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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

29/01/2017 07:05

De parto até separar briga, intérprete de Libras já fez de tudo um pouco na vida

Paula Maciulevicius
Intérprete Elizabeth junto do grupo de surdos que coordena na igreja. (Foto: Arquivo Pessoal)Intérprete Elizabeth junto do grupo de surdos que coordena na igreja. (Foto: Arquivo Pessoal)

Dos 51 anos de vida, os últimos 13 foram passados intermediando situações, interpretando palavras e testemunhando a vida de surdos em Campo Grande. Missionária da Igreja Presbiteriana, Beth trabalha em tempo integral como intérprete e vai onde onde for chamada, mesmo que isso signifique até apartar briga em casa. 

O interesse pela causa surgiu, segundo ela, "de Deus". Sem nenhum surdo na família, foi na prática que ela aprendeu depois de ser convidada à dirigir o grupo de surdos da comunidade religiosa. "Eu vi na língua a minha maior dificuldade e aprendi na convivência diária. Em seis meses estava falando fluentemente", diz Elizabeth Leopoldo Vieira.

Entre as maiores dificuldades encontradas ao longo dos sinais foi a entender e compreender a cultura surda. "Porque eles têm uma cultura própria, uma forma de ver o mundo. Eles não receberam muitas informações que nós ouvintes recebemos. Sabe quando você é criança e veste uma roupa e te falam: 'linda, fofinha'? Eles não recebem isso", exemplifica.

Com um dos bebês que assistiu nascer. (Foto: Arquivo Pessoal)Com um dos bebês que assistiu nascer. (Foto: Arquivo Pessoal)

Falando com propriedade, Beth diz que dentro de casa, muitas vezes, nem a própria família fala a língua do surdo. "Então eles criaram uma forma deles próprios compreenderem o mundo numa visão macro e a forma deles de ver a vida é 100% visual", explica.

A primeira saída como intérprete foi "clássica". Uma ida ao posto de saúde, onde ela usou pela primeira vez o sinal da dengue. "Eu fiquei pesquisando sinais médicos, técnicos e jurídicos e fui aprendendo", conta. Nervosa por ser a estreia dela, a explicação do paciente para o especialista e vice e versa veio com os sintomas de dores no corpo.

"Para o surdo foi uma questão de alívio. Ele não contava com ninguém da família aquele dia", recorda.

Nesta semana, foi a vez de um casamento, dos vários que ela já fez. O diferencial foi ser na Justiça Itinerante. "Me contataram e eu fui, porque sem a minha presença, o casal não poderia se casar", explica. E o passo a passo de todas as emblemáticas frases de um casamento são narrados: "do aceita" ou "pode beijar a noiva".

No entanto, não tem nada que lhe encha mais o coração do que estar presente na sala de parto. "Foram cinco já. Eu tenho que estar junto da mãe o tempo todo para qualquer orientação, inclusive no centro cirúrgico", fala. Até as trivialidades entre a equipe médica é narrada para a mãe num momento em que o nervosismo toma conta.

Beth durante o trabalho missionário, de interpretar a Bíblia. (Foto: Arquivo Pessoal)Beth durante o trabalho missionário, de interpretar a Bíblia. (Foto: Arquivo Pessoal)

O último parto foi assim durante nove horas. "Ela estava nervosa com a dor e eu ficava caminhando junto. O que equivale ao nosso ouvir do choro, por exemplo, é por os olhos no bebê ou entender pelos sinais que "o bebê saiu".

"O choro é complicado, porque uma pessoa que não entende sons, por exemplo, não vê isso com o mesmo valor que a gente. A primeira coisa que elas fazem é colocar os olhos na criança. Aí o semblante dela se transforma e fica uma cena linda", descreve Beth.

As brigas familiares também são encaradas como trabalho. Às pressas, a intérprete já foi chamada e até 'empurrada' por um surdo. "Ele gritava e eu cheguei lá em 15 minutos. Ele estava muito alterado, agressivo com as pessoas da família. Tive que intervir, porque quando você chega com a comunicação, as coisas mudam de situação", explica.

O que o rapaz em questão tinha era pensar que a família estava falando dele. "Quando chega a pessoa da interpretação, as coisas ficam claras e a situação amenizou. Mas antes disso ele me deu um bom empurrão", lembra rindo. 

E o que tinha tudo para ser briga, foi no fim, uma grande lição de amor. Um dos jovens da igreja chamou Beth para uma discussão familiar. Ele em questão sentia muita raiva do pai que o prendia em casa. "Ele queria saber porque era tratado daquela forma. E sabe o que o pai respondeu? 'Meu filho, eu faço isso para te proteger, porque eu te amo'. E foi a primeira vez que aquele menino soube disso. Foi muito marcante, ele não sabia que o pai o amava. Chorei e eles se abraçaram depois", narra. 

O aprendizado vai além das gírias e novas expressões que o vocabulário ganha. "Eu aprendo que eles têm uma capacidade incrível, que têm sentimentos e são tão capazes quanto os ouvintes. Eu cresci muito conhecendo esses meninos", resume.

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