendo. As pessoas nem sempre conhecem ou lembram dessas histórias, e o projeto também passa por esse resgate”, afirma.

Como a instalação original ainda não estava pronta, ela criou pequenas versões dos cenários em caixas de fósforo para expor na Casa do Manoel de Barros, mantendo a proposta de abrir uma porta e encontrar uma nova memória.

“Foi uma loucura fazer em duas semanas, mas quando conheci a Casa Manoel de Barros comecei a ter várias ideias. O projeto começou com uma caixa de correio, então achei muito bonito trazer a ideia das cartas, só que em vez de cartas escritas seriam cartas visuais, com desenhos e memórias”, explica.

Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital
Protótipo da Varanda Brasileira reúne elementos afetivos, como cobogó, piso de caquinho, filtro de barro e cadeira de balanço (Foto: Arquivo Pessoal)

Ampliação do projeto - O projeto ganhou novos formatos e deixou de ser apenas uma instalação artística para se transformar em uma experiência interativa. A exposição reúne cenários, monóculos, espelhos, postais e outros elementos que convidam o público a abrir portas e descobrir diferentes camadas de memória, identidade e pertencimento.

“A ideia é que a pessoa comece a experiência na exposição e depois continue por meio de um aplicativo. Cada caixa tem uma narrativa e circuitos associados, que podem ser materiais, levando a lugares da cidade, ou imateriais, explorando elementos e histórias que fazem parte da nossa cultura”, explica Isadora.

O projeto prevê 6 caixas temáticas, cada uma dedicada a um pedaço da identidade e da memória de Mato Grosso do Sul. A primeira, Varanda Brasileira, já ganhou um protótipo com elementos como piso de caquinho, cobogó, filtro de barro e cadeira de balanço.

A caixa Patrimônio Histórico será dedicada a lugares e construções que ajudam a contar a história local, enquanto a caixa Pantanal levará para as miniaturas referências da paisagem e da cultura pantaneira.

“Na Varanda Brasileira, a gente explora esses elementos que fazem parte da nossa memória, como o piso de caquinho, o cobogó e o filtro de barro. A ideia é que cada caixa tenha uma narrativa própria e que a pessoa possa continuar essa experiência por meio dos circuitos”, explica Isadora.

Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital
Caixas de fósforo viraram pequenos mundos na adaptação inspirada na obra e nas “miudezas” de Manoel de Barros (Foto: Arquivo Pessoal)

Outra caixa será dedicada aos Povos Indígenas e ganha forma em parceria com indígenas terena, que também participarão da elaboração da narrativa. Entre os elementos previstos estão cocar, abanico e peças feitas com folha de buriti, todos em miniatura. Já Rua e Noite pretende mergulhar na vida cultural da cidade, passando pela música, bares de rua e festivais.

A sexta caixa, Feiras e Sabores, terá como foco a gastronomia e a economia criativa, duas características presentes no cotidiano campo-grandense. “A ideia é que essas caixas tenham a ver com o Brasil, com Mato Grosso do Sul e com a gente. Cada uma vai se desdobrar em circuitos e também em produtos que a pessoa possa levar para casa, como um pedacinho da exposição”, conta.

O projeto abriu uma chamada para reunir fotografias antigas, histórias, casos curiosos e lembranças de moradores, tentando responder a uma pergunta aparentemente simples: o que faz o Centro ser o Centro? O material poderá alimentar os circuitos e registrar também as histórias de quem vive e ocupa esses espaços.

“A ideia não é que o projeto tenha um fim, ele é um começo. A arte vai despertando pesquisas, criando novos compartilhamentos, contatos e outros desdobramentos. A gente quer ouvir as pessoas, conhecer as vivências e entender o que cada uma reconhece como o centro dentro dela”, explica Isadora. Para ela, isso inclui personagens cotidianos, como o pipoqueiro da Praça Ary Coelho, e outras pessoas cujas histórias ajudam a formar a memória da cidade.

Em pequenas caixas, projeto guarda memórias e histórias da Capital
Projeto convida moradores a compartilhar fotografias, histórias e lembranças para construir novas narrativas sobre Campo Grande (Foto: Arquivo Pessoal)

Como acompanhar? - O projeto segue disponível na Casa Quintal Manoel de Barros, onde foi integrado à exposição permanente do espaço, batizada de “O Centro Dentro de Nós: Entre Miudezas”. O perfil do Instagram também tem as demais informações a respeito do projeto @ocentrodentrodenos.

Nos dias 24 e 25, o público também poderá conhecer “O Centro Dentro de Nós: Protótipos”, durante o Mais Cultura, na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A exposição terá como destaque o lançamento da caixa Varanda Brasileira, além do protótipo do Pantanal ainda em construção, miniaturas e monóculos. A programação será integrada às atividades do evento, que também terá shows e economia criativa.

Confira a galeria de imagens:

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