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Comportamento

Após 1 ano esperando transplante, Celedino passou a vez para amigo

Depois de transplante de coração, seu Celedino fez o de rim, e tem motivo de sobra para comemorar o mês de setembro

Por Paula Maciulevicius Brasil | 12/09/2020 07:40
Seu Celedino é motociclista por amor e até o trabalho que ele desenvolve é em cima disso. (Foto: Arquivo Pessoal)
Seu Celedino é motociclista por amor e até o trabalho que ele desenvolve é em cima disso. (Foto: Arquivo Pessoal)

Transplantado duas vezes, entrevistado várias. Não tem setembro que adentre sem que um sorriso de gratidão estampe o rosto de seu Celedino. Isso porque, 22 anos atrás, ele protagonizou uma história de doação. Apesar de um ano e meio esperando na fila para um transplante de coração, quando chegou a vez, ele passou para um amigo que precisava mais e voltou para a espera.

"Consegui fazer o transplante de coração dia 9 de setembro e no dia 21 de setembro o de rim", comemora o autônomo e motociclista Celedino Vieira Fernandes, de 60 anos. Entre um transplante e outro, se passaram 21 anos. O primeiro foi em 1998 e o outro em 2019.

A trajetória de Celedino junto aos transplantes começou com uma miocardiopatia dilatada. "Sentia uma canseira, um mal humor, sabe? Meu coração era bem aceleradinho, mas eu cansava muito", recorda. Na época, ao procurar um médico foi encaminhado para a Santa Casa, passou por um cateterismo e recebeu a notícia de que teria de fazer o transplante.

Depois de 1 ano e meio de espera, chegou a vez dele. Haviam encontrado um coração compatível e ele foi chamado. "Era compatível, era a minha vez, mas tinha o seu Nelson que estava bem mal, sabe? Eu cedi minha vez, porque companheiro é companheiro, né colega? Nós estava tudo no mesmo barco, mas eu ainda trabalhava, estava internado para fazer exames, mas não estava assim no desespero", explica.

Celedino com os filhos: Luan, Luana e Alexandre. (Foto: Arquivo Pessoal)
Celedino com os filhos: Luan, Luana e Alexandre. (Foto: Arquivo Pessoal)

Nelson foi um dos amigos que Celedino fez à época do primeiro transplante. Moradores de cidades vizinhas, um em Itaporã e outro em Dourados, eles se viam todo mês quando a consulta reunia todos os pacientes que estavam na espera. "Tinha um dia no mês que todas as pessoas que estavam na fila de transplante, a doutora atendia junto. A gente se encontrava. Éramos 12, passou para 16, depois 21", conta.

Seis meses depois, outro coração apareceu, mas o procedimento não foi realizado por questão de logística, até que um terceiro transplante chegou. Esse vingou. "Quando fui chamado pela terceira vez, deu certo", comemora. Seu Nelson, para quem Celedino passou a vez, morreu 1 ano e três meses depois de infecção.

Celedino sabe quão sorte teve na vida. Foram três corações que lhe apareceram. O último, que foi colocado nele rendeu até casamento. "Era difícil doador, sabe? Fui de sorte, tive sequência de compatíveis, mas eu brinco que A positivo, Silva e corintiano, é o que mais tem no Brasil e eu sou um cara de sorte", brinca.

Palmeirense por escolha, ele só sabe que o coração que hoje ele carrega era de um corintiano porque "por ironia do destino", como assim prefere falar, se casou com a viúva. "E isso já saiu em tudo quanto foi lugar, mas eu não quero mais falar neste sentido não, porque eu dou entrevista é para incentivar a doação, não quero ficar contando minha vida para os outros. Meu objetivo é ajudar a questão de doação de órgãos", se justifica. A gente ri junto e respeita.

Celedino e Leila, casal que se formou após o transplante do coração. (Foto: Arquivo Pessoal)
Celedino e Leila, casal que se formou após o transplante do coração. (Foto: Arquivo Pessoal)

Passado o transplante do coração e o casamento, foi a vez do rim começar a preocupar. "Quando a gente faz o transplante de coração, já é falado, uma garantia de 10 anos, depois com os remédios, começa a ter outros problemas e danos no rim", explica.

Seu Celedino foi atrás de médico, tratamento, chegou a fazer hemodiálise por seis anos até que conseguiu, de novo, outro transplante, dessa vez de rim. "Agora eu espero não precisar de mais nada, né? Está tudo funcionando", brinca.

O mês de setembro é dedicado às ações de conscientização sobre a importância de ser um doador de órgãos e tecidos, além de falar do impacto que transforma e salva vidas. Só neste ano, 100 pacientes foram transplantados, segundo a Central de Transplantes de Mato Grosso do Sul, 80 deles receberam transplante de córnea, 17 de rim e três de coração.

"Eu nunca fui festeiro, comemoro na simplicidade mesmo, porque aprendi que não posso exagerar em nada".

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