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Artes

Longe do tabu, artista usa sangue menstrual para fazer obras de arte

A artista visual Marília Sinãni retratou com sangue até as queimada no Pantanal

Por Thailla Torres | 24/10/2020 08:55
Uma das obras feitas por Marília. (Foto: Arquivo Pessoal)
Uma das obras feitas por Marília. (Foto: Arquivo Pessoal)

Nos últimos meses, a artista visual Marília Cláudia Favreto Sinãni usou seu fluxo menstrual para criar obras únicas. Ela chegou a um resultado surpreendente que envolve arte, curiosidade e um processo de autoconhecimento.

“Bom, toda a humanidade está passando por este processo. Passar a quarentena morando sozinha é não ter mais nada para olhar além de si mesma. Deparei-me comigo ali, tudo o que eu fui, sou e hei de ser. Nisso, eu comecei a estudar sobre o ciclo menstrual com uma consultora em saúde e educação sexual chamada Telma Pizzolio que me ensinou tudo sobre este processo de autoconhecimento a partir do ciclo menstrual para que estes trabalhos existissem”, conta a artista visual.

Os ensinamentos, segundo Marília, contribuíram para que se conhecesse e desejou que outras pessoas que menstruam sentissem o mesmo. “Por ser artista, pensei em levar esta descoberta para o mundo por meio da arte. Então, como eu uso coletor menstrual, coletei o meu sangue e resolvi experimentá-lo como material artístico. E deu muito certo”.

Usando o próprio sangue ela também retratou as queimadas do Pantanal.
Usando o próprio sangue ela também retratou as queimadas do Pantanal.

A pigmentação que proporciona várias possibilidades estéticas vai além. “Você se conecta consigo mesma. Há todo um preparo emocional e mental para lidar com o sangue menstrual como material artístico, mas é mágico. O nosso sangue não tem cheiro, é só sangue”, diz.

Desde pequena, Marília diz que a mãe sempre dizia que a avó da Bolívia tratava o sangue menstrual de uma forma bonita e natural. “E me ensinou que eu não devia ter nojo do meu sangue, que ele era limpo e sempre me incentivou a usar panos ou tecidos ao invés de utilizar o absorvente descartável. Porém, entrei no auge da adolescência e fui usar o absorvente descartável. Comecei a ter uma relação diferente com o meu sangue”.

As obras também retratam as mulheres que habitam Marília.
As obras também retratam as mulheres que habitam Marília.

Hoje Marília tenta ressignificar a menstruação. “Em várias comunidades a menstruação é vista com outros olhos, existem até rituais para celebrá-la. Tive medo de postar meus trabalhos na internet porque poderia muito bem sofrer preconceito de pessoas que ainda não entendem sobre, mas se eu não o fizesse, quem ia?”, questionou.

Sobre as obras - Essa série é plural, considerada pela artista um resgate. “Um resgate com a ancestralidade e com o sagrado feminino. É um convite para que as pessoas que menstruam olhem para si mesmas e pensem sobre os seus corpos e compreendam o seu ciclo menstrual”.

As obras retratam as mulheres que habitam Marília. “Sou uma menina, uma mulher, uma anciã, todas ao mesmo tempo. Quando a gente aceita isso, a vida é outra coisa. Retratei também as minhas impressões do mundo. Fiz uma pintura com o sangue menstrual sobre as queimadas que o Pantanal estava sofrendo, foi muito doloroso o processo criativo desta produção porque nós seres humanos fazemos parte da natureza e estamos acabando com ela por puro egoísmo. Eu vi o meu sangue, que é sinônimo de vida, de fertilidade, sendo material artístico para representar a morte”.

Agora, Marília prevê uma nova série. “Estou cheia de ideias. E vou dar a cara para bater porque as pessoas ainda enxergam isso como um tabu, algo nojento, mas alguém precisa gritar para o mundo que não é assim”, finaliza.

"E vou dar a cara para bater porque as pessoas ainda enxergam isso como um tabu", diz a artista.
"E vou dar a cara para bater porque as pessoas ainda enxergam isso como um tabu", diz a artista.

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