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Comportamento

"Batcaverna" perdeu professor após infecção levar Rogério

Batman partiu aos 46 anos, deixando muitas homenagens nas redes sociais e levando alunos à última despedida.

Por Paula Maciulevicius Brasil | 28/06/2020 07:10
Desenho da Batman de aluno virou moldura no cantinho de Rogério. (Foto: Kísie Ainoã)
Desenho da Batman de aluno virou moldura no cantinho de Rogério. (Foto: Kísie Ainoã)

"A sala dele era a batcaverna. Ele gostava muito do Batman, apesar de não ter nada a ver com o personagem. Era gordinho." Essas são as primeiras palavras que a esposa de Rogério Lopes Paulino, a também professora Márcia Domingues Ferreira, usa para descrever a paixão do marido pelo personagem.

Talvez fosse a batcaverna, a sala de artes que ele ganhou na última escola e batizou com este nome, ou a ideia de ter aula com um super-herói que fazia com que os alunos esperassem ansiosos para chegar ao 6º ano. "Ele dava aula do 6º ao 9º ano, e as crianças do 5º ano ficavam loucas para chegar e ter aula com o Batman", completa Márcia.

No dia 18 deste mês, depois de 14 dias internado, Batman partiu aos 46 anos, fazendo surgir diversas declarações e homenagens nas redes sociais e levando muitos alunos à última despedida.

Rogério era professor há 20 anos, passou por diversas escolas ensinando arte. (Foto: Arquivo Pessoal)
Rogério era professor há 20 anos, passou por diversas escolas ensinando arte. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Ele teve uma dor lombar muito forte. Começou a tratar, porém passou a ter febre à noite. A médica pediu para procurar um clínico geral, e fizemos todos os exames achando que era alguma infecção na coluna. Ele internou, e foi aí que encontraram uma infecção no coração e um defeito na válvula. Ele ia operar dia 23, porém o coração não aguentou", conta a esposa.

Márcia e Rogério se conheceram na escola, em 2003, na semana do aniversário de Campo Grande, quando se preparavam para o desfile do 26 de Agosto. "No dia 24, teve um baile e convite para todos os que ajudaram no projeto. Nos aproximamos ali e não nos separamos mais", recorda.

Divorciada, Márcia tinha duas filhas adolescentes na época e, então, o casal resolveu ficar junto, mas cada um vivendo na sua casa. "Éramos o casal mais completo do mundo, pois ele não queria filhos, não queria se casar, queríamos só aproveitar e ser felizes", lembra.

Em 2018, eles resolveram morar juntos e aí a história já ganha traços de saudade mais fortes. "Foram três anos muito bons. O Rogério tinha suas manias, mas eu também tenho, e a gente se completava", diz.

Em comum, eles tinham a paixão pela arte e pela cultura. Viajavam todo ano para fora do Estado e faziam questão de seguir o calendário de festas regionais. "Íamos em Corumbá, na festa de São João; em Terenos, na Festa do Ovo, e assim por diante".

Sino era tocado todos os dias por Rogério, para anunciar que a refeição estava pronta. (Foto: Kísie Ainoã)
Sino era tocado todos os dias por Rogério, para anunciar que a refeição estava pronta. (Foto: Kísie Ainoã)

Rogério amava o que fazia. Passou por várias escolas, a última foi a Escola Municipal Professora Danda Nunes, onde conseguiu ter uma sala de arte, o espaço batizado de batcaverna. "Ele montou junto com os alunos e gostava de criar, saía cada coisa linda. Em 2018, fomos à Bienal de Arte e visitamos museus em São Paulo, toda noite no hotel ele fazia anotações e dizia: 'eu planejei essa ideia com os alunos'. Era um criador permanente, e os alunos adoravam isso", narra.

Rogério e Márcia não perdiam uma festa de São João, de Corumbá. (Foto: Arquivo Pessoal)
Rogério e Márcia não perdiam uma festa de São João, de Corumbá. (Foto: Arquivo Pessoal)

Outra característica do professor Batman era o olhar para as individualidades. "Ele respeitava muito os limites de cada um, mas incentivava os alunos a irem além", pontua a esposa. Pela casa, ficaram os resultados da batcaverna, arte feita a partir de papelão, garrafa PET, sobras de madeira.

Em 2019, o casal construiu uma varanda para que Rogério pudesse receber os amigos em casa.

"Aproveitamos dos três últimos meses de 2019 até fevereiro 2020. Aí veio a pandemia, a gente se isolou, porque ele era diabético. Porém, uma infecção no coração o levou. Tínhamos muitos planos para realizar, falávamos que iríamos comprar um ônibus para viajar, conhecer o Brasil e a América. O mais importante da vida do Rogério era ser feliz. E  ele foi".

Na parede do cantinho de Rogério, um quadro foi colocado na última quinta-feira, oito dias depois da partida do Batman. O desenho foi feito por um aluno, que a esposa mandou emoldurar.

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Márcia e uma das obras resultado da arte que era a vida do professor. (Foto: Kísie Ainoã)
Márcia e uma das obras resultado da arte que era a vida do professor. (Foto: Kísie Ainoã)
Varanda feita para receber amigos foi aproveitada tão pouco, logo veio a pandemia, o isolamento e a internação de Rogério. (Foto: Kísie Ainoã)
Varanda feita para receber amigos foi aproveitada tão pouco, logo veio a pandemia, o isolamento e a internação de Rogério. (Foto: Kísie Ainoã)