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Comportamento

Cara de "alma boa", despedida de Paulo Sérgio teve adeus cantado

Cantor morreu de covid-19 na manhã de ontem (12); à tarde, já foi sepultado pela família e amigos mais íntimos

Por Raul Delvizio | 13/03/2021 07:20
Enterro de Paulo Sérgio teve momento de despedida ao amigo com "modão" (Foto: Kísie Ainoã)
Enterro de Paulo Sérgio teve momento de despedida ao amigo com "modão" (Foto: Kísie Ainoã)

Sonhos, planos...
Tudo aquilo que vivemos se perdeu
Choro, choro....
Vou ficar com as lembranças que a gente viveu".

Foi em um coro improvisado e carinhoso da canção "Labirinto" que o cantor e produtor musical Paulo Sérgio Domingos foi velado na tarde de ontem (12) no Cemitério Jardim da Paz de Campo Grande, saída para Sidrolândia. Ele, que foi um dos precursores do sertanejo universitário, foi um dos 147 mortos pelo novo coronavírus só nos últimos 7 dias na Capital. Porém, mesmo com a tristeza da notícia de sua morte, deixou uma vida inteira dedicada à música.

Cerca de 40 pessoas se reuniram ontem (12) no Cemitério Jardim da Paz (Foto: Kísie Ainoã)
Cerca de 40 pessoas se reuniram ontem (12) no Cemitério Jardim da Paz (Foto: Kísie Ainoã)

Para Santhiago Filho, a outra metade da dupla que fez com o amigo durante 11 anos, o sentimento é o de anestesia. "A gente estava em vias de gravar um projeto novo, lançar CD e DVD tudinho. Tanto é que já tínhamos começado a musicar. Estávamos todos com a certeza de que ele iria sair dessa, até porque os boletins que nos eram passados indicavam diariamente um quadro de melhora", confirmou.

"A gente brincava: 'somos dois feios e gordos, então o mínimos que temos que fazer é cantar bem bonito'. Caímos na risada! Ele tinha um talento natural para música, um jeitão afetuoso de ser e era ele o 'chorão' da dupla. Sentimental, se emocionava por tudo. Agora, porém, somos nós que estamos a chorar por ele", lamenta Santhiago.

Para Santhiago, dupla a 11 anos, sentimento da perda do "irmão" ainda é o de anestesia (Foto: Kísie Ainoã)
Para Santhiago, dupla a 11 anos, sentimento da perda do "irmão" ainda é o de anestesia (Foto: Kísie Ainoã)

E faz um apelo: "temos que ter lockdown sim! Está tudo lotado por aí. Vivemos um período de uma guerra, mas pior, com um inimigo invisível. Para se ter ideia, Paulo Sérgio estava numa recuperação positiva até o finalzinho da doença, que é quando numa virada tudo mudou", diz.

Diagnosticado com covid-19 no dia 19 do mês passado, Paulo Sérgio foi internado na UTI (unidade de terapia intensiva) na quinta-feira da semana anterior (4 de março) por ainda apresentar uma tosse seca "incurável". Com sobrepeso, o músico chegou a ficar com 80% do pulmão comprometido na Clínica Campo Grande. "Mas ainda vou voltar a cantar", disse ele à Santhiago. A partir do último domingo (7), o músico foi entubado e passou por coma induzido – ficou 6 dias assim até ser "liberado" da entubação.

Momento em que a esposa, de laranja, debruça no caixão (Foto: Kísie Ainoã)
Momento em que a esposa, de laranja, debruça no caixão (Foto: Kísie Ainoã)

"Até o quadro de infecção mostrava melhora. Recebíamos os boletins médicos diariamente às 18h. Quando o hospital me ligou na manhã de sexta-feira (12) já sabia que tinha alguma coisa errada. Meu corpo gelou na hora, já pensei no pior. E tinha razão. Meu grande amigo não conseguiu venceu a batalha", afirmou Santhiago. Paulo Sérgio acabou morrendo em decorrência de três paradas cardiorrespiratórias.

A médica até se emocionou e me deu um abraço porque também não aguentou o peso de perder mais um paciente que aparentemente estava tudo bem. É difícil".

No porta-retrato, imagem de Paulo Sérgio em um dos seus últimos shows antes da pandemia (Foto: Kísie Ainoã)
No porta-retrato, imagem de Paulo Sérgio em um dos seus últimos shows antes da pandemia (Foto: Kísie Ainoã)

"Segundo pai" – Considerado por muitos um "cara de alma boa", com um coração "de urso" e até mesmo um segundo pai – da música e da vida – para muitos filhos-artistas, Paulo Sérgio não só era um sertanejo raiz, mas um professor na arte de ajudar os outros.

"Todo dia que vivia com ele era uma aula. Estar ao lado dele já era um aprendizado. Sempre o acompanhei de longe, então quando tive a oportunidade dele me acolher como produtor musical, nossa, aquilo foi a realização de um sonho", revela Eduardo Telles, músico de 23 anos que faz par com Otávio Augusto Tramujas, 34.

Visivelmente emocionado pela perda do "pai", Eduardo agradece pelo tempo compartilhado (Foto: Kísie Ainoã)
Visivelmente emocionado pela perda do "pai", Eduardo agradece pelo tempo compartilhado (Foto: Kísie Ainoã)

"Conheci ele quando tinha 15 anos. Nem sabia de quem se tratava aquela figura carismática que estava ali a soltar o gogó e tocar um modão na minha casa. Foi por ele que minha carreira na música começou. Me tornei percussionista e atualmente pude ter a sorte de encontrar um parceiro para montar uma dupla com Paulo Sérgio como mestre", disse Otávio.

Sem sombra de dúvida, era um segundo pai para nós dois".

Aos 15 anos, Otávio conheceu Paulo Sérgio, professor na vida e na música (Foto: Kísie Ainoã)
Aos 15 anos, Otávio conheceu Paulo Sérgio, professor na vida e na música (Foto: Kísie Ainoã)

Bravo porém brincalhão, "paizão" que dava puxão de orelha mas cafuné quando merecia. Era assim que os dois rapazes viam a convivência com Paulo Sérgio. "Nossa primeira gravação vai ser com uma música autoral dele. Queremos fazer essa homenagem. Porque ele já está marcado na nossa história", garantem.

Paulo Sérgio deixa a esposa Ana Paula e três filhos, entre eles um bebê de 35 dias.

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