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Artes

Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar

Há quase 30 anos, grupo luta para manter essas histórias vivas no Estado

Por Natália Olliver | 19/03/2026 06:22
Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Cristiane Aparecida de Luca Lima, Maria Ivonete Simocelli e Lucy Carlos (Foto: Osmar Veiga)

Há quase 30 anos, o grupo tenta manter viva a cultura folclórica no Estado, mas, a cada ano que passa, há uma decepção diferente e promessas que nunca levam a lugar nenhum. Parte da Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore recebeu o Lado B para contar por que a luta já dura tanto tempo, sem esperança de que ao menos os 4 mil itens de pesquisa, entre roupas, músicas e livros, tenham um lugar para guardar as histórias para as futuras gerações.

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Um grupo de professores luta há 22 anos para preservar o folclore de Mato Grosso do Sul, mantendo um acervo de 4 mil itens que inclui roupas, músicas e livros. O material, que não possui local adequado para armazenamento, documenta 38 danças tradicionais catalogadas em diferentes regiões do estado. A Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore, oficializada em 2009, baseia seu trabalho nas pesquisas da professora Marlei Sigrist, autora do livro "Chão Batido", considerado referência fundamental sobre o tema. O grupo enfrenta dificuldades financeiras e falta de apoio institucional, mantendo suas atividades com recursos próprios.

Todo o trabalho acontece por meio do projeto Cim, da Fundação Barbosa Rodrigues, em parceria com a gestão municipal e na pesquisa da professora Marlei Sigrist e de outros professores.

Quem conta parte de tudo são as professoras Cristiane Aparecida de Luca Lima, Maria Ivonete Simocelli e Lucy Carlos de Andrade. Sem espaço físico, sem apoio contínuo e com custos saindo do próprio bolso, elas seguem fazendo o trabalho que deveria ser compartilhado.

A Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore existe oficialmente desde 2009, mas a história começou bem antes, ainda no início dos anos 2000. Tudo nasce a partir da pesquisa da professora Marlei Sigrist e do trabalho de Júlio Feliz.

Não é exagero dizer que o que hoje se conhece sobre o folclore sul-mato-grossense passou, em grande parte, pelas mãos dela. O livro “Chão Batido”, produzido por Marlei, virou referência e é considerado como uma bíblia folclórica.

Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Grupo existe desde 2001, mas até hoje segue com dificuldades para manter a história do folclore em MS(Foto: Arquivo pessoal)

“O livro da Marlei é como uma bíblia folclórica para a gente. As danças são divididas em três categorias: danças da região do bolsão, que compreende Três Lagoas e Camapuã. Ali temos o Catira, Engenho de Maromba e Engenho Novo. Engenho de Maromba é uma dança que retrata o engenho da cana, os versos da música são versos que essas pessoas, enquanto estavam na lida, cantavam”, ressalta Cristiane, professora de arte e atual presidente da comissão.

O repertório não é pequeno. São mais de 38 danças catalogadas, organizadas por regiões culturais. No Pantanal, o destaque é o siriri, com letras ligadas à fauna e à flora, executado com instrumentos como a viola de cocho e percussões feitas de couro. Já na região de fronteira, as influências da Bolívia e do Paraguai aparecem em ritmos como a folca e o vaneirão.

Ela explica que são cerca de 4 mil itens reunidos ao longo dessas duas décadas. Livros, revistas, figurinos, instrumentos como viola de cocho e objetos antigos que contam a história de práticas culturais do estado. Tudo isso sem sede própria. O material fica espalhado, muitas vezes em locais improvisados ou alugados. O aluguel, inclusive, sai do bolso delas.

Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Catira, Vaneirão, Siriri, Ciranda pantaneira estão entre as 38 danças que grupo faz (Foto: Arquivo pessoal)

“O Catira já veio de Minas Gerais, da família Malaquias. Ele chegou em Camapuã, região de Figueirão, hoje Pontinha do Coxo. Há 110 anos ele trouxe a dança, a tradição da festa popular Divino Espírito Santo também”, conta.

O grupo tenta manter fidelidade às versões tradicionais, o que não é simples. Algumas danças exigem autorização dos mestres da cultura popular tradicional para serem executadas. Outras demandam meses de aprendizado. A catira, por exemplo, pode levar até um ano para ser dominada corretamente, exigindo precisão no ritmo e na leitura da viola, pelo menos no caso dela.

“Os tradicionais são todos iguais, o nosso pode mudar as roupas, mudar passos. A gente aprendeu a catira em até 1 ano. É muito difícil. A primeira vez tem que prestar atenção no toque da viola para saber que horas bater as mãos, pular. A dificuldade maior era a gravação das músicas, que não existiam gravadas. Fizemos parceria com Júlio Feliz para gravar no estúdio, usamos o nosso dinheiro para isso”.

O Grupo Camalote, um grupo parafolclórico criado por elas, nasceu da necessidade de mostrar a riqueza que existe por aqui. A proposta é divulgar as danças tradicionais do estado e as danças que pouco são divulgadas nas escolas.

Segundo elas, até professores muitas vezes nem conhecem as músicas e coreografias da própria região. A resposta delas foi prática. Levar essas danças para dentro das escolas. Um trabalho lento, descrito como “de formiguinha”.

Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Grupo luta há quase 30 anos para manter "folclore" vivo (Foto: Arquivo pessoal e Osmar Veiga)

Maria Ivonete explica que as escolas ensinam danças regionais que não são do Estado, mas não contemplam as próprias.

“Fizemos o projeto das danças folclóricas nas escolas. Nós aqui não dançamos muito as nossas próprias danças nas escolas, dançamos tudo menos o nosso. Muitos professores não conhecem as nossas próprias músicas. Tem o caranguejo, engenho de maromba, que a Marlei pesquisou há 20, 30 anos, e a gente queria que eles conhecessem e dançassem”.

Mesmo com a própria organização e dedicação, o grupo segue sem apoio. A tentativa de participar do Festival de Folclore de Olímpia (SP), por exemplo, esbarra há anos em um obstáculo básico: o transporte.

“Sempre apresentamos nos eventos as danças do Pantanal. A ciranda pantaneira não é folclórica, mas criada pela música do Grupo Acaba para representar o bioma. No siriri, os versos são todos da fauna e flora pantaneira, dança pulada, tocada com viola de cocho, um reco-reco e um instrumento feito de couro de boi. Se apresentamos em filas, bate palma”.

Maria Ivonete ressalta que todos da Comissão Sul Mato Grossense de Folclore e os membros do grupo lutam bravamente há mais de 30 anos pela valorização e conservação do acervo.

"O material está encaixotado na casa da Marlei há anos. Lutamos por um espaço físico para ser usado por alunos, pesquisadores. Essa é a luta de todos esses anos".

Lucy, que foi aluna de Marlei na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), entrou na comissão há 6 anos e descreve o que encontrou. Um acervo valioso sem espaço adequado e uma sensação constante de invisibilidade. O que sustenta tudo isso não é incentivo. É insistência.

“Eu fui aluna dela de 1997 a 2000 e tive o privilégio de ela ser minha orientadora. Nunca mais larguei ela. Ela é apaixonante. Eu comecei a perceber a angústia da Marlei e das meninas em não ter um espaço para trabalhar e organizar uma biblioteca para novas gerações, sendo que temos tanto material. Eu comecei a abraçar essa causa, o que move a gente é a gente saber o valor de tudo isso, o quanto é importante tudo isso para todos. A gente está escondido”.

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