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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

23/12/2017 07:10

Deócles encomendou a própria estátua para falar da dificuldade de vencer na vida

Thailla Torres
Estátua fica no Mem orial Park, no bairro Pioneira, em Campo Grande. (Foto: André Bittar)Estátua fica no Mem orial Park, no bairro Pioneira, em Campo Grande. (Foto: André Bittar)

Quem chega ao cemitério Memorial Park, em Campo Grande, se depara com uma estátua pra lá de simpática. A obra de um homem sorrindo parece ter muito a dizer sobre a vida. Por trás dos mais de 300 quilos de bronze e 1,60 metros de altura, existe uma trajetória de luta e perseverança desde a década de 80.

O homem da estátua é Deócles José Ferreira, que aos 81 anos mantém força e lucidez admiráveis. Miúdo no tamanho e cheio de humildade nas palavras, ele jura que não é do perfil que gosta de aparecer, mesmo assim conversa e repete a história de vida o quanto for necessário.

Deócles José Ferreira, aos 81 anos. (Foto:Paulo Francis)Deócles José Ferreira, aos 81 anos. (Foto:Paulo Francis)

Pouca gente sabe, mas a estátua no Memorial foi feita por ele, há 4 anos, para deixar de herança à família quando ele partisse. Mas os netos convenceram Deócles a instalar a obra em vida, abrindo mão de fazer a homenagem em um momento de ausência.

Pai de 7 filhos, 11 netos e 2 bisnetos. A sugestão partiu da neta, a psicóloga Raissa Ferreira que sempre admirou o avô, sobretudo, pelo amor e dedicação ao trabalho. "Descobrimos que ele estava estava preparando isso há tempos, fazendo os moldes e deixando tudo pronto para que a gente só visse quando ele falecesse. Mas o convencemos a realizar esse sonho de ter a estátua em vida".

Com direito a coral e Orquestra de Viola Caipira, no ano passado, a instalação ocorreu no dia em Deócles completou 80 anos de vida, na presença da família, amigos e clientes antigos. "Fizemos um suspense carregando essa estátua coberta pra lá e pra cá. Também criamos um espaço especial, semelhante a uma praça, para que ela ficasse posicionada da melhor forma e só no dia da inauguração foi revelada", descreve a neta.

Deócles é o bom humor em pessoa e um homem de sorriso aberto, que não esconde a felicidade pela obra idealizada por ele. "Nossa, foi uma surpresa e festa formidável. Aqueles violeiros foram encantadores, uma história que nunca nossa família irá esquecer", diz Deócles.

Maleta com o primeiro contrato fechado é representada na estátua. (Foto:André Bittar)Maleta com o primeiro contrato fechado é representada na estátua. (Foto:André Bittar)
Sempre sorridente, é assim que Deocles deseja ser lembrado. (Foto:André Bittar)Sempre sorridente, é assim que Deocles deseja ser lembrado. (Foto:André Bittar)

O monumento foi inspirado na admiração que o empresário tem por estátuas. "Sou mineiro e como bom mineiro, adoro estátuas e tudo que há por trás de cada uma delas. E seja de pessoas conhecidas ou distantes, todo mundo tem um pedacinho da sua história pra contar".

Hoje ela virou um ponto de visitação no cemitério. "Tem cliente que tira foto, acha que é santo e até  fica intrigado quando me vê andando por ali e sabe que estou vivo".

Mas a homenagem não foi dada atoa. Embora mineiro, Deócles tem uma história enraizada em Campo Grande desde que fundou a empresa em 1979.

Depois de uma conversa com um amigo que lhe contou sobre a venda de caixões em Goiás, Deócles questionou se esse tipo ofício realmente dava certo. "Até questionei: tem gente que realmente compra isso? Ele me disse que sim e nós viemos para Campo Grande, depois de um período na Bahia analisando sobre esse mercado".

Mas em Campo Grande a história foi outra. A oferta funerária sofria resistência de moradores que não compreendiam o serviço como uma necessidade ao longo da vida. Foi preciso muita persistência para dar início ao trabalho.

"Ouvi muita besteira e até xingamentos. Algumas pessoas se ofendiam com a minha oferta, mas totalmente compreensível. Imagina como era naquele tempo chegar na casa de uma família oferecendo um caixão e assistência na hora da morte. As pessoas não aceitavam, pensavam que eu estava indo à casa delas gorar a vida. Tanto que durante muito tempo quando eu conseguia passar do portão e falava do plano, o morador levantava, abria a porta e mandava eu ir embora".


Foi assim durante três meses  até 21 de março de 1979, quando Deócles depois de muito tempo batendo de porta em porta, conseguiu fechar o seu primeiro contrato e convencer um morador a comprar o plano de assistência funerária daquele tempo. "Ali nasceu a Pax Real do Brasil que tem 38 anos de história. Naquele pastinha que eu estou segurando na estátua, coloquei o meu primeiro", diz. 

História que agora foi perpetuada e Deócles faz questão de contar com orgulho. "Toda história merece ser contada e bem contada. Principalmente para que minhas gerações tenham uma boa lembrança".

Deócles ganhou reconhecimento pelo sucesso da empresa ao longo dos anos, mas nunca abriu mão da humildade e afeto àqueles que mesmo em um momento de dor, estavam sempre ao seu lado. "Perder alguém que a gente ama não é fácil. Por isso eu entendi todas as vezes que alguém não quis falar comigo. Mas nesse tempo todo eu só consigo agradecer pela confiança de todos os meus clientes. Que mesmo no momento mais difícil da vida, confiaram em mim, na minha equipe e contribuíram para essa caminhada".

E apesar do reconhecimento, Deócles não é do tipo que só quer ser lembrado pelo patrimônio, mas pela honestidade e perseverança que conseguiu transformar a vida da família. "Tenho prazer em contar minha história e voltar no tempo sem nenhum receio de falar todos os detalhes da minha vida. Porque sempre caminhei com honestidade e seriedade no meu trabalho".

 

 

Estátua é preservada com todo carinho pela família e virou atração em cemitério. (Foto: André Bittar)Estátua é preservada com todo carinho pela família e virou atração em cemitério. (Foto: André Bittar)


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