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Comportamento

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão

Negócio familiar era motivo de bullying e ele tentou fugir, mas fez de barraca uma "fábrica" de sucesso

Por Natália Olliver e Aletheya Alves | 07/06/2026 17:00
Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Bryan "abraçou o pastel", largou a CLT e virou patrão na feira após bullying na escola (Foto: Natália Olliver)

Vai fritar pastel, japonês”. “Pastel de flango”. “Suco de lalanja”. Eu tinha vergonha. Na escola era bullying e tiração e, hoje, estamos fazendo sucesso”.

RESUMO

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Bryan Seiti Inoue, de 34 anos, superou o bullying sofrido na escola por ser descendente de japoneses e filho de feirantes para transformar a barraca de pastel da família em uma fábrica que produz mais de 1 tonelada por mês em Campo Grande. Formado em administração e pós-graduado, ele largou a CLT em 2017 para assumir o negócio familiar, que existe há 37 anos, emprega mais de 10 famílias e abastece feiras, padarias e lanchonetes da cidade.

Agora, Bryan Seiti Inoue, de 34 anos, relembra tudo isso rindo, mas as frases dos colegas e os apelidos o fizeram querer fugir do legado dos pais: vender pastel nas feiras. Bom, pelo menos por um tempo.

Anos depois de se jogar no mercado de trabalho para não acabar cheirando a fritura, ele acabou voltando justamente para o lugar de onde correu. Mas, dessa vez, como patrão e sem vergonha de ganhar dinheiro com pastel. Formou-se em administração de empresas, mas não pensou duas vezes ao largar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) para empreender.

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Empreendedor transformou “pastel de flango” em negócio de sucesso (Foto: Natália Olliver)

Conhecida há 37 anos pela qualidade da massa e pelo sabor, a ideia era justamente fazer uma fábrica de pastel. Bryan via que a massa do pai tinha mais potencial no mercado. Ele queria fazer com que a barraca saísse da informalidade e passasse a ter o famoso CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica).

“Antes de assumir o legado dos meus pais, eu estudei, fiz faculdade e tudo porque eu queria sair da feira, não queria trabalhar com isso na época porque não dava tanto dinheiro e eu tinha vergonha também. Adolescente e todo aquele bullying. Eu tinha vergonha. Eu falei: não, vou estudar e sair desse ramo”.

Em 2017, o que ainda era apenas uma barraca que vendia 50 kg de massa por semana, com máquinas antigas e muita força bruta, se transformou em uma fábrica de pastel capaz de produzir mais de 1 tonelada por mês, com maquinário moderno e menos esforço para o pai de Bryan, Leizo Inoue.

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão

Aos 81 anos, ele ainda faz questão de comparecer a todas as feiras do bairro Guanandi e participar de parte da produção em casa, onde o filho construiu a fábrica. Falando na feira, por lá, o japonês é conhecido como Paulo desde que a barraca Inoue começou, há 37 anos.

“Estou nessa área, graças a Deus, é o nosso sustento. Hoje a gente emprega mais de 10 famílias. Isso é motivo de muito orgulho. O que era bullying e tiração, hoje estamos fazendo sucesso. É um orgulho fazer parte dessa tradição. Quero manter o legado por mais gerações”, comenta Bryan.

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Formado e pós-graduado, Bryan não tem verghonha de ter largado tudo para fritar pastel (Foto: Arquivo pessoal e Natália Olliver)

Do bullying a Europa vendendo pastel

Descendente de japoneses, Bryan cresceu vendendo pastel com os pais, mas foi na adolescência que o peso das "brincadeiras" sobre a nacionalidade e os pastéis teve impacto. Não havia outro caminho para alcançar o que ele considerava sucesso que não fosse estudar para ganhar mais dinheiro e não passar pelo que os pais passavam. Mas a realidade da vida pós-faculdade de administração de empresas não foi do jeito que ele esperava.

“Fiz pós-graduação em didática e metodologia de ensino superior. Na pós-graduação, eu dava aula de logística, teoria geral da administração, informática. Eu fui me arriscar, depois de formado, a trabalhar fora. Fiz estágio em uma casa de embalagem e ganhava bem pouquinho. Consegui dar aula em cursos técnicos integrais. Em 2014 e 2015, eu trabalhei como contratado, minha carga horária durava 12 horas. Achei que, saindo da feira, teria sucesso profissional”.

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Bryan, o pai e o tio, Massaru Ito, na feira do Guanandi (Foto: Natália Olliver)

A virada veio quando largou a CLT e se jogou no empreendedorismo. Apesar de o negócio não ser novo, administrar depois de formado foi. Os pais faziam tudo com a experiência que conquistaram ao longo dos anos.

“Quando minha mãe ficou doente e quase morreu, pensei em voltar para ajudar, mas falei para o meu pai sobre ter autonomia nas coisas e na administração. Em 2017, eu assumi de vez a feira e abandonei a escola. E aí eu comecei a usar o que eu aprendi na faculdade. Colocar algumas coisas em prática. Foi aí que a gente começou a se estruturar melhor. Deu um ‘boom’ de venda, comecei a contratar, a comprar maquinário, fazer estrutura de empresa”.

Para ele, ter largado a carteira de trabalho e virado patrão foi a melhor decisão que poderia ter tomado. “A gente era pobre, isso foi a melhor coisa que eu fiz na vida financeiramente. Já consegui até viagem para a Europa fritando pastel. Sou pós-graduado e vendo pastel”.

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Construção da fábrica da família, e maquinário; do lado direito máquinas antigas do pai de Bryan (Foto: Natália Olliver)

O que muda quando você vira patrão?

Bryan faz questão de ser o patrão amigo. Gosta de falar com os funcionários, ouvir os problemas quando chegam e ajudar como pode. Ele comenta que ganhou 14 “filhos” depois que virou empreendedor.

“O que ninguém vê na vida do empreendedor é isso. Eles têm uns problemas que acabam vindo para a fábrica, a gente dá conselho. Empreender não é fácil, mas é muito gratificante. É prazeroso fazer além deles ganharem dinheiro, aconselhar e estar ali”.

Apesar de estar à frente da barraca, Bryan conta que não larga o batente, a parte de atendimento e até fritar pastel quando precisa. “Eu trabalho junto. Porque a gente tem que estar sempre ativo, por mais funcionário que tenha. Meu pai diz que a gente tem que estar no lugar de trabalho: ‘o olho do dono que engorda o gado’, ele fala. A gente está sempre aqui, não importa dia ou horário. A gente tem que liderar, não mandar”.

Empreendedorismo

O contato com empreendedorismo não aconteceu da noite para o dia. Ainda na adolescência, Bryan teve a primeira experiência na área. Foi ali, nas aulas da escola, que ele aprendeu sobre gestão, estratégia e criatividade.

"Era um moleque ainda, não sabia que era uma empresa, não sabia de nada. Eu descobri que empresa tem que ter gestão, calcular os riscos antes de começar um negócio, aprender sobre margem de lucro. Essas coisas que me incentivaram a fazer Administração. Eu tive que montar uma empresa que não existia. Fiz um projeto de pet shop móvel, a gente ia até a casa deles e tinha que achar a 'dor' dos clientes e resolver".

Por trabalhar em um ambiente familiar, as aulas ficaram marcadas na memória. Ali, ele descobriu que uma empresa é dividida por áreas e cargos.

"Eu fiquei surpreso que todo mundo tem um setor diferente, ninguém fazia tudo lá. Me ajudou também, hoje em dia eu delego função. Eu tenho um líder de atendimento, um líder da fábrica, um líder de compras e um líder de estoque".

Se quando Bryan estava na escola já existiam programas que ajudavam os adolescentes a entender o mercado antes de terminar os estudos. Hoje, as possibilidades gratuitas são ainda maiores.

No âmbito federal, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) é uma das opções de qualificação voltada especificamente para a inovação e o empreendedorismo.

Como alternativa prática a esse ecossistema de formação, o circuito de competições escolares também serve de porta de entrada. É o caso do Desafio Liga Jovem, uma iniciativa gratuita promovida pelo Sebrae que funciona nos moldes de uma olimpíada nacional de empreendedorismo.

Já na vida adulta, uma das opções é o Empretec, uma espécie de "seminário de imersão" focado no desenvolvimento de comportamento empreendedor, criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) e aplicado no Brasil exclusivamente pelo Sebrae.

Do Japão às feiras

A história da barraca começou em 1988, quando o Sr. Leizo, ou Paulo, e Sumie Inoue decidiram largar a vida em São Paulo para arriscar uma nova profissão em Campo Grande: ser feirante e vender pastel. Nas feiras, Sumie também ganhou um novo nome: Márcia.

O primeiro a sair do Japão para fazer feira, vendendo legumes e verduras, foi o tio, que depois convocou o irmão, pai de Bryan. Antes de embarcar na ideia, a família trabalhou na lavoura em outras cidades.

“Meus pais colhiam laranja em Lins e algodão e café em Assaí, no Paraná. Meu tio veio arriscar a vida aqui em Campo Grande vendendo verduras. Meu pai veio para Campo Grande em 1988 e começou a trabalhar com meu tio. Em 1989, ele começou a vender pastel para muitos lugares e todo mundo migrou para o pastel na família. Somos todos feirantes”.

Depois que o tio, Massaru Ito, perdeu a esposa em 2025, a família o acolheu na barraca e ele voltou a trabalhar na feira. Tinha parado em 2020.

Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Bryan cresceu na feira e resolveu seguir legado dos pais (Foto: Natália Olliver)

“Ele vendia verduras na época, depois viu que fritar pastel dava mais dinheiro e nunca parou. Antigamente, quando era minha mãe e meu pai fritando pastel e eu atendendo, a gente produzia cerca de 50 kg por semana. Hoje, passamos de 1 tonelada por mês, estamos próximos de 2 toneladas. Em época de festa junina, vende muito pastel e, com a fábrica, a gente fornece e abastece muitas delas, padarias e lanchonetes.”

Ele conta que, só no domingo, na feira do Guanandi, venderam quase 1.300 pastéis, fora as coxinhas e quibes. A conta na semana sobe para quase 4 mil unidades vendidas. Os sabores são os tradicionais: carne, queijo, frango com catupiry, bauru e pizza.

A barraca da família Inoue percorre as feiras de Campo Grande de terça a domingo. Na terça-feira, o atendimento é no bairro Coophavila II; na quarta, na Orla Morena; na quinta-feira, no Rita Vieira; e, na sexta, no Nova Bahia. Aos sábados, a família atende pela manhã no Coophasul e, à noite, no Jacy. Já no domingo, a barraca está no Guanandi, com a presença de Leizo.

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