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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

06/06/2018 08:00

Em ateliê de chão batido, pernambucana faz de colchas de fuxico a sobrevivência

Anália sustenta 4 filhos e 3 netos, já perdeu gente que amava assassinada, mas continua firme como equilíbrio da família

Willian Leite
Na varanda de casa o trabalho não para, nordestina lutadora Anália recebe quem chega, conversa e da risada, mas não para sua produção. (Foto:Paulo Francis)Na varanda de casa o trabalho não para, nordestina lutadora Anália recebe quem chega, conversa e da risada, mas não para sua produção. (Foto:Paulo Francis)

Costurando retalhos de pano, aos 67 anos dona Anália Corina da Silva vai montando a colcha de fuxicos, uma forma de aumentar a renda de R$ 780,00. E a sobrevivência não é fácil. A nordestina, de Caruaru (PE), mãe de 13 filhos, avó de 14 netos e 12 bisnetos, é o equilíbrio da família, e apesar das dificuldades, continua também como o sorriso solto dentro da casa simples, metade de alvenaria, metade de madeira e chão batido.

Em uma cadeira de plástico, com uma almofada surrada, no canto de um puxadinho com garrafa de café, agulha, tesoura e linhas, Anália encontra o refrigério para a alma e sossego para amenizar o início de semana quando nem comida há para colocar na panela. Mas não tem tempo ruim. “Na minha casa moram quatro filhos e três netos comigo. Minha filha às vezes me pergunta como tenho forças pra aguentar tantas coisas ruins que passamos todos os dias? Minha resposta é simples: Se Deus quis assim bola pra frente, pois não há tempestades eternas”.

Ao Lado B ela conta sua trajetória. “Trabalho na roça desde os nove anos, lá no Pernambuco o trabalho era braçal mesmo, se não trabalhasse, não tinha dinheiro nem pra comprar um vestido e muito menos para comer”, conta.

Quando chegamos a casa os filhos estavam todos ao redor é assim também na hora do sustento. “Sou analfabeta, mas isso não interfere em minha dignidade, o que mais prezo são meus filhos e netos, independente do que eles são, se eu não estiver ao lado, quem vai estar?”, diz com sorriso no rosto.

O sotaque é marcante. A vinda para Campo Grande há 37 anos não mudou e os dialetos da região de origem, nem a disposição. “Acordo às seis da manhã, jogo água nas plantas, limpo o quintal e me sento aqui no meu cantinho. Um pouco mais tarde almoço, limpo as louças descanso e volto pra cá”. 

Na conversa o jeito alterado de falar, deixa quem não a conhece assustado. Os detalhes no olhar e na fala aguda, demonstram para quem está ouvindo e vendo, a simplicidade da mulher que sofre com a falta de condições mínimas de sobrevivência. “Hoje mesmo, não tenho nada pra comer e nem para oferecer a meus filhos, mas é como Deus quer, um dia tem, outro não e assim a vida segue”.

Em uma das pancadas do destino, Anália perdeu um neto há nove anos o que foi um trauma difícil de superar, um divisor de águas na vida da mulher que já havia passado por maus bocados. A situação fez com ela perdesse no momento à vontade por passear, dançar que é o que gostava de fazer.

No improviso caixas de sapatos se tornaram armário para organizar os materiais de trabalho. (Foto: Paulo Francis)No improviso caixas de sapatos se tornaram armário para organizar os materiais de trabalho. (Foto: Paulo Francis)

Os restos de panos espalhados pela casa são doados e viram jogo de banheiro, passadeira pra mesa, capa para almofadas e até bonecas. Fazer isso se tornou nos últimos 10 anos a especialidade de Anália. As marcas vão ficando nos dedos furados. “Para montar, no caso da colcha de casal, conto um a um fuxico e alinhavo fileira a fileira, e só depois junto e costuro” afirma Anália orgulhosa por ter encontrado uma saída para viver uma vida “amargosa”, mas bem vivida.

Ela leva de um a três meses para finalizar uma colcha e diz que vende barato, cobra em torno de R$ 120,00. “Mesmo com todo esse trabalho, as pessoas acham alto o valor, mal sabem elas que às vezes não tenho nem o leite para tomar os meus remédios que são fortes”. Pergunto se no caso de conseguir profissionalizar o negócio não seria melhor para ela e a família? Se isso traria mais renda e condições para viver. A resposta foi sucinta “Quero ver o povo pagar e outra, isso aqui além de gostar é uma terapia pra mim e me ajuda a continuar a ter vontade de viver. Acho que se não costurasse já teria morrido”, assegura.

A mãe, vó e amiga só deixa as agulhas de lado quando a luz do dia vai embora e termina o trabalho dizendo que o que acaba com seu dia é não poder socorrer os filhos. “Quando meus filhos ou netos vêm me procurar, pedindo ajuda e eu não tenho condições” diz.

O armário para organizar as coisas de costura são caixas de sapato, três para ser mais exato, em uma um pouco de tiras de retalho, na outra a tesoura e agulhas. E é nesse lugar simples que nascem as obras de arte .

Quem quiser conhecer ou comprar as peças, o ateliê fica na rua Cosmorama, número 7 no bairro Vila Margarida. O telefone para contato no caso de encomendas é o (067- 992336631).

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