Aos 83 anos, João entrega panfletos há uma década na Afonso Pena
Ele sai de manhã do bairro São Conrado, cruza a cidade de ônibus para continuar trabalhando na calçada

Há 10 anos, a rotina de João Ferreira Rosa é a mesma. Ele sai de manhã do bairro São Conrado, cruza a cidade de ônibus para entregar panfletos na calçada até às 17h. Mesmo com 83 anos, o antigo pescador não reclama da rotina de trabalho na Avenida Afonso Pena. Apesar de todos acharem que lidar com pessoas mal-educadas é um problema, para ele, as amizades que conquistou por ali fazem o trabalho valer a pena e deixam as coisas ruins pequenas.
RESUMO
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João Ferreira Rosa, 83 anos, trabalha há mais de uma década entregando panfletos na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande. Diariamente, ele sai do bairro São Conrado até o Centro, onde permanece das 8h às 17h. Antes dessa ocupação, João foi peão de fazenda no Paraná e pescador profissional, possuindo 34 hectares de terra às margens do Rio Paraná. Após vender suas propriedades, mudou-se para Campo Grande, onde comprou duas casas e encontrou na distribuição de panfletos uma forma de complementar sua renda.
O braço que hoje oferece um papel um dia já derrubou muito mato. Antes de ser o senhor carismático da avenida, ele foi o peão que trocou o Espírito Santo pelo Paraná aos 18 anos. No tempo em que a motosserra era um luxo inexistente, João derrubava madeira no machado, trabalhando nos “barracos de gato”, como ele chama. O termo significa um regime bruto de quem pegava o serviço pesado para distribuir entre os peões.
Daquele tempo de esforço pesado, ele migrou para o silêncio das ilhas do Rio Paraná. Foram 34 hectares de terra e uma vida de pescador profissional.
“Lutamos para ter um pedaço de terra lá, era um lugar muito saudável, pescava muito e pegava peixes enormes. O Paranazão era bom, a gente pegava e vendia na colônia, era pescador profissional. Depois tiraram a gente de lá, aí a gente veio para Corumbá”.
Anos depois, ele deixou as ilhas, viveu 24 anos em Corumbá e, por fim, vendeu seu lote para uma mineradora. Com o dinheiro, veio para Campo Grande, onde comprou duas casas para garantir o descanso que ele, teimosamente, prefere adiar.
“Por aqui quero encerrar minha vida. Tem mais de 10 anos que entrego folheto no Centro e agradeço eles terem me aceitado. É difícil conseguir emprego sendo idoso. Isso ajuda muito a renda. Fico das 8h até as 17h da tarde, faça chuva ou sol. Não me arrependo de nada na minha vida”.
Para ele, estar ali há tantos anos é um privilégio, em um mundo onde o emprego parece fugir dos mais velhos. Dores no corpo? João não reclama de nenhuma.
Apesar de muitos recusarem os folhetos, as amizades sempre acontecem, principalmente com as pessoas das lojas próximas. O lucro é bom para manter a vida com a esposa. João teve sete filhos, todos casados e seguindo a vida, segundo ele.
Entre um panfleto e outro, ele coleciona cumprimentos de quem passa apressado pelo Centro. No fim da tarde, ele recolhe o banco, guarda os folhetos que restaram e caminha de volta para o ponto de ônibus.



