“Como que ele volta num caixão?”, lamenta irmã de operário morto em desabamento
Esposa de Willian Douglas contou que soube do ocorrido por colegas de trabalho que foram levar mochila dele

A família do trabalhador Willian Douglas Souza Cabral, de 39 anos, morto no desabamento da obra de um hipermercado no Aero Rancho, em Campo Grande, cobra respostas sobre as condições de trabalho e a demora da empresa em comunicar a morte do operário. Segundo a irmã dele, Silvia Cristina de Moraes, 27, os familiares ficaram sabendo do acidente pela imprensa. O trabalhador está sendo velado neste sábado (5) em uma cerimônia com poucos familiares.
RESUMO
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A família do operário Willian Douglas Souza Cabral, de 39 anos, morto no desabamento de um hipermercado em Campo Grande, cobra respostas sobre as condições de trabalho e critica a empresa por não ter comunicado diretamente a morte. Os familiares souberam do acidente pela imprensa. Willian deixou dois filhos e a família pretende recorrer à Justiça. As causas do desabamento são investigadas pela Polícia Civil, Perícia Científica e Crea-MS.
Willian morreu na tarde de sexta-feira (4), junto com Joel Oliveira da Silva, de 41 anos, após a estrutura pré-fabricada da obra desabar. Outros dois trabalhadores ficaram feridos. Na manhã deste sábado (5), familiares de Willian estiveram reunidos em frente ao local e relataram indignação com a forma como receberam a notícia.
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“Eu descobri pela internet. Fui à casa da minha cunhada, e eles estavam chegando lá às seis horas da tarde”, contou Silvia. Segundo ela, a família esperava ao menos um contato direto dos responsáveis pela obra.
Segundo a irmã, a família pretende recorrer à Justiça para esclarecer as circunstâncias da morte de Willian e responsabilizar eventuais envolvidos. "Meu irmão deixou dois filhos, inclusive um que tem só oito anos de idade. Eles precisam ser responsabilizados. Como é que você tira uma pessoa cedo de dentro de casa para trabalhar e vai devolver a pessoa dentro de um caixão?”, questionou.
Willian era casado havia mais de oito anos e vivia com a esposa, Cleide Rodrigues. Ele deixou dois filhos, de 19 e 8 anos, que não moravam com o pai. A mãe de um dos filhos estava em Campo Grande neste sábado. A irmã descreve o momento vivido pelo trabalhador como uma fase positiva.
Segundo ela, Willian havia comprado um carro recentemente, estava com a casa mobiliada e tinha experiência com trabalhos envolvendo estruturas pré-fabricadas. “Meu irmão estava vivendo um bom momento da vida dele. Meu irmão tem 39 anos, comprou o carro agora, estava com a casa dele toda mobiliada. E, assim, meu irmão sempre trabalhou com essas coisas pré-fabricadas, nunca teve problema”, afirmou.

A esposa de Willian, Cleide Gregório Rodrigues, 45 anos, trabalhadora doméstica, estava em casa quando recebeu a notícia da morte. Ela conta que dois funcionários da empresa, um encarregado e um supervisor, chegaram ao imóvel por volta das 18h de sexta-feira (4), levando a mochila do marido.
Cleide diz que não havia visto notícias sobre o desabamento e só percebeu que algo havia acontecido quando os homens bateram palmas no portão. “Eu falei: ‘Cadê meu marido?’. Aí ele falou assim: ‘Aconteceu um acidente’. Falei: ‘Mas cadê meu marido?’. Eles chamam o William de Japa. ‘O Japa faleceu’. Eu: ‘Não acredito nisso’”, relatou.
Segundo Cleide, os funcionários permaneceram pouco tempo na casa e não souberam explicar o que havia acontecido com Willian. “Falei: ‘Mas como ele caiu? O que aconteceu? Ele foi socorrido?’. Não sabiam me dizer nada. Nada, assim, nada”, contou.
Ela afirma que a família ficou esperando informações sobre o corpo e passou horas tentando contato com a empresa. Conforme o relato, os funcionários disseram que Willian seria levado ao IML (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) e que uma pessoa chamada Luciano entraria em contato com ela.
Conhecido pelo apelido de “Japa”, Willian teria entrado na obra para substituir outro trabalhador. Conforme o relato da família, esse funcionário havia sido contratado anteriormente, feito reclamações relacionadas à obra e acabou demitido. Silvia também afirma que Willian estava trabalhando em ritmo acelerado nos últimos dias, diante da cobrança pela conclusão da obra. Segundo ela, os funcionários chegavam a trabalhar até as 19h.
A irmã diz ainda que quer entender quem era o responsável pela segurança da obra e critica a empresa por, segundo ela, não ter procurado diretamente os familiares. “Porque eles estavam querendo jogar a culpa para o rapaz que trabalha com guindaste. Independentemente de quem foi a culpa, a principal responsável é a empresa”, afirmou.
A família também questiona a postura dos responsáveis após a tragédia. Segundo Silvia, apenas um encarregado teria feito contato com os familiares. “Cadê o proprietário dessa empresa para, pelo menos, dar os pêsames para a família? (...) É revoltante”, disse.
Segundo a família, a empresa informou que custearia o velório. No entanto, conforme Silvia, no momento do pagamento o valor não teria sido formalizado em nome da empresa e acabou sendo entregue aos familiares. Ela afirma ainda que nenhum colega de trabalho esteve com a família e que outros parentes não teriam sido procurados.
Investigação
As causas do desabamento ainda são investigadas pela Polícia Civil, pela Perícia Científica e pelo Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul).
De forma preliminar, o conselheiro do Crea-MS Sidiclei Formagini apontou duas possibilidades principais: uma eventual falha no projeto ou problemas durante a montagem da estrutura pré-fabricada. Segundo ele, a etapa de montagem é considerada uma das mais críticas porque a estrutura ainda não está completamente travada e estabilizada.
O conselho informou que, na fiscalização inicial, a documentação da obra estava regular, com empresa registrada e profissional habilitado como responsável técnico. Outros documentos ainda serão analisados pela Câmara de Engenharia Civil.
Uma câmera de segurança registrou o momento do desabamento, às 14h07 de sexta-feira. As imagens mostram a estrutura cedendo em sequência, em um movimento semelhante a um efeito dominó.
A perícia retornou ao local neste sábado para continuar os levantamentos. O trabalho deve ajudar a esclarecer se houve falha no projeto, na execução ou na montagem da estrutura.


