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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

18/06/2017 07:05

Antes de morrer, mãe ensinou o principal sobre a vida para filha de 9 anos

Thailla Torres
Viviane viu a mãe partir aos 9 anos de idade, após uma conversa intensa sobre a vida. Viviane viu a mãe partir aos 9 anos de idade, após uma conversa intensa sobre a vida.

Dia 16 de outubro de 1988, Viviane, entrou pela porta do hospital ao saber que o coração da mãe havia parado. Os motivos que a levaram tão cedo? Essa foi um pergunta que ela fez a si mesma durante décadas. Antes da morte, a mãe chamou Viviane até o quarto, na casa onde moravam, para uma conversa franca. As palavras nunca mais saíram da cabeça da filha, que desde os 9 anos, foram decisivas para formar a mulher forte que é hoje.

“Ela queria me falar sobre a vida e tudo que iria mudar naquele momento. Era 12 de outubro, Dia das Crianças e tinha descido minha menstruação pela primeira vez”, descreve a professora de inglês, Viviane Albuquerque, de 40 anos.

À época, Regina Célia Santos de Albuquerque, estava com 40 anos e dividia com filha as angústias e alegrias dentro de casa. “Meu pai passava duas ou três meses fora de casa viajando por conta do trabalho. Eramos companheiras em tudo. Ela me contava histórias da minha avó e, nesse dia específico, ela quis falar sobre o que poderia acontecer comigo no mundo dali pra frente”, conta.

Uma das poucas fotografias da mãe. Uma das poucas fotografias da mãe.

Com quem soubesse o destino difícil pela frente, Regina, abriu os olhos da filha para o mundo. "Minha mãe era uma feminista e me mostrou o valor em ser uma mulher. Ela me contou que algumas pessoas poderiam na vida tentar tirar o meu lugar e a voz por ser assim. Mas nas palavras dela, eu não poderia nunca deixar isso acontecer", lembra.

Essa foi a primeira e última conversa mais intensa que Viviane teve com a mãe. As palavras ficaram marcadas para sempre, até que, uma forte dor em Regina trouxe o silêncio por anos.

"Meu pai havia chegado na cidade quatro dias depois. Foram até um bar tomar caldo de peixe com os amigos, que eles adoravam. Mas eu não fui junto e naquele dia ela não voltou mais para casa".

Viviane só encontrou a mãe dois dias depois no CTI (Centro de Terapia Intensiva). Ela havia sofrido um aneurisma cerebral e nem os médicos deram esperanças a família. "Ela passou mal no bar, olhou para meu pai, disse que estava com uma pontada na cabeça e desmaiou na mesa", descreve.

Na memória fotográfica, as última imagem é da mãe no hospital toda entubada. Mas a voz que ecoa na cabeça de Viviane ainda é de Regina cantarolando pela casa e das palavras de força que ela fez questão de dizer a filha com apenas 9 anos de idade. "Ela conseguiu me ensinar tudo que eu poderia ser a vida toda, em apenas uma conversa, por isso é impossível esquecer cada palavra dela".

No entanto, compreender os motivos que fez a mãe partir tão de repente, foi um processo de anos. Viviane sempre foi filha única, o silêncio entre ela e o pai foi ainda mais forte desde que Regina se foi, mesmo quando ele fez questão de cuidar da filha. "Eu tenho muito orgulho disso, ele não deixou que eu fosse morar com ninguém. Apesar de estar sempre viajando, foi meu pai quem me criou, mas foi uma relação difícil", admite.

A falta de maturidade e a rebeldia foram um dos impasses. "Eu era decidida, para frente e queria viver minha vida. Na cabeça do meu pai eu queria ser revolucionária demais para a minha idade", conta.

Feliz ao lado da esposa, Viviane encontrou sentido nas palavras da mãe. (Foto: André Bittar)Feliz ao lado da esposa, Viviane encontrou sentido nas palavras da mãe. (Foto: André Bittar)

Aos 21 anos, Viviane ficou grávida e descobriu um novo amor com maternidade. A chegada da filha, Maria Clara, deu sentido à vida e aos sonhos da mãe que decidiu se abrir para o mundo. "Sou lésbica e casada com a minha esposa há sete anos. Isso também sempre foi um problema na cabeça do meu pai. Mas quando a neta dele nasceu, até isso, fez ele entender que eu não deixaria de ser a filha que eu era".

Mais uma vez Viviane lembrou das palavras da mãe, que fizeram sentido para entender a sexualidade. "Ela falou: não se preocupe quem você amar, apenas ame sempre", conta.

Até os 21 anos, ficou um vazio que Regina havia deixado, no meio de palavras ditas e pouco compreendidas. "Parece que a chegada da minha filha fez eu ver o que realmente minha mãe tinha me deixado. Ela me deu forças para me ver no espelho como mulher e só depois de ser mãe é que eu consegui encontrar sentido para morte dela", lembra. 

Mas porque Deus a levou tão cedo? "Agora eu sei que foi no momento certo. Ela era boa demais para ter ido embora na hora errada. É como se ela tivesse cumprido uma missão comigo e agora eu tenho essa mesma missão com a minha filha. E levo tudo que ela conseguiu me ensinar durante 9 anos". 

Feliz ao lado da esposa, Viviane não lamenta mais a morte e luta somente pelo amor na família. "Tenho minha filha e duas enteadas que já são adolescentes.  Depois que a gente vira mãe, não há palavra no dicionário Aurélio que explique esse lance de amor pela vida. A gente só cresce e entende pro resto da vida um conselho de mãe", declara a professora.

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