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Campo Grande, Domingo, 26 de Maio de 2019

19/12/2018 08:36

Esperança de quem pede irmão e amor dos pais supera 12h de serviço do Papai Noel

Pedidos e sonhos da criançada são esperança, que supera qualquer cansaço do Bom Velhinho que trabalha de 7 a 12 horas por dia em shoppings de Campo Grande

Thailla Torres
Aldo é o mais novo no ofício, que trabalha 12 horas por dia como Papai Noel do shopping Norte Sul Plaza há 2 anos. (Foto: Kísie Ainoã)Aldo é o mais novo no ofício, que trabalha 12 horas por dia como Papai Noel do shopping Norte Sul Plaza há 2 anos. (Foto: Kísie Ainoã)

À primeira vista parece exaustivo o trabalho por trás da roupa vermelha com detalhes em branco, costurada especialmente para os 40 dias de contrato do Papai Noel em shopping da cidade, que trabalha de 7 a 12 horas por dia. Mas ao lado dos momentos vividos com o personagem, os sonhos de Aldo, Josino e Roberto, que olham o trabalho como Papai Noel uma mudança de vida, falam mais alto do que qualquer cansaço.

Para o mais novo no ofício, Aldo Lothar Stentzlel, de 70 anos, que trabalha das 10h às 22h com as vestimentas do Bom Velhinho, tudo começou ao ver emoção das crianças com o saco de presentes. “A barba foi ficando branca e falaram pra mim que eu tinha que ser Papai Noel, quando me vesti a primeira vez nunca mais parei, é lindo ver uma criança feliz”, conta.

Na poltrona que tornou-se sua casa ele trabalha há dois anos. O tempo livre, segundo Aldo, é de 10 minutos “para comer um lanchinho”. No resto do dia, faz pequenos intervalos para ir ao banheiro e tomar água.

Josino trabalha 7 horas por dia como Papai Noel no Bosque dos Ipês. (Foto: Kísie Ainoã)Josino trabalha 7 horas por dia como Papai Noel no Bosque dos Ipês. (Foto: Kísie Ainoã)

Mesmo que o tempo de trabalho pareça exorbitante, ele conta que a maior recompensa não está na quantia, mantida em segredo, que recebe para participar da programação natalina. “É no encantamento, principalmente das crianças, que chegam aqui cheias de sonhos e saem acreditando que um pedido pode ser realizado”.

Ao questionar sobre a preparação, ele explica que experiência de vida garante fôlego para a maratona de fotos, abraços e sorrisos durante as festividades. “A gente não é criado com os fracos”, brinca Aldo. “Sempre fui da roça, de aguentar lavoura e sol quente. Então, essa roupa aqui a gente aguenta. Tanto que nem fome a gente sente”, garante.

Também é preciso desapego explica o Papai Noel que fora da temporada trabalha como representante comercial de energia fotovoltaica. “Não dá tempo de olhar o Whatsapp, só respondo cliente depois das 23h e peço para retornar em janeiro”.

A situação é bem semelhante com Josino Macedo Falcão, de 59 anos, que há uma década se veste de Papai Noel e hoje fica sentado das 15h às 21h em um dos três maiores shoppings da cidade. Apesar do pouco tempo para comer ou descansar, o que vale a pena fica guardado no saco de presentes que ele deixa ao lado da poltrona.

Ao vasculhar o saco vermelho, ele tira dezenas de cartinhas que já recebeu por ali desde o início da campanha. Ele torce para que sejam adotadas, uma delas, ele já até levou para casa e comprou o presente. “Tem um menino aqui que não fala, vem sempre com a irmã e tudo que ele quer é uma baqueta. Eu comprei e estou esperando que ele venha buscar”.

Além de muitos pedidos, Josino Recebe inúmeras cartinhas que ficam guardadas no saco de presentes. (Foto: Kísie Ainoã) Além de muitos pedidos, Josino Recebe inúmeras cartinhas que ficam guardadas no saco de presentes. (Foto: Kísie Ainoã)

Ao chegar perto, as crianças não deixam de observar a barba branca e nem de garantir que o Papai Noel atenda aos pedidos. “Papai Noel eu estou obedecendo”, diz uma menina, de três anos.

Mas não basta ouvir, diz Josino. Está na preparação do Papai Noel falar o que acha certo. “Eu também aconselho, falo que é preciso ser educado, respeitar o próximo e sempre amar. Papai Noel tem que fazer o bem”, acredita.

Para um dos mais antigos, em tempo de ofício, no mais velho shopping da cidade, a alegria é ver criança e adulto acreditando no espírito de Natal. Durante os 30 minutos de intervalo Roberto de Ribeiro de Oliveira, de 65 anos, jura que não se cansa do trabalho feito há 13 anos no mesmo lugar. “Isso é uma alegria pra mim”.

Foi por coincidência que tudo começou, lembra. “Eu estava no shopping com a minha família e tinha outro Papai Noel aqui. Ele ainda brincou dizendo que eu ia roubar o lugar dele por causa da minha barba branca natural, e não deu outra. A gerente das lojas Pernambucanas me chamou para trabalhar e aceitei”.

Todo ano é o mesmo ritual para o aposentado que procura chegar discretamente ao shopping para deixar os bastidores como Papai Noel de corpo e alma. “Sou um Papai Noel de verdade, não existe um de mentira”, brinca. “Minha alegria é ver muitos pais voltando a acreditar no Natal graças aos filhos, acho que essa é a maior recompensa”.

Roberto é o mais antigo, trabalha há 13 anos como Papai Noel no shopping Campo Grande. (Foto: Kísie Ainoã)Roberto é o mais antigo, trabalha há 13 anos como Papai Noel no shopping Campo Grande. (Foto: Kísie Ainoã)

Pedidos – Apesar do jogo de cintura e o comportamento discreto fazer parte da negociação na hora de ser Papai Noel, cada bom velhinho assume que nem sempre é fácil segurar a emoção na hora de receber os pedidos.

Neste ano, entre milhares de bonecas Baby Alive, slime, carrinho de controle remoto e até drones, o que balança o coração do Papai Noel são os pedidos de amor, carregados de um olhar carente e até desesperador. “O que mais me emocionou até agora, foram três crianças que me pediram para que os pais parem de brigar em casa. Isso corta o coração da gente, porque elas pedem baixinho, dizendo que querem paz na família”, conta Aldo.

Para Josino o mais emocionante foi o pedido de uma criança por um irmão. “Ele diz que se sentia sozinho, queria um irmãozinho para brincar, emociona muito a gente”.

Já Roberto, entre milhares de pedidos ao longo dos 13 anos de ofício, o que sempre trás uma pontinha de esperança é o pedido de paz no lugar de qualquer presente. “Tem muita criança que senta aqui dizendo que não quer brinquedo, ela só quer saúde e paz para a família, é ou não é para deixar a gente com esperança?”.

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