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Campo Grande, Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019

16/08/2019 06:40

Aos 30 anos, transformação foi das grandes para a liberdade de Nicolas

Thailla Torres
À esquerda, quando ainda vivia como Nayara, à direita vivendo como Nicolas. (Foto: Arquivo Pessoal)À esquerda, quando ainda vivia como Nayara, à direita vivendo como Nicolas. (Foto: Arquivo Pessoal)

No registro civil ainda consta Nayara, nome que em breve será substituído por Nicolas. Mas enquanto os documentos não saem, ele não se importa de falar o nome feminino, muito menos da vida que há pouco tempo resolveu transformar.

Personal trainer e também frentista, Nicolas Cristian da Silva, de 30 anos, nasceu “ela” e hoje é um transexual que, diariamente, vence barreiras para ser respeitado como homem. Há sete meses ele iniciou o processo de transição, depois de anos vivendo em Água Clara, a 198 quilômetros de Campo Grande, sendo mais um homem preso no corpo de uma mulher. Como tomou coragem de revelar ao mundo a própria identidade ele conta na série Voz da Experiência.

Personal trainer e frentista, Nicolas hoje é um homem realizado. (Foto: Arquivo Pessoal)Personal trainer e frentista, Nicolas hoje é um homem realizado. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 8 anos me sentia diferente das outras meninas. Eu não gostava do meu corpo, não gostava de roupas femininas, batom, brinco ou sapatos de salto. Muitas vezes minha mãe me arrumava de um jeito para eu ir à escola, mas, chegava à esquina de casa, colocava chinelo, short e camiseta para continuar até a escola. Amava mesmo era brincar com os guris da escola e da vila onde eu morava.

Aos 12 anos comecei a entender as coisas. Observava as amigas da escola olhando os meninos, falando que eram bonitos, do desejo de namorar, casar e dar netos para as famílias. Eu jamais pensava isso.

Eu sentia que algo acontecia comigo porque não achava meninos bonitos e nem tinha o interesse por eles. Na verdade eu admirava o corpo deles porque desejava mesmo ter um corpo atlético, com barba e ser masculina.

Ao mesmo tempo, na confusão causada dentro da cabeça e do coração, eu falava que estava ficando louca, não aceitava eu meu próprio desejo.

Aos 15 anos me relacionei pela primeira vez com outra mulher e percebi que era o que eu gostava, enquanto com os meninos eu era bruta. No entanto, passei a esconder o meu relacionamento com mulheres. Eu ainda não me aceitava e achava que os amigos iriam me apedrejar, especialmente, numa cidade do interior.

Muitas vezes eu escutei meus pais falarem da vontade de verem as filhas casadas e com uma família. Isso me fazia sentir mal, então, eu deitava no colo da minha mãe e chorava. Quando ela perguntava o motivo, eu tinha medo de responder e acabar rejeitada.

Hoje, até fazer fotos tem outro sentido. (Foto: Arquivo Pessoal)Hoje, até fazer fotos tem outro sentido. (Foto: Arquivo Pessoal)

Um dia, chamei minha mãe, pai e irmã para uma conversa, a ideia era contar o que eu realmente era e o que eu gostava. Para minha surpresa eles foram incríveis. Abraçaram-me e disseram que me amavam do jeito que eu era independente da orientação sexual.

Desde então me assumi lésbica, namorei mulheres, fui casada com uma mulher, mas sempre de maneira muito reservada. Mas eu continuava me olhando no espelho e sentindo que algo diferente acontecia comigo.

Muitas vezes tive raiva dos meus seios, do cabelo comprido, do corpo feminino. Cheguei ao ponto de dar tapas e socos nos meus seios, porque não queria tê-los e não queria continuar sendo feminina. Foi quando passei a assistir documentários sobre homens transexuais e resolvi cortar o meu cabelo.

Do meu cabelo foram feitas duas perucas, doadas para o Hospital do Câncer.

Então, há 7 meses, procurei um médico endocrinologista para iniciar as doses de hormônios. Fiz uma “bateria” de exames e, há 5 meses, consegui o que eu tanto queria: me sentir homem.

Meu corpo mudou bastante, a voz engrossou, com a academia estou conseguindo fazer com que os meus seios diminuam, os pelos pelo corpo aumentaram e a barba já começou aparecer.

Desafios – Apesar da conquista o dia a dia não é fácil. Hoje, quando ando nas ruas, escuto as pessoas falarem entre elas ‘nossa você parece um macho’ ou ‘o que tem na cabeça?’, sempre em tom de reprovação. Mas nunca dei importância, porque ninguém tem direito de julgar o outro ou dizer como eu devo ser. E também não sou capaz de acreditar num Deus que julga, se eu estou bem e feliz, provavelmente ele também está.

Em julho do ano que vem, vou mudar meu nome para Nicolas Cristian da Silva e serei o homem que eu sempre fui de verdade.

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