A cada chuva, oração e improviso viram defesa para quem mora em barraco
Moradores lamentam água entrando nas casas, pertences sendo perdidos e madrugadas passadas em claro

Bastam os primeiros pingos para a aflição e o medo tomarem conta das famílias da Comunidade Lagoa Park, vizinho do Jardim Batistão. Todos já sabem o que vem pela frente: água entrando nos barracos, pertences sendo perdidos e a madrugada passada em claro tentando salvar o que for possível.
RESUMO
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A Comunidade Lagoa Park, em Campo Grande, enfrenta graves problemas durante períodos chuvosos. Cerca de 70 famílias vivem em 215 barracos improvisados, sofrendo com alagamentos frequentes que danificam móveis, eletrodomésticos e estruturas das moradias precárias. O início de 2026 tem sido especialmente difícil, com Campo Grande registrando 151,4 milímetros de chuva em janeiro, três vezes mais que no ano anterior. O Inmet mantém alerta laranja para chuvas intensas em todo Mato Grosso do Sul, com previsão de até 60 milímetros por hora e ventos de até 100 quilômetros por hora.
A chuva na madrugada desta quarta-feira (25) repetiu esse cenário que já é conhecido pelos moradores. No local tem, pelo menos, 70 famílias, morando em 215 barracos improvisados com lonas e materiais frágeis.
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Como toda chuva, essa noite não foi diferente. Foi necessário levantar móveis, puxar lonas, reforçar telhas trincadas e torcer para que a estrutura aguente até o amanhecer.
A dona de casa, Roselene Aparecida dos Santos, de 59 anos, mora na comunidade há 2 anos e 3 meses com o marido e o neto de 10 anos, que ela cria como filho. Antes vivia no Guanandi, mas as dificuldades apertaram.
“Mesma situação sempre. Molha muito, é muito complicado. Já perdi roupa, coberta, fogão, colchão molha bastante. Toda vez que chove tem que improvisar alguma coisa, coloco lona em cima das roupas para não molhar. Todo mundo fica desesperado, é muito preocupante”, lamentou.
Ela conta que as paredes vão absorvendo a água até desmanchar. “As paredes da minha casa vai molhando e vai desmanchando, aí acaba caindo.”
O neto percebe o medo da avó e tenta tranquilizá-la. “Ele fala: ‘Vó, vamos ficar aqui que não vai molhar’. Ele pensa em mim”, lembrou com carinho.

Há uma ironia que os próprios moradores comentam com um misto de humor e tristeza. O bairro não é só lagoa no nome, já que a água toma conta de tudo. “O pessoal fala que é sapo. Sapo está na lagoa, né”, disse tentando aliviar a situação da realidade em que vive.
A dona de casa Talia de Barcelos, de 25 anos, é vizinha de Roselene. Ela vive na Lagoa Park há 3 anos. Mora com o marido e os três filhos, de 5 anos, 6 anos e um bebê de 6 meses.
“No momento, eu estou na fé para a gente conseguir fazer uma pecinha para garantir, porque qualquer hora pode acontecer de cair. Todo dia eu peço para Deus para não chover forte”, ressaltou com brilho nos olhos.
Em uma ventania recente que ela relata, o medo foi maior. “Eu pensei em botar meus filhos dentro da geladeira, porque a casa balançava, parecia que ia cair.”
No último domingo (22), a chuva de granizo quase destruiu a telha de sua casa. “Na chuva de gelo que teve, minha casa trincou as telhas. A gente teve que botar lona, mas não resolveu, entrou água mesmo assim”, lamentou.
A água atingiu a geladeira, que queimou após uma queda de energia. “Estragou tudo da geladeira”.
O marido, auxiliar de eletricista, está afastado e a renda diminuiu drasticamente. A família tenta sobreviver vendendo sabão caseiro. Dois litros custam R$ 10. No mês passado, conseguiram cerca de R$ 100 em vendas.
A cabeleireira Marilza Eleoterio, de 48 anos, que é líder de comunidade, conhece de perto cada história de prejuízo. Ela mora há três anos na comunidade com o esposo e o filho. Antes, vivia no Bairro Los Angeles, mas por dificuldades teve que passar a morar no barraco, após ganhar o lote, segundo ela.
“Toda noite de chuva, é no outro dia que a gente fica sabendo do estrago. Molha muito. Quando não molha por cima, molha por baixo. O que a gente faz é subir em cima da cama se não tiver molhando”, contou.
As perdas se acumulam. “Três geladeiras minha já queimaram com esse negócio de chuva. Roupa de cama molha tudo, não dá tempo de secar. Não tem o que fazer, é esperar passar.”
Mais do que o esperado – O início desse ano tem sido de chuvas frequentes. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Campo Grande registrou 151,4 milímetros de chuva em janeiro de 2026. O volume é 100 mm a mais que os 50,8 mm registrados em janeiro de 2025. Entre 15 e 22 de fevereiro, o acumulado de chuva ficou em 58,2 mm.
Diariamente, o Inmet tem renovado o alerta de chuvas intensas em todos os municípios de Mato Grosso do Sul. O aviso laranja, com grau de severidade ”perigo” termina na sexta-feira (27). A previsão é de chuva entre 30 e 60 milímetros por hora ou 50 e 100 milímetros ao dia. Os ventos devem ser intensos, entre 60 e 100 quilômetros por hora.
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