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Campo Grande, Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

23/02/2015 06:13

Casal descobriu talento por acaso e ganha a vida fazendo música para fazendeiros

Elverson Cardozo
Carlão e Cleonir estão juntos há mais de 40 anos. (Foto: Alcides Neto)Carlão e Cleonir estão juntos há mais de 40 anos. (Foto: Alcides Neto)

Muita gente não sabe e talvez nem os vizinhos tenham se dado conta, mas uma casa simples do bairro Monte Castelo, em Campo Grande, abriga um casal de artistas que se descobriram cantores e compositores por acaso e que, hoje, de tão queridos, são requisitados para compor músicas em homenagens a fazendeiros de Mato Grosso do Sul.

Foi em uma viagem para Corumbá, há pouco mais de 15 anos, que Cleonir Teles, 60, resolveu criar uma canção. “Vi uma chuva passando e ela parou em cima de um monte. Ficou aquele véu branco sobre a montanha bicuda. Coisa mais linda. […] Aí veio aquela coisa assim: meu amor é tão bonito, igual chuva na montanha, que alegra os passarinhos, me aquece, me assanha. / Igual Bela Adormecida, veio logo a despertar, carinhosa e faminta, com desejo de amar...., contou, e cantou “Chuva na Montanha”, título da primeira obra assinada por ela.

À época, o marido, Benedito Carlos Rodrigues, 67, acompanhou a mulher. Naquele dia, os dois chegaram cantarolando à Cidade Branca. Na mesma data, à noite, Cleonir teve outra inspiração.

“Sentada nessas cadeiras de lanchonete, fiquei olhando o céu de Corumbá. Era um azul marinho que a gente mergulhava nele. As estrelas... parecia que se eu subisse em uma escada, poderia tocar nelas com a mão. Na hora veio na minha cabeça assim: hoje estou em Corumbá, noites quentes de verão, céu azul tão estrelado, refletindo uma paixão. / Ouço as aves a cantar, anunciando o alvorecer. / A chalana a deslizar, navegando com você. / Me sinto surpreendida encontrar tantas belezas. / Parece um altar sagrado, no meio da natureza”.

As duas músicas – Chuva na montanha e Corumbá Pantaneira - são as preferidas do casal, que decidiu, a partir dessa experiência, seguir carreira. Ele, até então, só havia cantando na igreja e por pouco tempo. Ela, ao contrário, cresceu em uma família de músicos. O avó era compositor e violeiro. O pai, catireiro. As tias, cantoras.

Arte do segundo CD, lançado há cerca de 7 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)Arte do segundo CD, lançado há cerca de 7 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando encomendadas por fazendeiros, a música vem em um CD gravado com outras 13 canções que o cliente gosta. Quem ouve, garantem eles, costuma elogiar, mas nem sempre imagina o trabalho que dá resumir e musicar uma biografia.

“Muitas vezes a história é complicada. O nome da pessoa é difícil para falar e tem alguns que querem que coloque o genro, a nora, o boi, bezerro, cachorrinho...”, revela Cleonir, ao comentar que, em uma dessas músicas, teve de dar um jeito de incluir, na letra, o nome de 7 fazendas. “Foi a esposa que pediu. E para encaixar?”, comenta.

Outras são mais tranquilas, mas nem por isso menos trabalhosas. A que fizeram para um fazendeiro de Maracaju, por exemplo, tem narrativa simples, mas uma história peculiar, como as restantes. A letra diz o seguinte: “Amigos, prestem atenção na história que vamos contar. / Hoje é 15 de abril, data para se comemorar. / É aniversário de um homem trabalhador e honrado. / É um médico de respeito e muito bem conceituado...”

Do carro para os palcos - Fato é que, por acaso, marido e mulher formaram a dupla Carlão e Cleonir, de olho no público do sertanejo raiz e romântico. Da cantoria no carro, indo para Corumbá, vieram os primeiros convites para apresentações.

Com o passar do tempo, os dois acabaram, de certa forma, apadrinhados por cantores mais conhecidos, como Delinha, considerada a grande Dama do Rasqueado.

“Ela incentivou muito porque fazia a gente cantar. A gente tinha vergonha de ir no palco e cantava sentado”, lembra Carlão. “Eu queria matar a Delinha”, completa a esposa. O marido continua o relato: “Ela erguia aquela mãozinha magra dela para cima e falava: gente, gente, tem um casal de amigos aqui, o Carlão e a Cleonir, que vão vir cantar umas modas que eles escrevem. É muito bonito. Até hoje ela faz isso”.

Apesar da vergonha no início, a ajuda de Delinha valeu muito a pena, reconhecem. Foi em um desses eventos, cantando para empresários, que a dupla conseguiu apoio para o gravar o primeiro CD (Duo Pantaneiro), que saiu em setembro de 2000.

Último CD, de 2012. (Foto: Alcides Neto)Último CD, de 2012. (Foto: Alcides Neto)

As primeiras músicas, escritas a caminho de Corumbá, fazem parte do disco, que tem mais 12 canções. De lá para cá, muitos shows aconteceram e mais dois CDs e dois DVDs (um fazendo participações especiais) foram gravados.

O reconhecimento, entre fãs e artistas locais, admiradores do ritmo, veio rápido. Das pequenas aparições, o casal passou a fazer trabalhos maiores. “Logo fomos cantar em uma mostra da Vale do Rio Doce em Corumbá. Tinha umas 50 mil pessoas. Foina [praça] General Ponce”, conta a mulher.

 Ela lembra de outro momento emblemático na carreira: a apresentação no velório da cantora Helena Meireles, a Dama da Viola, outro ícone da música Sul-Mato-Grossense.

“Cantamos no funeral dela, quando estava descendo o caixão”, diz. “Saímos no Jornal Nacional”, destaca o esposo. A música, que conta a vida de Helena, eles tem de cabeça: “Cantando conto história, da cabocla violeira, dedilhando a viola, cruzando muitas fronteiras. / De casa jovem saiu, em busca dos sonhos seus. / O passaporte é o sucesso, a viola quem lhe deu...”

No auge da carreira, que nunca foi estrondosa, a dupla fazia de 6 a 7 shows por mês. Atualmente, a média de é 1 a 2. Eles se apresentavam mais, dizem, graças à Fundac (Fundação Municipal de Cultura), mas a “paradeira” desta administração não está ajudando.

CDs de homenageados. (Foto: Alcides Neto)CDs de homenageados. (Foto: Alcides Neto)

Canções de homenagens - O sorte é que, desde os início, Carlão e Cleonir aprenderam a segurar o orçamento fazendo composições de homenagens. A lista de clientes, que tem pelo menos 40 nomes, é composta, em sua maior parte, por fazendeiros de Mato Grosso do Sul.

Mas qualquer pessoa pode encomendar. É só pagar. Uma música sai por R$ 5 mil, valor que a cantora considera barato. “Demora uns dois meses. A gente perde noite. Enquanto um dorme o outro acorda com alguma coisa na cabeça”, valoriza.

Para criar, o casal pede ao contratante a história do homenageado por escrita. A partir do relato é que eles compõe. O trabalho exige cuidado, criatividade e, mais que isso, um grande domínio de rimas para o sertanejo sai perfeito.

Serviço - O contato com a dupla Carlão e Cleonir pode ser feito pelo e-mail carlaoecleonir@hotmail.com e pelos números (67) 9908-7865, 9225-1790 ou 3222-8358.

Ouça, abaixo, a  música "Corumbá Pantaneira", a segunda composta pelo casal. 




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