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Campo Grande, Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

30/05/2017 08:01

Existe chance de andar, mas não quero, tenho liberdade em cima da minha cadeira

Isso de ser triste por causa da limitação nunca existiu na vida de Lis

Thailla Torres
Lis nasceu Artrogripose Multipla Congênita e só andou até os 10 anos de idade com ajuda de aparelhos ortopédicos. (Foto: Hector Diego)Lis nasceu Artrogripose Multipla Congênita e só andou até os 10 anos de idade com ajuda de aparelhos ortopédicos. (Foto: Hector Diego)

Nas redes sociais, Lis Loureiro não se intimida. Assim como na vida real, ela encara de cabeça erguida os desafios da deficiência física. Nascida com Artrogripose Multipla Congênita, Lis só andou até os 10 anos de idade com ajuda de aparelhos ortopédicos. O cansaço diante das cirurgias e do sofrimento na tentativa de andar, a fez cansar e  encarar a cadeira de rodas para o resto da vida. Hoje, aos 26 anos, Lis apoia todos que lutam pelo primeiro passo novamente, mas fez sua escolha e, por isso, no Voz da Experiência ela descreve que a tristeza por conta da limitação já não existe.

Ensaio que ela fez no ano passado.  (Foto: Hector Diego)Ensaio que ela fez no ano passado. (Foto: Hector Diego)

"Sempre tive a deficiência e consegui entender isso. Nasci com Artrogripose Multipla Congênita, uma síndrome que pode acontecer na terceira semana de gestação e em diferentes graus. O primeiro só atinge os membros inferiores, que foi o meu caso. O outro atinge parte inferior e superior do corpo. De modo geral, os problemas da articulação característicos da Artrogripose ocorrem devido à falta de movimentação dentro do útero.

Os tratamentos começaram logo na infância, com objetivo de dar o máximo de independência possível. Algumas intervenções também foram feitas, cheguei a passar por 13 cirurgias. Eu não lembro muito, era muito pequena, mas minha mãe fala que eu sofria muito, que eram muito dolorosas.

Por isso, consegui andar até os 10 anos de idade, mas nunca sozinha, sempre com auxílio de algum aparelho. Na época, eu morava no interior e a vida na escola era muito difícil na tentativa de andar. Os motivos eram os de sempre, o preconceito e o bullying que sofria. Outros alunos me chamavam de aleijada e robô.

Atormentei o meu médico  e a minha mãe até eu começar a usar a cadeira de rodas. Parei de usar os aparelhos depois que sentei na cadeira, minha mãe colocava e eu tirava. O sonho dos meus pais sempre foi me ver andando, mas eles também enxergaram o meu sofrimento em cada cirurgia.

Hoje eu não quero andar, tenho total liberdade com a minha cadeira e sou feliz assim. Sei que falar sobre isso é um assunto complexo, porque é muito difícil para quem um dia está andando e no outro está dependente de uma cadeira de rodas. Mas no meu caso foi uma escolha, eu ainda tenho chances de andar, mas o tratamento é a longo prazo e o médico diz que eu ainda preciso de muitas cirurgias.

É claro que no começo também não foi muito fácil. Infelizmente, as pessoas com deficiências passam invisíveis por muita gente. Foi graças a minha família que eu fui me reconhecendo e me aceitando do jeito que eu sou. Costumo ressaltar que o amor deles foi decisivo em tudo que eu sou hoje.

Quando mudei para Campo Grande já estava na cadeira de rodas, mas tinha muita vergonha do meu corpo. Carregava todo esteriótipo de beleza feminina, onde mulher com deficiência está literalmente fora dos padrões, o que é grande engano e desrespeito.

Existe chance de andar, mas não quero, tenho liberdade em cima da minha cadeira

Toda vez que via algum exemplo de beleza, eu nunca me via representada ali. Não usava roupas curtas com vergonha de mostrar as minhas pernas e receio que as pessoas ficassem olhando.

Foi aos 15 anos que tudo mudou quando comecei a ter contato com o esporte. Ali além de todo bem estar, passei a aceitar o meu corpo, me olhar no espelho e me sentir bonita.

Ano passado recebi a proposta de um ensaio sensual, o primeiro em que eu teria meu corpo exposto na fotografia para outras pessoas. Eu recebi o convite sem o menor receio, que na verdade foi libertador, não tive problemas em tirar a roupa e mostrar como eu era.

Porque na cadeira de rodas a gente descobre que a sociedade lá fora acha que não temos os mesmos anseios de uma mulher. Por isso hoje lido muito bem com esse tipo de preconceito. Na rua ou na balada os comentários são sempre os mesmos: “Tão bonita, mas pena que eu não anda”, por exemplo.

Antes confesso que eu ficava mal com a situação, mas hoje serve como filtro. Toda vez que alguém com esse tipo de pensamento preconceituoso se aproxima, eu sei que não serve para fazer parte da minha vida. Os homens também são os que mais se sentem inibidos, eles podem até dizer que não são preconceituosos, mas tem vergonha de chegar numa mulher cadeirante por medo do que os amigos ou as outras pessoas vão falar.

Hoje saio para a balada com as minhas amigas para me divertir e me sentir bem. Gosto do meu corpo, me aceito do jeito que sou em cima de uma cadeira de rodas. Teria chances de andar sim, mas não quero. Sou feliz em cima da cadeira e isso de ser triste por causa da minha limitação nunca existiu".

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