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Comportamento

De pai solo a transexual liberta, histórias dos misses gays de MS

Rodrigo, Luanna e Ashley foram os vencedores do concurso em 2019 e agora convidam para mais uma edição

Por Raul Delvizio | 17/03/2021 06:15
Da esquerda para a direita, Ashley, Rodrigo e Luanna são os misses da edição 2019 da competição (Foto: Arquivo Pessoal)
Da esquerda para a direita, Ashley, Rodrigo e Luanna são os misses da edição 2019 da competição (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao invés de apenas por 1 ano – como o de costume – a pandemia do novo coronavírus trouxe aos ganhadores LGBTs do concurso Miss & Mister MS Gay a oportunidade de "reinar" por dois anos consecutivos. Como em 2020 não teve, a competição retoma agora em maio porém em formato não-presencial. Para os vencedores da última edição (2019), porém, as mudanças foram muito além de só vestir a coroa.

Após ganhar o título de mister gay, Rodrigo Lino Morais, 31 anos, viu sua bandeira do arco-íris ser transformada pela "adoção" da cor de rosa. "Realmente muita coisa mudou, e foi incrível. Decidi me tornar pai solo, o que trouxe – mais do que adaptação – um novo pensar sobre a vida, sobre cuidados e sobre responsabilidades".

Agora, ele é o pai definitivo da bebê Sophia.

Rodrigo brinca com sua filha Sophia na piscina; "muita mudança veio nesse meio tempo..." (Foto: Arquivo Pessoal)
Rodrigo brinca com sua filha Sophia na piscina; "muita mudança veio nesse meio tempo..." (Foto: Arquivo Pessoal)

"Tudo aconteceu em março do ano passado. Ser pai sempre foi um sonho. E o título me deu a força que eu precisava para ir em frente e persistir em formar uma família própria. É claro que aprendi no caminho que o preconceito sempre estará ao meu redor, então cabia a mim mesmo enfrentar essas intimidações para vencer. O que vivo agora em diante é uma nova etapa da minha vida, uma benção de Deus", acredita.

Sobre ganhar a coroa em 2019, Rodrigo lamenta não ter feito – em suas palavras – "muita diferença". "Infelizmente, ficar com o título nesses últimos 2 anos não mudou muito, não. Coisas legais que poderiam ser feitas, como ações, eventos e concursos, tiveram que ser canceladas e as diversas atividades presenciais ficaram só no on-line. Porém, ainda sim, ser mister me fez repensar o que é representação, de estar 'junto' com a comunidade mesmo que distanciado", reflete.

Insistência dos amigos e até patrocínio de uma loja de roupas fizeram ele se tornar Mister MS (Foto: Arquivo Pessoal)
Insistência dos amigos e até patrocínio de uma loja de roupas fizeram ele se tornar Mister MS (Foto: Arquivo Pessoal)

Já a miss gay Luanna Goulart, 19 anos, precisou ganhar a coroa e passar por uma pandemia de proporções globais para finalmente se identificar consigo mesma. "Posso dizer com orgulho: sou uma mulher transsexual", assume.

"Mesmo com o título de 2019, porém, confesso que não me sentia realizada. A arte drag, que eu já fazia há algum tempo, não sustentava quem eu realmente era. Olhava para o espelho e via algo dentro de mim que eu mesma ignorava. Foi assim, nesse meio tempo, que consegui passar pelo processo de assumir minha transsexualidade", revela.

Após conquistar o título, Luanna ganhou a sonhada liberdade: se assumiu transsexual (Foto: Arquivo Pessoal)
Após conquistar o título, Luanna ganhou a sonhada liberdade: se assumiu transsexual (Foto: Arquivo Pessoal)

Para ela, a pandemia veio para nos ensinar valores nas coisas mais simples e rotineiras. "E que acabamos ignorando no dia a dia. Justo na época em que me identifiquei enquanto transsexual, pude viver um momento de reclusão que eu precisava, ou seja, de ficar longe da exposição – mas sem deixar de lado a coroa", diz.

"Não somos apenas LGBTs, somos seres humanos. Não há nada que seja impossível, sempre existe um jeito, e cabe a nós colocar o toque especial nas coisas, transformar a escuridão em luz. Aprendi a filtrar aquilo que me faz bem. Espero que a comunidade também possa fazer o mesmo e, mesmo em um momento difícil como o de agora, saiba dar a volta por cima e continuar a luta de forma inteligente e colorida", pontua.

A jovem de 19 anos precisou ganhar a coroa e passar pela pandemia da covid-19 para se assumir enquanto mulher (Foto: Arquivo Pessoal)
A jovem de 19 anos precisou ganhar a coroa e passar pela pandemia da covid-19 para se assumir enquanto mulher (Foto: Arquivo Pessoal)

A Miss MS Diversidade Plus Size do ano de 2019 viu na conquista da coroa um sonho se realizar. Ashley Dias, 25 anos, afirma que os últimos 2 anos foram sim inspiradores e que poder colocar sua voz na luta por representatividade das gordas queers é algo bastante transformador – com ou sem covid.

"Ficar sem contato físicos uns com os outros é desesperador. Isso sem falar das tantas vidas perdidas. O calor humano é algo divino, mas ser inteligente nessas horas é mais ainda", garante. "Somos todos vidas. Enquanto bater o coração, vamos levar alegria, arte e cor ao mundo que agora mais do que nunca está precisando", considera.

Ashley é a drag queen que não se encontrava no "bate-cabelo", mas sim na pose de miss (Foto: Arquivo Pessoal)
Ashley é a drag queen que não se encontrava no "bate-cabelo", mas sim na pose de miss (Foto: Arquivo Pessoal)
Sonho de se tornar Miss Plus Size foi uma inspiração, mesmo que pelo fato inusitado dos 2 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Sonho de se tornar Miss Plus Size foi uma inspiração, mesmo que pelo fato inusitado dos 2 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela já tinha o costume de se montar nas baladas LGBTs, porém nunca se encontrou no estilo performático. "Juro que tentei o bate-cabelo, gente. Quando tive conhecimento do concurso me identifiquei. Fiz a inscrição em 2017 e me joguei de cara. Representando a cidade de Campo Grande, acabei levando o título de miss simpatia além do 4º lugar na competição. E isso sem a menor experiência. Já em 2019 participei de novo, ano em que a coroa veio para mim".

Edição 2021 – Já estão abertas as participações para o Concurso Miss & Mister MS 2021 além do Miss MS Diversidade Plus Size. As inscrições vão até o dia 5 de abril.

Os modelos vencedores garantem vaga para o Miss Brasil Gay, que acontece em agosto na cidade de Juiz de Fora (MG), além do Miss Brasil Gay Plus Size em outubro e o Mister Brasil, este último ainda sem data prevista.

Luanna, Rodrigo e Ashley em registro dos três juntos no concurso – presencial, é claro – do ano de 2019 (Foto: Arquivo Pessoal)
Luanna, Rodrigo e Ashley em registro dos três juntos no concurso – presencial, é claro – do ano de 2019 (Foto: Arquivo Pessoal)

Sem edição no ano passado – apenas em 2019 – a competição queer retoma no esquema não-presencial. "Faremos uma seleção mais aguçada. Geralmente, os candidatos giram em torno de 35-40 pessoas, porém com a pandemia serão apenas 5 para as categorias Mister e Miss Plus Size, e 10 para a de Miss", explica Frank Rossatte, organizador do evento regional.

"Se no dia do evento, marcado para 1º de maio, tivermos a possibilidade do presencial, faremos isso respeitando todas as regras de biossegurança. Caso contrário, continuaremos com o programado, isto é, a transmissão on-line", esclarece.

Com 13 anos por trás da produção do concurso, Frank revela que já testemunhou muita coisa incrível – e que neste ano não será diferente. "São coisas maravilhosas que acontecem, além das montagens incríveis e muita representatividade. Mesmo com a pandemia em andamento, o movimento é sempre o de inclusão", assegura.

Foi naquele ano que Ashley ganhou sua sonhada coroa; competição volta na edição 2021 após 2 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Foi naquele ano que Ashley ganhou sua sonhada coroa; competição volta na edição 2021 após 2 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Para participar, é necessário ser cidadão brasileiro nato ou naturalizado até o último ano e ter residência fixa no Brasil. Ainda, é imprescindível ser sul-mato-grossense e estar morando em MS há pelo menos 6 meses.

Segue abaixo a lista de obrigatoriedades:

  • Enviar foto de rosto
  • Enviar foto de corpo (vestido de gala)
  • Fazer vídeo-apresentação e desfile (máx. 2 min)
  • Preencher ficha de inscrição

As inscrições podem ser solicitadas pelo e-mail frankrossatte@gmail.com ou pelo número de telefone (67) 99151-6894. Outras informações podem ser conferidas na página oficial no Facebook.

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