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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

10/04/2018 08:00

Caderno de receitas é memória viva da avó italianinha da família D'Estefani

Thaís Pimenta
A saudade da avó ultrapassa os sabores guardados no coração do neto, Martin. (foto: Roberto Higa)A saudade da avó ultrapassa os sabores guardados no coração do neto, Martin. (foto: Roberto Higa)

"Ainda é difícil ficar na cozinha e não sentir ela aqui", diz Martin D'Estefani sobre sua avó, dona Juvelina D'Estefani, que faleceu devido a uma bronquiectasia crônica aos 79 anos no dia 3 de janeiro deste ano. Com muito amor pela culinária italiana, a vovó ensinou de geração a geração os segredos para se fazer uma bela massa caseira, um pão fofinho e até mesmo uma batata recheada de primeira.

A ligação, claro, ia muito além da comida preparada com amor, e em família. "Ela praticamente criou os netos, sempre esteve muito próxima a eles. Meu filho mesmo, o André, foi criado em conjunto por ela e por mim", diz a filha, Eliete D'Estafani. Do interior do Estado,São Gabriel do Oeste, a família veio para a Capital por conta do falecimento do avô da casa, Otávio, esposo de Juvelina.

"Quando papai estava prestes a falecer, ele me pediu que nós colocássemos mamãe e uma boa casa. Assim foi feito, na época visitamos 100 casas, sem brincadeira, até achar uma que agradasse a ela. A casa é tão boa que veio todo mundo morar com ela", brinca Eliete.

Martin demorou mas, pra não negar o sangue, chamou a avó num dia do ano de 2014 e pediu, genuinamente, pra que ela llhe ensinasse como preparar as massas da família. "O cômodo da casa mais frequentado sempre foi a cozinha. Ela me ensinou a fazer em 2014 mas só no ano passado, quando eu voltei a morar com ela, foi que comecei realmente a testar as receitas", diz. 

A saudade se mostra presente. "Mas sem ela tem sido estranho porque tinha o costume de terminar de preparar a massa e perguntar se tava tudo certo. Agora não tenho mais o aval, a aprovação, da nossa pequena", completa o neto.

Tudo continua do jeitinho que ela deixou. Nos caderninhos de receita, a letra de uma mulher encantada pela gastronomia, com estudo até a 3ª série primária, e exemplo para todos da família. "Queremos recolher todos eles e fazer um grande apanhado, bem bonito, digitalizado, para não deixar a memória se perder".

Martin e Juvelina. (Foto: Acervo Pessoal)Martin e Juvelina. (Foto: Acervo Pessoal)
A receita do pastel, nas letras de Juvelina. (Foto: Roberto Higa)A receita do pastel, nas letras de Juvelina. (Foto: Roberto Higa)

A memória gustativa e sensorial é presente em cada torteli, capeleti e nhoque, feitos basicamente com farinha de trigo, água e ovos. Para a filha, Eliete, a mãe está ainda tão presente que ela só foi conseguir preparar o pão que fazia para a família neste fim de semana, cerca de três meses depois de sua partida. 

Os dois lembram dos momentos junto à mãe e avó, no fim do dia, quando tinham a desculpa de ir assistir a novela no quarto de Juvelina só pra poder estar juntinho dela. "A gente nem acompanhava a novela mas era nosso momento. Isso é uma das coisas que acho que não conseguiremos fazer tão cedo".

Martin conta que a massa preferida da avó era o nholini de abóbora mas um dos pratos mais amados por ela não tem nada de italiano, a batata recheada. "Um dia fomos ao shopping e lá ela experimentou uma vez. Gostou tanto que aprendeu a fazer em casa porque nos últimos anos já estava muito debilitada, tinha só 30% da capacidade respiratória. Sei que o amor por esse prato inusitado criou uma espécie de ritual aos domingos, quando nos reuníamos sempre pra comer a batata igual ao do shopping".

A família reunida em um dos raros momentos fora da cozinha. Atrás de Juvelina está Eliete. (foto: Acervo Pessoal)A família reunida em um dos raros momentos fora da cozinha. Atrás de Juvelina está Eliete. (foto: Acervo Pessoal)

Carinhosa e, ao mesmo tempo, rígida, dona Juvelina tinha o coração mole e bondoso, mesmo com um passado tão sofrido, vindo de uma geração de trabalho intenso, junto à muita pobreza. "Mamãe dizia que só foi ter o seu primeiro sapato com 12 anos, quando foi trabalhar na casa e uma família rica da cidade, que lhe deu de presente sua primeira sandalia. Até então, ela só andava descalça", contam.

Os parentes já sentiam que a vózona não estava forte como de costume e, por isso, fizeram questão de se reunirem, todos, no Natal de 2017, como numa premonição.

Martin aprendeu direitinho como manter a tradição da família. (Foto: Roberto Higa)Martin aprendeu direitinho como manter a tradição da família. (Foto: Roberto Higa)

Sem temer a morte, mas sem querer morrer, Juvelina dizia a todo momento que enquanto pudesse ter sua autonomia viveria em paz. "Vovó era muito tímida e independente. Vira e mexe se a gente deixasse ela sozinha pegávamos ela trocando uma lâmpada por aí", lembra.

Um dia antes de falecer, já muito debilitada, ela precisou da ajuda de Eliete para tomar banho - foi a primeira e única vez. "Me lembro que eu sugeri a ela lhe ajudar no banho e ela disse, chateada consigo: 'eu estou muito inútil mesmo'".

No mesmo dia, momentos antes de ser internada na CTI, Eliete lembra do "joinha" que a mãe lhe deu, querendo indicar que estava tudo bem. "Foi minha última visão dela em vida", finaliza.

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Juvelina se sentia bem cozinhando suas massas e seu cômodo preferido da casa era a cozinha. (foto: Acervo Pessoal)Juvelina se sentia bem cozinhando suas massas e seu cômodo preferido da casa era a cozinha. (foto: Acervo Pessoal)


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