Em Estado conservador, Associação das travestis chega aos 25 anos
Criada no início dos anos 2000, ATTMS foi uma resposta a episódios de violência e mortes de mulheres trans
RESUMO
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A Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS) completa 25 anos em 2026, marcando uma trajetória de luta contra a violência e discriminação. Fundada em 2001 por Cris Stefanny, a organização surgiu em resposta aos altos índices de violência contra pessoas trans em Campo Grande. Ao longo de sua existência, a ATTMS contribuiu para importantes conquistas, incluindo a aprovação de legislação contra LGBTfobia em 2005 e a implementação de políticas públicas específicas. Apesar dos avanços, a associação continua lutando por direitos básicos como moradia, emprego e segurança para a população trans.
Criada em meio a um cenário de violência, perseguição policial e invisibilidade, a ATTMS (Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul) completa 25 anos de existência em 2026. A marca é simbólica não apenas pela longevidade da entidade, mas pelo contexto em que ela nasceu. Em um Estado de perfil conservador, marcado por forte influência religiosa, e por uma histórica exclusão da população LGBTQIA+, especialmente de mulheres trans.
A Associação surgiu no início dos anos 2000 em Campo Grande, e foi uma resposta direta a uma sequência de episódios de violência física, prisões arbitrárias, torturas e índice crescente de assassinatos de pessoas trans. À época, Mato Grosso do Sul figurava entre os estados com maiores índices de mortes dessa população, enquanto políticas públicas praticamente inexistiam.
À frente desse processo esteve Cris Stefanny, nordestina, travesti, liderança social e fundadora da ATTMS. Hoje estudante de Direito, Cris conta que teve uma trajetória marcada pela sobrevivência precoce, pelo trabalho infantil, pela prostituição compulsória e pela militância construída “na pele”. Ela foi a entrevista desta semana no podcast Epi Mania.
“Eu nunca fui uma pessoa de ter medo da vida. Com oito anos eu derrubava mato para fazer roçado, com dez eu cortava cana, com doze vendia salgado na rua em Campo Grande. Sempre foi peleja”, relembra.
Violência como rotina e a urgência de reagir - No final da década de 1990 e início dos anos 2000, a violência contra travestis em Campo Grande era sistemática. Segundo Cris, batidas policiais, conhecidas como “arrastões”, recolhiam prostitutas, pessoas em situação de rua e usuários de drogas, muitas vezes sem qualquer acusação formal.
“A polícia batia, torturava, levava a gente para as rodovias. Eu olhava aquilo e pensava que não estava certo. Não era legal. E as próprias meninas diziam que eu era doida, que eu ia morrer se enfrentasse”, conta.
Segundo ela, a repressão se apoiava em práticas de “higienização social”, usando de forma arbitrária a antiga noção de vadiagem, mesmo já caída em desuso jurídico. “Não existia política de encaminhamento, de trabalho, de dignidade. Tiravam da rua e pronto. No dia seguinte estava todo mundo de volta, mais revoltado ainda”, destaca.
Influência nacional e o embrião da ATTMS - A virada veio após Cris participar, ainda muito jovem, de um Encontro Nacional de Travestis que atuavam na luta contra a AIDS, em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. O evento reuniu mais de 200 travestis de todo o Brasil e tinha forte ligação com os movimentos sociais surgidos a partir da epidemia de HIV nos anos 1980 e 1990.
“Ali eu conheci a Janaína Dutra, a primeira advogada travesti do Brasil. Elas falavam de direito, de cidadania, e eu pensava: ‘que direito é esse, se a minha realidade é apanhar?’ Mas aquilo me encantou”, relata.
A partir desse contato com movimento que já avançava no Nordeste, Sul e Sudeste, Cris percebeu o atraso do Centro-Oeste. “Enquanto outros estados se organizavam, Mato Grosso do Sul ficava para trás. Era a Terra do agro, do ogro, e aí veio uma doida da Paraíba resolver enfrentar isso”, afirma.
Fundação em meio ao medo - O processo de criação da ATTMS não foi simples. A primeira reunião contou com apenas cinco pessoas. Na seguinte, restaram duas. O medo era constante, inclusive, dentro da própria comunidade. “As pessoas viviam escondidas. Não alugavam casa para travesti. A gente entrava de madrugada, saía só à noite. Éramos seres noturnos”, relembra.
Mesmo assim, em 13 de janeiro de 2001, a ATTMS foi oficialmente fundada, com estatuto, mais de 40 pessoas presentes e participação de instituições como Polícia Militar, Ministério Público, Defensoria Pública e imprensa.
Desde o início, a entidade adotou uma postura combativa. Denúncias foram feitas contra policiais, corregedorias acionadas e reuniões forçadas com o Estado. “Já sofri ameaça de morte, tentaram me colocar no programa de proteção à testemunha. Já me ofereceram dinheiro para eu ‘sumir’. Preferi continuar lutando”, revela.
Avanços concretos e políticas públicas - Ao longo de 25 anos, a ATTMS participou diretamente da construção de políticas públicas em Mato Grosso do Sul. O Estado foi um dos primeiros a aprovar legislação contra a LGBTfobia, ainda em 2005, com sanções administrativas para empresas e agentes públicos. “Muito antes do STF decidir, a gente já tinha lei aqui”, conta.
Hoje, o Estado conta com subsecretarias, coordenadorias municipais, conselhos, centros de referência e políticas de saúde específicas, além de reconhecimento do nome social e diretrizes para atendimento no SUS. “Hoje você vê uma trans trabalhando no shopping, estudando na universidade, atendendo em loja. Isso é fruto dessa luta, embora ainda não seja a realidade da maioria”, pontua.
Apesar dos avanços, Cris alerta que a luta ainda é pelo básico. “Antes era para não morrer no camburão. Hoje ainda é por casa, comida, emprego. A luta ainda é pela existência”, detalha.
Para Cris, o foco precisa ser política de Estado, e não de governo. “Não me interessa se é esquerda, direita ou centro. Me interessa resolver. Emprego, moradia, saúde, segurança. Isso é dignidade”, explica.
Ao olhar para trás, Cris reconhece que jamais imaginou chegar aos 25 anos, nem ela, nem a entidade. “A expectativa de vida de uma travesti era de 27 anos na época em que a Associação foi criada. Eu tinha 19. Chegar até aqui já é uma vitória”, finaliza.
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