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Comportamento

Godofredo passou 54 anos tocando boiada e tem história para contar

Aos 86 anos, morador de Bela Vista guarda na memória as viagens que começaram na juventude

Por Clayton Neves | 19/10/2026 07:33
Godofredo passou 54 anos tocando boiada e tem história para contar
Foto antiga mostra Godofredo na época em que ainda estava na ativa pela estrada. (Foto: Arquivo Pessoal)

Por mais de meio século, seo Godofredo cruzou estradas entre estados conduzindo comitivas de gado por diferentes regiões do Brasil. Aos 86 anos, o morador de Bela Vista guarda na memória as viagens que começaram quando tinha apenas 19 anos e só terminaram em 2014, depois de 54 anos na estrada.

A história começou ainda na juventude, quando ele vivia na Fazenda Margarida, a cerca de 60 quilômetros de Bela Vista. Criado no campo, o vaqueiro conta que aprendeu cedo a lidar com cavalos, aos 14 anos, já trabalhava na lida rural. Mais tarde, depois de servir ao Exército, encontrou nas comitivas o caminho que seguiria por décadas.

“Minha primeira viagem foi em janeiro de 1959, quando me convidaram para acompanhar uma boiada até o interior de São Paulo. Saí de uma fazenda aqui perto de Bela Vista e cheguei lá depois de 45 dias pra entregar os animais”, detalha.

Segundo ele, naquela época o transporte era feito por terra, sem caminhões boiadeiros. “A gente andava muito longe, descansava em fazendas pelo caminho e aproveitava os campos abertos para alimentar os animais”, explica.

Foi durante essas primeiras viagens que Godofredo chamou a atenção de um condutor experiente, que chefiava comitivas da região. O homem percebeu que o jovem tinha habilidade para contar e controlar o rebanho e começou a ensinar-lhe os detalhes do serviço.

“Ele falou para mim: ‘Você é um peão que está muito interessado na boiada. Você vai ser um grande condutor de boi’”, recorda.

Não demorou muito Godofredo passou a contar sozinho os 1.300 bois de uma comitiva e conquistou a confiança dos patrões. Logo depois, recebeu a responsabilidade de conduzir boiadas maiores, inclusive para frigoríficos.

Com o tempo, o vaqueiro passou a trabalhar para diferentes pecuaristas e aumentou as distâncias percorridas pelas comitivas. Além das viagens para São Paulo, Paraná e para todo Mato Grosso do Sul, ele levou boiadas para regiões do Paraguai.

Em uma das viagens, ele lembra que o contrataram para levar 1.000 vacas de Mato Grosso do Sul até Cascavel (PR). O percurso durou 80 dias e centenas de bezerros nasceram durante a viagem.

“A boiada tinha que ir mais devagar, não andávamos muito quilômetros por dia para que os animais recém-nascidos pudessem mamar e ganhar força. Quando cheguei lá, entreguei as mil vacas e mais 600 bezerros que nasceram na estrada” ,afirma.

Naquela época, uma comitiva costumava ter cinco peões, além do condutor e de um cozinheiro, que preparava  as refeições durante os deslocamentos. “O cozinheiro era importante. O almoço precisava estar pronto perto do meio-dia, para todo mundo comer e retomar a viagem”, explica.

Apesar das longas distâncias, ele lembra que as condições da época ajudavam. “Tinha campos abertos, pastagens e água pelo caminho. O donos das fazendas também costumavam ajudar as comitiva na saída das terras e mostrava os lugares para  descanso”, destaca.

Ao longo da carreira, Godofredo também acompanhou as mudanças no transporte de gado. Primeiro, conduzia os animais por terra até o destino. Depois, passou a embarcar boiadas em trens, acompanhando os animais até as cidades onde seriam entregues.

Ele chegou a transportar lotes de 500 bois por viagem para fazendas em Araçatuba (SP), em várias viagens entre Mato Grosso do Sul e São Paulo. Quando os trens deixaram de ser uma opção, os caminhões boiadeiros começaram a ganhar espaço. Godofredo passou, então, a ajudar no embarque dos animais e continuou trabalhando com a compra e o transporte de gado.

Godofredo passou 54 anos tocando boiada e tem história para contar
Hoje, aos 86 anos, vaqueiro está aposentado, mas guarda lembranças da época das comitivas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 1968, o já experiente profissional decidiu trabalhar por conta própria. “Eu já trabalhava bem, conhecia pecuaristas de diferentes estados e isso ajudou”, pontua. A partir daí, continuou cruzando estradas e conduzindo rebanhos por longas distâncias, mantendo por anos  a atividade que havia aprendido ainda jovem.

Godofredo encerrou as viagens em 2014, quando tinha 74 anos. Segundo ele, nos primeiros anos da aposentadoria, a saudade era tanta que ele chegava a sonhar. “Eu sonhava de noite que estava na estrada viajando”, lembra.

Hoje, aos 86 anos, ele vive em uma chácara, onde cuida das pastagens e mantém algumas vacas para tirar leite para o consumo da família. A vida é mais tranquila, mas a ligação com o campo continua presente. “Criei meus filhos e dos seis filhos que tive, quatro trabalham em fazendas. Pra mim é um orgulho saber que eles continuam no trabalho que aprenderam comigo”, comenta.

Mesmo já aposentado, todos os anos seu Godofredo revive os velhos tempos conduzindo uma cavalgada realizada anualmente em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. A festa acontece há 11 anos e virou uma tradição na cidade. “Dá para matar a saudade”, finaliza.

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