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Campo Grande, Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019

15/02/2019 08:05

Marjorie se refez entre traços de tinta e pontos de costura ao perder a irmã

Há 5 anos Marcela se foi, mas continua presente nos desenhos e bonecas feitas pela irmã mais velha, desde de detalhes até os cabelos vermelhos que são maioria pelo ateliê.

Kimberly Teodoro
A primeira boneca feita por Marjorie depois de perder Marcela foi inspirada na irmã (Foto: Kísie Ainoã)A primeira boneca feita por Marjorie depois de perder Marcela foi inspirada na irmã (Foto: Kísie Ainoã)

Misturando pinceladas de tinta em tons suaves, patchwork, pontos de bordado e crochê, a artesã Marjorie Comparim, de 31 anos, encontrou uma maneira original de traduzir a própria identidade em bonecas, ursinhos e acessórios para o dia-a-dia como capinhas de óculos e necessaires únicas. Na delicadeza de cada ponto, estão presentes memórias da infância, amor e saudade, não apenas de um tempo que não volta mais, mas também da avó e da irmã mais nova, que se foram, mas continuam vivas em cada peça feita por ela.

Entre a composição das peças, o que mais chama atenção no trabalho de Marjorie é a atenção aos detalhes e o acabamento impecável, nas mãos dela, qualquer pedaço de pano vira arte. Principalmente as bonecas, grande parte do trabalho da artesã que costura sentimentos com pincel e traço fino. Os rostos moldados em tecido transbordam expressões, trazendo um pouco mais de mágica ao cômodo do apartamento transformado em ateliê.

Marjorie é formada em Design de Moda e Publicidade, mas a escolha da graduação pouco teve relação com os trabalhos manuais, que ela conta serem parte da vida dela desde que se lembra por gente, “Uma das minhas primeiras lembranças da infância é da casa da minha avó, ela sempre pintou, bordou, fez crochê e costurou muito bem. Quando íamos, eu e a minha irmã, passar um tempo com ela, a nossa brincadeira era desenhar e pintar, esses momentos são a minha inspiração até hoje”, lembra.

O desenho de Marcela tem traços diferentes dos de Marjorie, mas o talento da família é inegável (Foto: Kísie Ainoã)O desenho de Marcela tem traços diferentes dos de Marjorie, mas o talento da família é inegável (Foto: Kísie Ainoã)
Em volta das máquinas de costura, as peças favoritas de Marjorie preenchem o espaço (Foto: Kísie Ainoã)Em volta das máquinas de costura, as peças favoritas de Marjorie preenchem o espaço (Foto: Kísie Ainoã)

A primeira impressão de Marjorie é a delicadeza frágil das bonecas que cria, com cabelos vermelhos, traços finos e gentis, que são maioria entre as peças expostas no ateliê. Quem observa o trabalho da artista, pode deixar passar despercebida a força que essa mesma delicadeza esconde.

Na parede, um bastidor ilustrado com aquarela em tecido trás o rosto de uma moça, com os mesmos cabelos ruivos e expressões delicadas de Marjorie, por instinto o que vem a mente é a possibilidade de um auto retrato da artista, que logo no começo já deixou claro ser “meio aficionada por personagens ruivas”. Uma afirmação difícil de negar, já que a maioria das bonecas que preenche o espaço tem a mesma tonalidade de cabelo, uma maneira silenciosa de fazer da memória da irmã presente.

Adeus - Em tom leve e cheio de saudade, Marjorie fala sobre Marcela, a irmã mais nova que durante a maior parte de vida foi companheira e cúmplice, principalmente, durante o processo de criação. Arte está no sangue das mulheres da família. “A paixão pelos cabelos vermelhos começou com a Marcela, ela pintou o cabelo dela e a cor combinava tanto com ela, tinha vida e personalidade, que depois eu também quis pintar o meu. A primeira vez que pintei, foi ela quem me ajudou”, explica.

Marcela foi uma alma sensível ao mundo, a família não fala sobre a tragédia que tirou a vida da jovem aos 19 anos em 2014, mas guarda os desenhos e textos deixados por ela. Com um estilo próprio, diferente do de Marjorie e ao mesmo tempo tão próximo, as obras feitas por ela são expressão pura de talento e emoção, com uma técnica quase impecável para alguém tão nova.

Na cesta, linhas ainda são as mesmas usadas pela avó para bordar (Foto: Kísie Ainoã)Na cesta, linhas ainda são as mesmas usadas pela avó para bordar (Foto: Kísie Ainoã)

“Nós conversávamos muito sobre o que estávamos criando, ela sempre incentivou o meu trabalho e aprendemos muita coisa juntas. Quando decidi abrir o ateliê e criar o Instagram para postar os meus trabalhos, foi pensando nela, ela tinha essa ideia de começarmos a vender os nossos trabalhos”, conta Marjorie, que depois de perder a irmã, passou 3 anos longe das agulhas e dos pincéis, em um período em que a tristeza e a saudade bloquearam qualquer inspiração e vontade de criar.

A primeira boneca feita por Marjorie, ainda durante o luto tem cabelos ruivos e os gostos da irmã, em uma retomada dos trabalhos manuais que veio aos poucos e da mesma maneira como ela junta os pedaços de tecido pacientemente, ela passou a transformar a dor em arte, a arte em saudade e agora vê o artesanato como uma maneira de ficar mais próxima da irmã e da avó, “Quando estou criando, sinto que as duas estão comigo. Era algo que a Marcela amava e pensar nisso me ajudou a voltar a costurar e pintar, não foi um processo rápido, mas hoje ela e a minha avó são a minha maior fonte de inspiração”, revela.

Atualmente, quem ajuda Marjorie com a produção das peças é a mãe, Mariluce, que acompanhou a filha no curso de costura e hoje se descreve como “assistente”, mesmo que faça parte de todo o processo de criação. “Meu trabalho é mais funcional, a Marjorie planeja tudo, desenha e projeta as bonecas. Eu faço mais o trabalho funcional, corto tecidos maiores, coloco o enchimento e cuido das partes mais pesadas, que as limitações dela não permitem, mas a estrela é ela”, explica.

É possível acompanhar o trabalho de Marjorie pelo instagram @amaratelie, onde ela posta as novidades das coleções de bonecas e acessórios feitos por ela. O preço de cada peça varia entre R$ 120 e R$ 400, dependendo do tamanho e do material utilizado.

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