Advogado com câncer decide fazer o próprio velório em vida em Campo Grande
Tiago organiza despedida em grande estilo, com direito a cerveja, bandas e amigos

O Tiago Pittan é advogado, tem câncer e talvez pouco tempo de vida. Talvez. Porque diagnósticos médicos nunca foram regra absoluta na vida de ninguém.
Mas, diante do avanço da doença nos últimos meses, ele decidiu fazer algo que pouca gente teria coragem: organizar o próprio velório em vida. Não, não é aniversário. É velório mesmo.
Alguns amigos até acharam que ele estava preparando alguma festa de aniversário com humor ácido, uma brincadeira típica do jeito leve e debochado do Tiago. Mas não é.
Ele não quer ser aquele morto repentino dentro de um caixão, enquanto as pessoas choram ao redor dizendo que amavam e que vão sentir saudade.
Para ele, se for para falar de saudade, que seja agora. Se for para dizer que ama, que diga agora. Por isso decidiu fazer um velório de verdade, só que em vida. Com cerveja gelada, amigos por perto e música de cinco bandas no palco.
E tem mais um detalhe que ele mesmo faz questão de lembrar: ninguém sabe o dia de amanhã. Nem ele.
Como Tiago vive muito no presente, existe até um combinado entre os amigos: se até lá ele já tiver partido, a festa continua do mesmo jeito.
Porque, no fundo, a ideia nunca foi celebrar a morte. Sempre foi celebrar a vida.
A despedida do “Bom Sujeito”
O convite para o encontro circula nas redes sociais e anuncia o evento para 30 de maio de 2026, na antiga Cervejaria Canalhas, em Campo Grande.
No texto que publicou no Instagram, Tiago foi direto:
Nos últimos meses o câncer tem evoluído, tenho passado por dias difíceis. Por isso, enquanto ainda consigo, quero celebrar a minha vida com vocês. Decidi fazer um Velório em Vida, uma despedida em grande estilo.”
E reforça que não quer uma despedida silenciosa.
“Não quero ser só um corpo dentro de uma caixa fazendo figuração; quero curtir o meu velório com vocês
No convite, ele promete o que chama de uma celebração verdadeira. “Vai ser uma festa linda, alegre! Sem drama, sem tristeza, um momento de celebração.”
A ideia nasceu junto com o diagnóstico. A decisão de fazer o próprio velório veio logo após ele descobrir que o câncer que enfrenta não tem cura.
“Assim que descobri que meu câncer não tinha cura! Pensei ‘opa, se vou morrer tenho que começar a pensar no meu velório!’”, conta.
No começo, diz ele, ninguém levou muito a sério. “No início ninguém me levou a sério, mas com o tempo foram aceitando e entendendo a ideia. A morte é só um detalhe, o que importa mesmo é a vida, e quero celebrar a minha com as pessoas que compartilharam dela.”
O diagnóstico mudou completamente a forma como ele enxerga o tempo e o cotidiano.
“Tudo! Antes a vida era um fato consumado, uma realidade permanente. ‘Estou vivo, e daí?’ Depois do diagnóstico ela se tornou frágil e mais valiosa.”
Hoje, cada dia ganhou outro peso. “Estou vivo, que maravilha! Preciso celebrar isso!” Hoje aproveito mais a companhia das pessoas que amo, tento estar mais presente e deixar claro o quanto são importantes para mim.
E ele resume essa mudança de forma simples. “No final esse diagnóstico só me confirmou o que eu já sabia: não importa onde, quando, quanto, por que ou como, o que importa mesmo é com quem.”
Uma despedida normalmente é associada à tristeza. No caso de Tiago, ela vem acompanhada de música, abraços e cerveja. Mas ele sabe que o adeus também dói.
“É um paradoxo. Quanto mais feliz você fica com a companhia da pessoa, mais triste vai ficar com a despedida.”
Ainda assim, ele acredita que esse sentimento muda com o tempo. “Essa tristeza é efêmera, passageira. Logo ela se transforma em saudade, em boas lembranças, daquelas que nos colocam um sorriso involuntário no rosto ao lembrar.”
“Eu tenho câncer, mas o câncer não me tem”
Entre as frases que ele costuma repetir desde o diagnóstico, uma virou espécie de lema pessoal. “Eu tenho câncer, mas o câncer não me tem.”
Para Tiago, essa frase representa autonomia. “Eu cunhei essa frase logo após o meu diagnóstico, ela significa muito pra mim. Significa que eu continuo no controle da minha vida, que não vou deixar o câncer me abater ou me impedir de viver e ser feliz.”
Mesmo com limitações, ele diz que segue tentando viver do jeito que sempre viveu. “Tenho algumas limitações, mas vou me adaptando sem perder o bom humor.”
O velório em vida ganhou até um subtítulo: “A despedida do Bom Sujeito”. O apelido surgiu exatamente da forma como Tiago encara a vida. “Sim, sempre tentei levar a vida assim, com bom humor. Daí vem o apelido de ‘Bom Sujeito’, alguém que está sempre de bem com a vida.”
E ele garante que o diagnóstico não mudou isso.
“Vou morrer, e daí? Todo mundo vai. Mas ainda estou aqui e, enquanto estiver, vou me divertir! Moribundo sim, triste e mal-humorado nunca.”
Se antes ele fazia planos para anos à frente, hoje a lógica mudou completamente. “Fazia planos pra daqui a 5, 10 anos. Hoje não, foco no presente, quero viver e aproveitar cada dia.”
E, diferente do que muita gente imagina diante de um diagnóstico assim, ele diz que não ficou com palavras guardadas. “Deixo claro sempre que posso o quanto as amo. Sou do abraço, do beijo, do afeto espalhafatoso.”
Para ele, o afeto sempre foi ferramenta de transformação. “Do amor como ferramenta pra mudar o mundo. Se não o mundo inteiro, o meu mundo!”
Se a festa acabar virando memória, Tiago já sabe exatamente como gostaria que fosse lembrada. “Que a vida presta e a morte é só um detalhe. Não quero que lembrem que o Tiago morreu, quero que fique na memória o tanto que ele viveu, se divertiu e foi feliz!”
Quando as pessoas chegarem ao encontro, ele espera apenas uma coisa. “Alegria! Que vejam um cara feliz celebrando a vida, que se divirtam comigo, que se emocionem não pela minha morte, mas pela vida que compartilhamos.”
E se alguém contar essa história daqui a muitos anos, ele também já imagina o cenário.
“Em uma mesa de bar, tomando cerveja e dando risada! Uma memória afetiva boa, deliciosa de se lembrar e dividir com os amigos”, finaliza.
Em abril de 2025, o Lado B contou a história de Tiago após diagnóstico de câncer e como decidiu encarar a vida e a doença, acesse a reportagem completa aqui!
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