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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

30/04/2018 06:10

Acostumada a levantar o próprio barraco, Maria construiu ponto de ônibus sozinha

Ela já viveu em invasão do Noroeste, hoje está no Vivendas do Parque e, apesar da pobreza, comprou material e tinta para garantir um ponto digno ao bairro

Danielle Valentim
Dona Maria tem a engenharia na veia. Autoditada na construção, a senhoria já construiu duas moradias de madeira. (Foto: Paulo Francis)Dona Maria tem a engenharia na veia. Autoditada na construção, a senhoria já construiu duas moradias de madeira. (Foto: Paulo Francis)

Como anda sua disposição? A de dona Maria de Lourdes vai muito bem aos 78 anos. Com uma força de causar inveja a muito “novinho” por aí, ela acaba de construir sozinha a cobertura de um ponto de ônibus do bairro Vivendas Parque. A obra durou cerca de uma semana e, neste domingo (29), ela ainda providenciou a pintura do banco, para que a chuva não danifique a madeira. Com a “engenharia na veia”, dona Maria diz que não tem segredo para a vitalidade, mas que sua sabedoria vem da criação que teve na fazenda.

O valor para comprar quatro caibros, pregos e algumas telhas saiu do próprio bolso. E não pense que Dona Maria tem dinheiro no banco ou anda sobrando em casa o suficiente para ela pensar no bem do bairro. A vida tem sido bem dura, levantando os próprios barracos pela periferia da cidade.

No domingo ela pintou o banco, para a madeira resistir por mais tempo. (Foto: Paulo Francis)No domingo ela pintou o banco, para a madeira resistir por mais tempo. (Foto: Paulo Francis)

Ela conta que, quando morou em uma área invadida no Noroeste, restos de construção eram mais fáceis de encontrar, o problema é que para buscar ficava mais caro que comprar em um depósito da região.

Mas como nada é moleza na vida de Maria, a primeira remessa de material foi furtada. Sem desanimar, ela comprou tudo novamente e iniciou os trabalhos imediatamente. “Eles descarregaram na esquina para ficar mais perto do ponto, mas alguém levou tudo. Tive comprar de novo, mas aí já comecei a fazer”.

Antes, mal tinha um toco para sinalizar que ali havia um ponto de ônibus. Muito caprichosa, ela carpiu ao redor, porque o terreno estava tomado pelo mato, antes de iniciar a obra. Primeiro colocou a estrutura em pé e subiu a primeira telha. “Depois que eu coloquei a primeira telha, vi que eu dava conta de finalizar e pronto, terminei”, revela.

Muito caprichosa, ela ainda carpiu ao redor, que estava tomado pelo mato. (Foto: Paulo Francis)Muito caprichosa, ela ainda carpiu ao redor, que estava tomado pelo mato. (Foto: Paulo Francis)
Ação chamou a atenção de Luciana Coelho, de 28 anos. (Foto: Paulo Francis)Ação chamou a atenção de Luciana Coelho, de 28 anos. (Foto: Paulo Francis)

A ação chamou a atenção de Luciana Coelho, de 28 anos. A moradora do bairro passou pelo ponto nos primeiros dias e viu que dona Maria estava aprontando algo. "Eu passava em frente e me perguntava, o que será que ela está aprontando? Eu queria que todos vissem a garra dela em fazer sozinha essa cobertura", pontua.

A casa de dona Maria fica próxima ao ponto de ônibus, especificamente dentro da comunidade Vivendas. Ela hoje mora em outra área invadida. Há seis meses está ali, convivendo com a insegurança do despejo. Mas mesmo assim, é dona de uma das estruturas mais coloridas do local. A mesa da varanda e todos os vasinhos de planta levam a cor rosa.

Construção de novo barraco até teve ajuda, mas foi toda sob orientação da idosa. (Foto: Paulo Francis)Construção de novo barraco até teve ajuda, mas foi toda sob orientação da idosa. (Foto: Paulo Francis)
Mesa da varanda e todos os vasinhos de planta levam a cor rosa. (Foto: Paulo Francis)Mesa da varanda e todos os vasinhos de planta levam a cor rosa. (Foto: Paulo Francis)

Depois de construir sozinha a morada no Noroeste, um dos filhos tentou ajudá-la na construção do novo barraco, porém, segundo Maria, o auxílio não resolveu muito. “Ele até veio, mas tive que orientar em tudo, meus filhos não entendem de amarrações. Eu entendo e sei fazer porque fui criada na fazenda tendo que construir na raça”, diz.

Neste domingo, foi o dia de pintar a estrutura do ponto. Segundo Maria, a madeira fica mais protegida e não poderia deixar a chuva estragar seu trabalho. Com muita tranquilidade, a senhorinha levou um rolo e um balde de tinta para finalizar. “Agora pode chover, está tudo pintadinho. Tomara que vândalos não estraguem, fiz com muito amor para todos nós usarmos”.

Sonho - A vontade de trabalhar não para por aí. Dona Maria revela que seu sonho é ter um carrinho para vender cachorro-quente ou doces. “Não somos autorizados a vender na comunidade, então queria um carrinho que eu pudesse vender algo pelo bairro”, explica.

Se alguém se interessou em ajudar dona Maria de Lourdes é só ir até a comunidade, que todos a conhecem.




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