Entre cerâmica e erva-mate, mulheres mostram caminhos de autonomia financeira
Expositoras contam como o empreendedorismo mudou suas trajetórias

Enquanto o palco principal reunia autoridades e a empresária Luiza Helena Trajano, da Magazine Luiza, para discutir empreendedorismo feminino e políticas públicas, nos corredores do Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo outras histórias davam dimensão prática ao tema.
RESUMO
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O evento "Todas Diferentes, Todas Importantes: Elas Protagonistas", realizado pelo Governo de Mato Grosso do Sul, reuniu artesãs e pequenas empreendedoras que encontraram no trabalho manual uma forma de conquistar autonomia financeira. Entre as expositoras, histórias como a de Samara Bertoche, que trocou o setor de recursos humanos pela cerâmica, e Maria Auxiliadora Bezerra, artesã terena que representa sua comunidade. O encontro contou com a participação da empresária Luiza Helena Trajano, que destacou a importância da independência econômica feminina como ferramenta contra a violência doméstica. As expositoras compartilharam experiências sobre como o empreendedorismo transformou suas vidas, superando preconceitos e construindo alternativas de renda própria.
Artesãs e pequenas empreendedoras convidadas para expor produtos durante o evento “Todas Diferentes, Todas Importantes: Elas Protagonistas”, realizado pelo Governo de Mato Grosso do Sul, aproveitaram a oportunidade para mostrar trabalhos que, em muitos casos, nasceram justamente como alternativa de renda e autonomia.
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Entre as bancadas montadas no local, a artesã Samara Bertoche, de 28 anos, expôs peças de cerâmica e utensílios de cozinha produzidos por ela mesma. Para a empreendedora, participar do evento representa mais do que uma oportunidade de venda: é também um reconhecimento da trajetória construída após decidir mudar de carreira.
“Para mim é uma honra estar num evento como esse, ainda mais sabendo da luta das mulheres ao longo do tempo. Estar aqui mostrando um pouco do meu trabalho é muito gratificante, porque a gente sabe que a luta da mulher é todo dia”, afirmou.
Antes de viver do artesanato, Samara trabalhava no setor de recursos humanos. A decisão de transformar o hobby em profissão foi recebida com desconfiança por pessoas próximas.
“Quando decidi trabalhar com artesanato, ninguém acreditou em mim. Muita gente perguntava se isso realmente dava futuro, se dava dinheiro, se era profissão. Estar aqui hoje representa uma conquista, não só para mim, mas para mostrar que é possível sim trabalhar com artesanato”, disse.
Ela também acredita que ainda existe pressão social para que mulheres limitem seus projetos pessoais à vida doméstica. “Tem muita gente que ainda acha que a mulher só deve ficar em casa, cuidando da família. Muitas mulheres nem chegam a pensar que podem ter uma carreira. Desde cedo a gente é incentivada a amadurecer rápido e assumir responsabilidades”, comentou.
Entre as expositoras estava também a artesã Maria Auxiliadora Bezerra, de 53 anos, moradora da aldeia urbana Marçal de Souza, em Campo Grande, da etnia Terena. No estande, ela apresentava peças produzidas por diferentes mulheres da comunidade.
Para Maria Auxiliadora, ocupar espaços como o evento estadual representa visibilidade e valorização da produção indígena. “Ser reconhecida como empreendedora, valorizando a nossa cultura e sendo convidada para um evento desses, é muito positivo. Eu sou daquelas que não perde oportunidade. Se me chamam, eu venho, porque é uma forma de mostrar que estamos aqui”, afirmou.
Segundo ela, a presença indígena em ambientes institucionais ainda é limitada e, por isso, cada convite é visto como uma chance de ampliar a representação. “Às vezes eu penso: quantos indígenas nunca pisaram aqui no Centro de Convenções? Então quando a gente traz a nossa arte para cá é uma forma de mostrar que existimos e que a nossa cultura também tem valor”, disse.
Maria Auxiliadora também ressaltou que os desafios enfrentados pelas mulheres vão além das diferenças culturais. “A violência, a discriminação e o machismo estão em todas as etnias. Não é uma realidade só de mulheres indígenas”, afirmou.
Ela considera importante a presença de referências femininas no empreendedorismo, como Luiza Trajano, convidada para participar do painel principal do evento. “Quando soube que ela viria, fui pesquisar mais sobre a história dela. Ela é referência de superação e empreendedorismo. É importante ter exemplos assim”, comentou.
Outra história apresentada no evento foi a da empreendedora Luciana Kaninoski, de 36 anos, moradora de Maracaju. No estande, ela expôs produtos ligados à cultura do tereré e artigos confeccionados com erva-mate, além de peças artesanais.
Luciana conta que começou a empreender após se tornar mãe ainda adolescente. A necessidade de gerar renda sem sair de casa foi o que levou ao artesanato. “Empreender foi uma virada de chave na minha vida. Eu fui mãe aos 16 anos e morava no interior da minha cidade, a cerca de 50 quilômetros. Foi no artesanato que encontrei uma fonte de renda”, relatou.
Com o tempo, a atividade evoluiu e se transformou na principal fonte de sustento da família. “Hoje o artesanato virou a minha empresa. Foi assim que eu me descobri como mulher, como empreendedora e como gestora do meu próprio negócio”, disse.
Para ela, compartilhar a experiência pode incentivar outras mulheres que enfrentam dificuldades semelhantes. “Muitas vezes a mulher não consegue trabalhar fora porque não tem com quem deixar os filhos ou não tem rede de apoio. Mostrar que é possível empreender de casa, começar pequeno e construir algo maior é muito importante”, afirmou.
Luciana também acredita que o empreendedorismo pode ser uma ferramenta de transformação social, principalmente para mulheres que enfrentam situações difíceis. “Quando a gente fala de trabalhar e empreender com artesanato, isso também envolve mulheres que estão passando por momentos difíceis ou vivendo situações de violência. Ter renda própria pode ser um caminho para reconstruir a vida”, disse.

Durante o evento, a empresária Luiza Trajano reforçou essa mesma ideia ao defender que a independência financeira pode ajudar mulheres a sair de relações abusivas. “A mulher também precisa ter independência econômica. O empreendedorismo pode dar essa libertação, porque muitas conseguem sair do ciclo de violência quando têm renda própria”, afirmou.
A empresária também destacou que enfrentar a violência contra mulheres exige mobilização coletiva. “Eu não acho que é só o empreendedorismo. Primeiro é uma união entre homens e mulheres, porque se o homem não entrar nessa luta dificilmente a gente tira essa violência”, declarou.
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